Dossiê (In)Justiça epistêmica em Biblioteconomia e Ciência da Informação

2022-09-19
Fernando Broncano propõe uma abordagem da epistemologia que a concebe como política no quadro de um contexto democrático radical, indicando como ponto de partida que hoje todo o exercício ligado à produção de conhecimento que vemos e medimos como capital, e enquanto disputamos o conceito de conhecimento implica em disputar a própria vida. Especificamente em Biblioteconomia e Ciência da Informação, Bibliotecas desde Abya-Yala tem sido uma proposta de pesquisa-ação que tem buscado distanciar-se de forma contundente e decisiva dos lugares de enunciação hegemônicos, brancos, capitalistas e patriarcais, colocando em tensão a forma como tem sido produzidas essas ciências, para quê e para quem, e sobretudo que tipo de conhecimento a biblioteconomia e a ciência da informação têm o privilégio de preservar, difundir e priorizar no mundo da vida. Com uma década de trabalho, em torno de uma perspectiva anticolonial e latino-americana, tem sido visível não apenas a existência de lacunas informacionais e culturais, mas lacunas fundamentalmente epistêmicas baseadas em processos de injustiças epistêmicas que têm mantido a produção de conhecimento em torno de parâmetros científicos baseados exclusivamente na razão e no método. Além destas, surgem epistemologias de resistência, que, como diz Broncano, "se dedicam ao estudo de como o poder e a dominação podem danificar estruturalmente as posições epistêmicas de grandes grupos e coletivos sociais (...) a injustiça epistêmica e as formas de resistências a ela, mostram como a distorção produzida pela posição social de dominação em posições epistêmicas é uma base fundamental da opressão, exclusão, exploração e em geral das várias formas de injustiça” (BRONCANO, 2020, p. 21). Este Dossiê visa apresentar como a injustiça epistêmica na biblioteconomia e na ciência da informação é uma constante nos diversos cenários de ação da mesma, não só de fundação, mas também de ação. E como ao mesmo tempo existem hoje propostas de fundamentação e ação, de resistência que buscam a justiça epistêmica que privilegie a possibilidade do conhecimento como bem comum. Em particular, se espera poder abordar através de diversos temas os tipos de injustiças epistêmicas propostos por Miranda Fricker e refletidos por Beth Patin, Iris Marion Young, David Miller, cujos estudos fomentam o desenvolvimento de reflexões e contranarrativas que confrontam entendimentos da epistemologia clássica. Dentre as injustiças existentes, podemos citar quatro delas: Injustiça testemunhal, ocorre quando o outro é questionado na sua capacidade de conhecer. Ocorre quando o preconceito leva um ouvinte a diminuir a credibilidade de um emissor, não em um instante de exclusão acidental, mas de forma estrutural-sistemática; Injustiça hermenêutica refere-se ao vácuo interpretativo dos sujeitos que os impede de interpretar suas experiências porque não têm as ferramentas para fazê-lo. Corresponde a uma fase anterior em que a falta de recursos de interpretação coletiva dificulta ao sujeito a compreensão de suas próprias experiências; Injustiça curricular, que se refere à ausência de recursos físicos para favorecer o desenvolvimento epistêmico dos sujeitos de forma digna e equânime; Injustiça participativa, que ocorre quando os sujeitos são excluídos dos processos participativos de construção de seu desenvolvimento epistemológico Os tópicos sugeridos a serem desenvolvidos no Dossiê são: Epistemologias de resistência para/em biblioteconomia e ciência da informação; Conhecimento e democracia para/em biblioteconomia e ciência da informação; Danos e (in)justiças epistêmicas para/em biblioteconomia e ciência da informação; Conhecimento situado em biblioteconomia e ciência da informação; Epistemologias do Sul para/em biblioteconomia e ciência da informação; Populações historicamente subalternizadas na/pela biblioteconomia e ciência da informação; Justiça social e suas esferas: justiça racial, justiça de gênero, justiça ecológica e justiça informacional; Macro e microagressões contra pessoas marginalizadas em Bibliotecas e Unidades de Informação; Táticas de re-existência e redefinição de povos marginalizados.Cronograma Convocatória: 19 de setembro de 2022Envio de Resumos: até 21 de outubro de 2022 (para o e-mail natalia.duque@udea.edu.co e francigarces@yahoo.com.br) - resumos com título, até 200 palavras contendo e palavras-chaves.Envios dos textos completos: 21 de outubro de 2022 a 31 de janeiro de 2023Avaliação e edição: 1º de fevereiro de 2013 e 31 de março de 2023Lançamento: abril de 2023 Organizadoras Dra. Natalia Duque CardonaUniversidad de Antioquia, Colombianatalia.duque@udea.edu.co Doctoranda Franciéle Carneiro Garcês da SilvaUniversidade do Estado de Santa CatarinaUniversidad Federal de Mina Geraisfrancigarces@yahoo.com.br REFERÊNCIAS BRONCANO, F. Conocimiento expropiado: epistemología política en una democracia radical. España: Akal, 2020. CASTRO-GÓMEZ, S.; GUARDIOLA-RIVERA, Ó. El Plan Colombia, o de cómo una historia local se convierte en diseño global. Nueva Sociedad, v. 175, p. 111-120, sept./oct. 2001. FANON, F. Piel negra, máscaras blancas (ed. 55). Madrid: Ediciones Akal, 2o09. GLISSANT, É. Le discours antillais (1981). Paris: Gallimard, 1997. MIGNOLO, W. Decires fuera de lugar: Sujetos dicentes, roles sociales y formas de inscripción. Revista de Crítica Literaria Latinoamericana, Año 21, n. 41, p. 9-31, 1995. Disponible en: http://www.jstor.org/stable/4530794. MIGNOLO, W. Historias locales/diseños globales: colonialidad, conocimientos subalternos y pensamiento fronterizo. 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