MOVIMENTO ESTUDANTIL EM BIBLIOTECONOMIA: um olhar sobre UFSC ou A importância do movimento estudantil para a formação profissional

Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação

MOVIMENTO ESTUDANTIL EM BIBLIOTECONOMIA: um olhar sobre UFSC ou A importância do movimento estudantil para a formação profissional
Francisco das Chagas de Souza

1. Introdução

Movimento estudantil tende a ser uma expressão utilizada para recobrir um conjunto muito amplo de iniciativas do universo estudantil de um país, especialmente dirigidas para a construção e consolidação de uma independência de pensamento e ação.

Nesse sentido, alcança desde os estudantes de cursos em nível secundário até os que estão em cursos pós-secundários e cursos universitários articulados em torno de agremiações baseadas em cada escola ou universidade e se somando em centrais ou uniões estudantis em nível de estado e país. São estes estudantes, pelo número que representam, embora não exclusivamente caso se olhe para a atuação em política estudantil dos pós-graduandos, os que mais procuram dar visibilidade social aos seus anseios e preocupações. Possivelmente fatos como os: a) de estarem se preparando para o acesso a um mercado de trabalho sempre mais excludente, b) de terem como constante a necessidade de postular o rompimento das estruturas já construídas, e c) de terem o desejo de propor a atualização dos currículos escolares superados pelo avanço cotidiano do meio sócio-econômico, determinem que um estado permanente do movimento estudantil seja o da inconformação.

Esse estado de inconformação recorrente estabelece o fundamento para o conjunto de iniciativas que traduzem o movimento estudantil.

No caso brasileiro, em particular, o movimento estudantil teve sua época de maior ativação política no final dos anos 50 e início dos anos 60, notadamente por acasião das manifestações em quase todo o país dirigidas para a estatização, ou dizendo melhor, para a federalização das faculdades já estabelecidas ou que se estavam estabelecendo, muitas delas criadas por iniciativas não-estatais.

Relatos de lideranças acadêmicas da época como Martins Filho, no Ceará, e Aloísio Pimenta, em Minas Gerais, revelam a força representativa do movimento estudantil quando se envolveu na luta pela universidade pública estatal e sua contribuição para a ampliação no país de toda uma rede federal de ensino superior, que hoje alcança muito menos de 30% do alunado universitário.

É claro que os anos de chumbo da política brasileira, de 1964 ao final dos anos 80, esfacelaram as iniciativas políticas estudantis, matando as lutas progressistas e permanentes em torno da ampliação do investimento do estado em novas vagas na universidade estatal. Isso, ao lado de quebrar a força de inconformação do movimento estudantil, produziu uma forma de atuação quase só burocrática das entidades como UNE, e DCes e das organizações estudantis secundaristas de tal sorte que atualmente não conseguem ter o alcance das bandeiras que importam ao progresso com que sonhavam os que faziam a luta de 40 a 50 anos atrás.

Uma conseqüência do esvaziamento da luta estudantil nestes últimos anos foi a instalação muito facilitada e até incentivada de uma indústria de ensino universitário, de cursinhos e de escolas secundárias em que a palavra-chave é o lucro abusivo e o enriquecimento fácil de muitos grupos que exploram esta atividade. Esta indústria do ensino universitário hoje alcança sozinha muito mais de 70% das vagas oferecidas no ensino superior.

No auge do esvaziamento do movimento estudantil que hoje se vê, a bandeira que se pretende atual e articuladora da defesa da escola pública estatal, gratuita e de qualidade em vez de postular a ESTATIZAÇÃO DA UNIVERSIDADE, ou seja, a encampação pelo Estado da rede universitária privada limita-se a postular a NÃO-PRIVATIZAÇÃO DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS, o que nada mais é do que legitimar a privatização na medida em que torna possível à hegemonia das entidades envolvidas com o ensino privado fomentar um contra-discurso forjado na denúncia da incapacidade gerenciadora do Estado, da insuficiência de recursos públicos, difundindo-o através de veículos da grande imprensa em todo ou em parte comprometidos com este tipo de organização financeira e gerencial da educação.

É em face desta perspectiva, expressa por um movimento estudantil com tão falsa e pobre bandeira de lutas, que se pretende olhar como nele situa-se o estudantado de biblioteconomia, cuja maioria encontra-se matriculada em estabelecimentos da rede pública estatal de educação, especialmente nas universidades federais.

Contudo, não olharei todo o alunado brasileiro de biblioteconomia. Restringirei a abordagem ao Curso de Biblioteconomia da UFSC. Com isso, os resultados não poderão ser generalizados para todo o conjunto dos 31 cursos existentes, mas, é certo, pelas observações assistemáticas que venho realizando nos últimos cinco anos, não se distancia demais da média possível, representada pelo cotidiano operacional dos cursos.

2. captando os dados

Este texto tem duas fontes de informação como origem dos dados com que trabalha. A primeira vem a ser a pesquisa direta que estou desenvolvendo na UFSC, junto ao Departamento de Biblioteconomia e Documentação, cujo título do projeto é O ESTUDANTE DE BIBLIOTECONOMIA DA UFSC; perfil do ingressante e do formando no Curso. Para ela, a coleta de dados foi iniciada em agosto de 1996 e irá até agosto do ano 2000. Originalmente alcançaria 9 turmas de ingressantes e 9 turmas de formandos, o que de fato cobriria um contigente de pessoas que iniciaram o Curso em agosto de 1992 (caso dos formandos) até aqueles que iniciando em agosto do ano 2000 sairão em agosto de 2004). É, portanto, uma pesquisa que resgata dados ou contata um conjunto de pessoas que somará uma vivência de 12 anos de curso de Biblioteconomia aqui na UFSC. A pesquisa usa como instrumento um questionário de 32 quesitos, com perguntas abertas, fachadas e mistas.

A segunda fonte de informação é um documento da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação da UFSC, oriundo da Comissão de Avaliação de Ensino de Graduação –CAEN, dando conta da situação do Curso de Biblioteconomia com dados sobre o número de alunos de 1992 a 1995, incluindo ingresso no vestibular conforme a opção; número de formandos de 1991 a 1995, evasão, retenção, diplomação, etc. os quais podem auxiliar na discussão que aqui se deseja encetar.

Deste ponto de vista, esta comunicação baseia-se em um levantamento de dados diretos de cinco turmas e registra uma vivência de mais de 6 anos e uma expectativa de vivência para os próximos 4 anos.

A partir da pesquisa direta com 130 novos alunos ingressantes entre agosto de 1996 e março de 1998 captou-se informações de 81 deles e dos formandos só foram captadas informações referentes aos 18 que concluíram o curso no segundo semestre de 1996. As razões pelas quais foram captadas informações apenas destes formandos têm causas metodológicas, incluindo revisão de estratégias do projeto de pesquisa.

No desenho do projeto, dentre os itens previstos para captação de dados, havia três que guardavam como intenção encontrar elementos que pudessem ser lidos como respostas para uma visão possível da relação do estudante com uma prática política associada à sua participação em iniciativas constituintes do movimento estudantil ativo e transformador.

Os três itens referidos perguntam ao estudante o seguinte:

  • Razões para a escolha do Curso de Biblioteconomia
  • Razões pelas quais desistiria deste Curso e os Cursos preferidos para uma mudança
  • Reflexão sobre o Centro Acadêmico do Curso
 

Tendo em vista os objetivos pretendidos com a pesquisa, estas perguntas são de caráter aberto, tendo as respostas a máxima expressão subjetiva do estudante, de tal modo que a pesquisa evitou sempre a indução de respostas ou de fazer hegemônica a perspectiva do pesquisador.
 

3. Resultados e discussão

3.1.1 Exposição dos dados

Como uma estratégia de leitura das informações colhidas, situar-se-á cada um dos itens como eixo de agrupamento das respostas fornecidas pelos estudantes ingressantes e, em seguida, será feita a discussão utilizando como subsídios os registros fornecidos pela Comissão de Avaliação do Ensino de Graduação e outros dados colhidos na pesquisa direta já referida.

a) Razões para a escolha do Curso de Biblioteconomia na UFSC

Neste item sobressaem-se os seguintes aspectos:

. O objeto LEITURA

. O objeto LIVROS

. A BIBLIOTECONOMIA

. Qualidades do CURSO

. ORGANIZAÇÃO / ADMINISTRAÇÃO

. Condições de ACESSO AO CURSO

. MERCADO DE TRABALHO
 

b – Razões para desistência do Curso de Biblioteconomia da UFSC

Neste item destacam-se os seguintes aspectos:

. Busca de OUTRO CURSO

. DESMOTIVAÇÃO / DESINTERESSE

. Disponibilidade de TEMPO PARA ESTUDO

. AUSÊNCIA DE ALGUM CONTEÚDO desejado

. Busca da VOCAÇÃO

. CARÊNCIA FINANCEIRA

. TRANSFERÊNCIA DE CIDADE

. EXTINÇÃO DO CURSO
 

c – Cursos preferidos em caso de desistência do Curso de Biblioteconomia
 

Cursos mais preferidos  Nº de Pessoas
- Administração (2) 
- Agronomia
- Biologia 
- Ciências Contábeis (5)
- Ciências da Computação (4)
- Direito (1) 
- Enfermagem 
- Engenharia Química 
- Farmácia 
- Fonoaudiologia 
- Jornalismo 
- Letras Inglês 
- Medicina 
- Odontologia 
- Pedagogia 
- Psicologia (3)
10
2
2
3
5
11
2
1
1
1
2
2
1
1
1
7
 
  1. Reflexões sobre o Centro Acadêmico
d.1 – Como a entidade é definida pelos alunos ingressantes

. alunos que REPRESENTAM a turma

. alunos eleitos para DEFENDER direitos e interesses dos demais alunos

. comissão que LUTA pela aquisição de materiais para o curso

. órgão que BUSCA um curso com qualidade cada vez melhor, com a colaboração de

todos os alunos

. organização para REPRESENTAR os alunos

. um tipo de grêmio estudantil

. lugar onde se DISCUTE sobre o curso

. lugar onde são TOMADAS DECISÕES E RESOLVIDOS os problemas da sala de aula

. canal entre os alunos e a reitoria (NEGOCIAR)

. informações para os alunos sobre o curso
 

d.2 –Em que o CA poderá melhorar o curso

. buscando sempre o MELHOR

. atuando como a VOZ ATIVA dos alunos

. abrindo ESPAÇOS PARA DISCUSSÃO

. auxiliando na LUTA PELOS DIREITOS

. sanando os problemas com UNIÃO COLETIVA

. resolvendo DIFICULDADES OU PROBLEMAS dos alunos

. ajudando os estudantes a ESTUDAR MELHOR

. ensinando COISAS QUE OS ALUNOS NÃO SABEM

. centralizando INFORMAÇÕES

. informando sobre a possibilidade de inclusão de OUTRAS DISCIPLINAS E PALESTRAS

. oferecendo RECURSOS PARA DESENVOLVER MELHOR AS ATIVIDADES DO CURSO

. organizando a METODOLOGIA DO CURSO

. ajudando a ATUALIZAR O CURSO

. evidenciando as DIFICULDADES DO CURSO

. apontando ERROS E ACERTOS DO CURSO

d.3 – Conhecimento que os alunos ingressantes têm sobre quem pode ser dirigente no CA

- Nenhum

 

d.4 – Condições para ser dirigente do CA?

. ter TEMPO DISPONÍVEL

. estar QUALIFICADO

. ter FACILIDADE EM ORGANIZAR GRUPOS

. ajudar na LUTA
 

d.5 – Motivos para não ser dirigente do CA.

. Falta de tempo

. Morar longe

. Estar no início do curso

. Inibido

. Ter que assumir muitas responsabilidades

. É competência de turmas mais avançadas, com mais experiência
 
 

3.2 . Discussão

O que se pode observar nas falas encontradas nos questionários é que o Curso foi escolhido por significar alguns conceitos ou identificações cristalizadas na sociedade, como decorrentes de perspectivas sociais muito arraigadas que associam Biblioteconomia com LEITURA, LIVROS ou ORDEM (Organização e Administração).

De outro lado, o aluno vê no curso de biblioteconomia uma certa facilidade de acesso. Muitos dizem que não é um curso difícil para nele entrar, tem baixa concorrência permitindo, por isso, o ingresso mais tranqüilo em Segunda opção. Por fim, alguns conseguem perceber a existência de um mercado de trabalho para bibliotecários, ainda que seja no interior do estado catarinense.

Uma vez ingresso no curso de Biblioteconomia, razoável contingente de alunos continua mirando outros cursos da universidade. A maioria deles deseja migrar para outras opções. Nesse sentido, os dados da PREG/CAEN, abaixo, demonstram, a partir dos indicadores selecionados, que o grau e o tipo de envolvimento da maioria dos alunos com o Curso de Biblioteconomia não sustenta uma luta ou esforço maior pela própria sobrevivência da área. É até possível dizer que a posição heróica de alguns, talvez daqueles que ingressaram em primeira opção, que são poucos, permita a manutenção deste Curso. Veja-se os dados da CAEN:
 

  • De 1992 a 1996 a média de alunos do Curso de Biblioteconomia em situação de trancamento em relação ao número total de alunos do Curso foi de 21%, com o menor percentual em 1992 [14%] e o maior em 1994 [27%].
  • No ano de 1994 o percentual de ingressantes em 1ª opção no Curso de Biblioteconomia foi de 18,1%, enquanto na UFSC, como um todo, a 1ª opção representou naquele ano 84%.
  • No ano de 1995 o percentual de ingressantes em 1ª opção no Curso de Biblioteconomia foi de 28%, enquanto na UFSC, como um todo, a 1ª opção representou naquele ano 83%.
  • De 1991 a 1995 o percentual médio de formandos em relação ao número de ingressos no Curso de Biblioteconomia foi de 25%.
  • Quanto à variável evasão no Curso de Biblioteconomia, considerando o período máximo de 14 semestres para o estudante concluir o Curso, a partir de seu ingresso, tem-se o seguinte:
 
 
Ingressos em Prazo máximo de formação % de evasão
1986-1 1992-2
33,33
1986-2 1993-1
46,51
1987-1 1993-2
34,15
1987-2 1994-1
75,56
1988-1 1994-2
64,04
 
Comparando-se estes dados das taxas de evasão do Curso de Biblioteconomia da UFSC não com as de outros cursos de biblioteconomia da Região Sul mas com as de áreas mais amplas ofertadas em Universidades Públicas sediadas na Região Sul, no mesmo período, como Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Humanas, Ciências da Saúde, Ciências Sociais Aplicadas, Engenharias, Lingüística, Letras e Artes, constata-se que o Curso de Biblioteconomia da UFSC tem as mais altas taxas de evasão e que as disciplinas que mais provocam esta evasão (se for tomado como indicador a reprovação por freqüência insuficiente) são: Matemática Básica, Informação Aplicada à Biblioteconomia e Português Prático.

Pelos indicadores de trancamento, formandos, 1ª opção e evasão, vê-se materializado o forte desejo de transferência do alunos do Curso de Biblioteconomia da UFSC para outros cursos. De outro lado, tal desejo dirige-se para certas preferências, sendo priorizados os cursos de: Direito, Administração, Psicologia, Ciência da Computação e Ciências Contábeis. Tão forte é esse desejo de transferência para outros cursos, que dentre as razões para desistência do Curso de Biblioteconomia a primeira é a BUSCA DE OUTRO CURSO, seguida por DESMOTIVAÇÃO ou DESINTERESSE, POUCO TEMPO PARA ESTUDO, FALTA DE CONTEÚDO DE APLICAÇÃO IMEDIATA, DESCOBERTA DA VOCAÇÃO ou FALTA DE RECURSOS FINANCEIROS.

Ora, isso colocado nestes termos é um corolário denunciador de como é pobre a concepção para o aluno novo do que é um Centro Acadêmico (CA), ou seja, o CA é um terceiro indivíduo, um substituto, quase um pai da turma, bem ao estilo do sistema político e social brasileiro, de caráter patriarcalista como afirma Raymundo Faoro no livro Os donos do poder.

Nas definições fornecidas pelos ingressantes, encontram-se como ações do CA as de: REPRESENTAR, DEFENDER, LUTAR, BUSCAR, DISCUTIR, RESOLVER e NEGOCIAR. O CA aparece como CANAL, LOCAL, LUGAR, ÓRGÃO, COMISSÃO, ou seja, para ele são transpostos pelos alunos ingressantes no curso de Biblioteconomia os rótulos tradicionais que indicam estranhamento e que são rótulos ou modos de expressar elaborados pela sociedade e pelo discurso político.

Por trazerem tais idéias da sociedade em volta, pois nela vivem, os estudantes, desde o seu ingresso no Curso, não conseguem ver o CA dentro da concepção clássica de associação ou seja na perspectiva de um pacto de companheirismo. Tanto isso é um fato que, de modo geral, esses estudantes não têm clareza sobre quem pode dirigir o CA. Apenas quando perguntados se teriam interesse em se envolver com atividades diretivas no CA é que conseguem fazer algumas reflexões em torno disso, especialmente quando analisam que condições teriam para participar ou quais os motivos para não fazê-lo.

Há uma contradição nisso tudo, pois embora reconheçam a importância do CA como possibilidade de forjar a melhoria do Curso fogem do envolvimento com essa instância que definem como fórum com importante peso político. Isso ocorre quando designam as ações a serem desempenhados pelo CA e as impossibilidades de partilharem a direção do CA. No extremo, fogem da ação política e não se comprometem com a busca de soluções, embora apontem o que são as soluções a serem buscadas: o MELHOR, VOZ ATIVA, ESPAÇOS PARA DISCUSSÃO, DIREITOS, UNIÃO COLETIVA, SOLUÇÕES, LIDERANÇA, CURSO ATUALIZADO. Então as perguntas seguintes são: quem fará isso? Quem garantirá o cumprimento dessas soluções? Se não forem todos os alunos, que embora tendo representantes devem fazer junto o caminho, serão os pais, na velha concepção do dirigente como Chefe. Deixar o processo fluir desse modo, não é, na verdade, uma forma de poder apontar um culpado quando as coisas forem más ao juízo da maioria silenciosa? Ou, pensando de outro modo, não estão fazendo com isso uma prática da cultura de supermercado? Isto é, vêm à escola e compram o que tem. Se tem tudo, levam tudo, se tem pouco levam pouco. Falam bem ou falam mal do supermercado mas não falam mal de si próprios por não terem modificado esse supermercado, porque não querem comprar nesse supermercado. Compram nele apenas enquanto falta capital ou chance de comprar em outro. Ou seja, a maioria dos estudantes que ingressam no Curso de Biblioteconomia, ao ingressar nele pressionado pelas circunstâncias de obter aprovação em segunda opção no vestibular, não quer ficar no mesmo, e se o faz é em caráter meramente acidental, é forçado, não tem prazer da situação, se sente um universitário menor. Nessa perspectiva, por que modificá-lo, quando pode sempre reclamar dele como de uma coisa ruim em sua vida?

Nesse caso, parece mesmo impossível encontrar, nos alunos ingressantes que responderam à pesquisa, DISPOSIÇÃO DE LUTA, ENVOLVIMENTO NA LUTA, pois os motivos dados para não ser dirigente do CA são impensáveis no discurso de quem quer mudar. Assim, parecem fugas as alegadas FALTA DE TEMPO, MORAR LONGE, SER INIBIDO ou TER QUE ASSUMIR MUITAS RESPONSABILIDADES. Para quem acredita na luta, estas são desculpas que não têm cabimento. Por isso, parece, a coisa é outra, é a despolitização, é a massificação, são as situações em que dos estudantes a própria sociedade, o governo, a escola, os professores não querem mais que uma assistência comportada às aulas e aos trabalhos e eles terminam assimilando isso. Desse modo, passa a ser fácil à escola lhes estimular a inscrição para os estágios mal remunerados e exploradores que fecham, inclusive, mercado de trabalho para profissionais. Ficam como que dadas as situações que levando os estudantes aos estágios mal remunerados não permitem que a maioria deles fuja pois dali passa a vir a mesada que o baixo salário, criado pela política de economia e trabalho do Governo, oferece às famílias impedindo-as de manter seus filhos na escola sem tê-los que deixar submeter-se a essa semi-escravatura chamada estágio remunerado.

E esse conjunto de fatores despolitizadores, massificadores e economicamente massacradores reforça, como exemplo concreto, o que acontece na hora em que se faz um evento como o ENEBD, que é um dos exemplos mais significativos do que pode produzir um movimento estudantil em Biblioteconomia, ou seja, o acontecimento da baixa participação quantitativa dos alunos em termos do envolvimento com sua organização e até uma certa incompreensão de alguns professores de Biblioteconomia quanto à relevância de um momento político e pedagógico como este para o estudantado, para a escola, para a profissão bibliotecária e para a sociedade. De outro lado, a baixa participação dos estudantes na construção do ENEBD tende a uma vez mais confirmar a exigida predominância da atuação da representação, da liderança, da chefia, do pater corpus como algo inescapável. Com isso, se reproduz novamente a idéia do supermercado, onde muitos vêm comprar um produto que poucos elaboraram e, ao fim, vão fazer um julgamento a respeito, e nem sempre com autocrítica. Vai-se produzir uma situação em que se houver fracassos na organização, e espero que não ocorram neste ENEBD, esses fracassos tendem a não ser compartilhado pelo conjunto dos estudantes de Biblioteconomia do Brasil. Em outros termos, dos quase 300 alunos do Curso de Biblioteconomia da UFSC quase ninguém se envolveu diretamente com a organização do XXI ENEBD, senão aqueles 10 ou 12 que dirigem ou militam em torno do CA.

Como já foram levantadas algumas possíveis causas do não envolvimento dos alunos da Biblioteconomia da UFSC com um evento do porte do ENEBD, que é o marco maior do movimento estudantil em Biblioteconomia, quais seriam os possíveis efeitos? Nisto, acho, fundamenta-se a pergunta que entendi ter-me sido colocada como tema para esta comunicação quando recebi o convite para aqui refletir sobre A importância do movimento estudantil para a formação profissional". É com a reflexão sobre esta questão que tentarei encaminhar o encerramento desta fala.

4. Importância do movimento estudantil para a formação profissional

Como já afirmei no início, concebo todo movimento estudantil como a busca de muitas conquistas, a partir de iniciativas discutidas e rediscutidas permanentemente pelos estudantes. Naturalmente, isso exige a animação de um núcleo coordenador mas não hegemônico em suas idéias e tendo como motor de ação a incorformação recorrente.

Nesse sentido, o movimento estudantil é permanente, embora todos os estudantes, na condição de passageiros, tenham nele um recurso fundamental para a construção da cidadania e, em conseqüência, da futura profissão. É aí onde enxergo sua importância.

Assim, quando muitos estudantes nele não se envolvem diretamente e deixam-se conduzir por suas lideranças, vejo como como efeitos o aguçamento da despolitização e o fortalecimento da massificação que serão levadas para dentro do exercício futuro da profissão.

Trazendo essa discussão para a Biblioteconomia vejo a postura de despolitização e de massificação nos próprios professores que, no caso do Curso de Biblioteconomia da UFSC, termina sendo subliminarmente revelada nas respostas dadas ao questionário da pesquisa direta aplicado aos formandos de 1996-2. E da mesma maneira que sugiro serem os resultados obtidos dos recém ingressos no Curso de Biblioteconomia da UFSC extensíveis à maioria dos cursos de biblioteconomia brasileiros, vejo que a afirmação da despolitização e a ação massificadora estão associadas à prática da maioria dos professores de Biblioteconomia que usam-na para tentar, conscientemente ou não, politizar a despolitização de seus alunos.

O mais grave e que é efetivamente contrastante com isso é o fato de que vários cursos de biblioteconomia inserem em seu objetivo principal o propósito de formar "profissionais críticos e transformadores".

Porém, retornando ao ponto de reflexão, a importância do movimento estudantil está em levar à construção da cidadania plena do estudante e à permanência da construção de sua futura profissão. Entretanto, creio, há detalhes aí embutidos que exigem perguntas como: 1 – o que é cidadania? e 2 – o que é profissão? E para estas questões há várias respostas possíveis, conforme seja a teoria social ou política sob as quais forem analisadas.

Saindo do geral para o mais restrito, cabe perguntar ao auditório o seguinte:

1 – há movimento estudantil na Biblioteconomia?

2 – se há, onde deseja chegar?

3 – se há, qual a sua prática como movimento?

4 – se há, tem clareza de que caminha para a construção da cidadania e da profissão ou aponta sua atuação para outros alvos?

  1. – se há e tem clareza dos alvos para onde caminha, definiu as concepções ou adotou concepções de outros para esses alvos?
 

A partir do debate de questões deste tipo pelo estudantado de Biblioteconomia, creio que se pode retornar ao debate mais amplo e daí discutir respostas possíveis para a questão subentendida no tema que, formulada explicitamente, é: "o movimento estudantil em biblioteconomia é importante para a formação do profissional bibliotecário?"

Ficarei na expectativa do resultado de uma discussão assim. Espero que, uma vez feita, produza respostas que ampliem a resposta óbvia que se pode dar hoje, a partir da avaliação dos dados da pesquisa em realização na UFSC em parte aqui relatada. Essa resposta, todos perceberam, tende a representar a própria postura da maioria silenciosa do estudantado de Biblioteconomia brasileiro.
 
 

Bibliografia

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 MONREAL, Eduardo N. La universidad latinoamericana y el problema social. México: UNAM, 1978.

PIMENTA, Aloísio. Universidade; a destruição de uma experiência democrática. Petrópolis: Vozes, 1985


Disponibilizado na WWW em 26/10/1998.


Enc. Bibli: R. Eletr. Bibliotecon. Ci. Inf., ISSN 1518-2924, Florianópolis, Brasil.



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