Encontros Bibli, v.1 n.2, set. 1996

Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação

Encontros BIBLI, Número 2, Florianópolis, setembro de 1996

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Produzido por Francisco das Chagas de Souza - Doutor em Educação Professor do Departamento de Biblioteconomia e Documentação Universidade Federal de Santa Catarina 88040-900 Campus Universitário - Trindade Florianópolis - Brasil - Telefone: 048 2319304 Fax: 048 2335351

Os Paradigmas da Biblioteconomia e suas implicações no Ensino desta Ciência
Introdução Paradigma em Thomas Kuhn Paradigmas da Biblioteconomia - Tradicionais Paradigmas da Biblioteconomia - Novos Conclusão Bibliografia

Os Paradigmas da Biblioteconomia e suas implicações no Ensino desta Ciência

Professor Francisco das Chagas de Souza, Dr. 

INTRODUÇÃO

Em recente evento [Simpósio Brasil-Sul de Informação] realizado em maio de 1996 em Londrina, no Paraná, cujo objeto de discussão foi o novo Paradigma da Biblioteconomia, abordou-se esse novo Paradigma como sendo a Informação.

Sob a perspectiva apontada, este seria o novo paradigma, porque o velho paradigma era o documento. Em que pese a importância da discussão, o objeto precisa de mais análise.

A noção mais elaborada para o conceito de paradigma indica que ele está melhor estabelecido dentro da concepção da ciência enquanto esta é vista como o domínio da Física. E, neste campo, portanto, está vinculado a uma compreensão de como se constituiu historicamente este espaço de conhecimento. Assim, à primeira vista, o conceito filosoficamente mais consistente de paradigma, ao estar muito vinculado à formação do conhecimento em uma ciência quantitativa, não poderia ser imediatamente transportado, sem discussão mais abrangente, para qualquer outra ciência. Nesta situação, se aplicaria menos ainda para ciências que, como a Biblioteconomia, vão se constituir socialmente.

Desse modo, o que se pretende com este texto, é resgatar, ainda que rapidamente, algumas noções, a partir de Thomas Kuhn, do que seja o conceito de paradigma no mundo científico. Embora este conceito geral não pareça facilmente aplicável às ciências que se constituem por uma prática social e, em particular, à Biblioteconomia, é necessário considerar que o conceito é utilizado, também, por pesquisadores deste campo profissional.

A Biblioteconomia, como é possível ver, é uma ciência da empiria, uma ciência que ainda não vai além da consolidação e registro das experiências positivas no uso, organização e sistematização de instrumentos de controle para identificação, localização e recuperação de documentos, ou seja, é, ainda, uma quase ciência que pouco extrapola o bom senso codificado.

Também se fará um esforço, neste texto, no sentido de buscar relacionar como a idéia de paradigma, uma vez aplicada à Biblioteconomia, pode gerar implicações no saber e na prática pedagógica desta ciência. 

PARADIGMA EM THOMAS KUHN

O estudo de Thomas Kuhn, A estrutura das Revoluções Científicas, é o texto que trouxe à tona o uso do conceito de paradigma nos anos 1970/80, aplicado à história do fazer científico.

Um primeiro aspecto que chama a atenção é o fato do autor dirigir sua análise sob a perspectiva de que a visão paradigmática tenciona orientar a quem se prepara para ingressar na atividade científica. Diz explicitamente que “o estudo dos paradigmas [...] é o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica na qual atuará mais tarde”, p. 31.

Isso significa que esse candidato a cientista irá estudar modelos do campo científico de seu interesse a fim de moldar-se nos fundamentos da “ciência normal” (Kuhn) desse campo. Aliás o significado clássico de paradigma em Platão, por exemplo, é a idéia de modelo. Uma vez moldado ao modelo, o novo cientista domima uma espécie de mapa do conhecimento limitada à sua zona de escolha. Enfim, ele tem a assimilação de um roteiro. Isto ocorre desse modo porque “...uma comunidade científica, ao adquirir um paradigma, adquire igualmente um critério para a escolha de problemas que, enquanto o paradigma for aceito, poderemos considerar como dotados de uma solução possível”, p. 60.

Percebe-se, numa análise mais detida, que o conceito de paradigma, aqui recuperado, associa-se à atividade de busca visando a transformação e a ampliação do conhecimento. Com isso, aproxima-se bastante da idéia do mapa do conhecimento dominado por um dado grupo. À idéia deste mapa do conhecimento está associada a idéia da existência de um patamar básico de conhecimentos que existiriam como necessários para dar suporte à concepção e à recepção das questões científicas. Tal circunstância, conforme Kuhn, vai ser demonstrada pela investigação histórica da comunidade acadêmica. Ele vai dizer que uma investigação atinente à comunidade científica “de uma determinada especialidade, num determinado momento, revela um conjunto de ilustrações recorrentes e quase padronizadas de diferentes teorias nas suas aplicações conceituais, instrumentais e na observação”, p. 67. E, diz também, que tais ilustrações são “os paradigmas da comunidade, revelados nos seus manuais, conferências e exercícios de laboratórios”, p. 68

No aprofundamento de sua discussão, Kuhn observa um conjunto de fenômenos que conforma os candidatos a pesquisadores à formação de uma falsa idéia de linearidade da evolução de seu respectivo campo especializado, que funcionaria como um fundo não dialetizado do saber daquele domínio dando-lhe certeza do perfil do conhecimento mais correto. Com isso, forma-se a crença nesse saber que, sendo seguido como verdadeiro, levará imediatamente a uma resistência às mudanças. Quando tais certezas vêm a se embaralhar e as explicações para os fenômenos começam a ser contraditadas, ou quando outras explicações são apresentadas em eventos científicos com tendência à aceitação e quando as práticas de laboratório seguem principamente teorias mais recentes e adotam outros procedimentos metodológicos, produzindo resultados científicos mais facilmente aceitos, está instalado outro paradigma.

De outro lado, a perspectiva Kuhniana tende a ser drástica quanto à forma de ruptura que o novo paradigma provoca na comunidade científica. Para ele, “quando a comunidade científica repudia um antigo paradigma, renuncia simultaneamente à maioria dos livros e artigos que o corporificam, deixando de considerálos como objeto adequado ao escrutínio científico”, p. 209. Isso, não quer dizer, naturalmente, que a ruptura se dá de imediato. No entanto, pode significar uma guinada de fato, especialmente se for olhado como Kuhn estabelece o conceito-síntese de paradigma. Sua concepção é a de que “um paradigma é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma”, p. 219. 

PARADIGMAS DA BIBLIOTECONOMIA - Tradicionais

A Biblioteconomia, -- enquanto uma ciência que se determina por uma prática social e que se consolida pelo registro e codificação das experiências positivas no uso, organização e controle dos documentos que são buscados pelos seus conteúdos [informação] -- é, naturalmente, muito plástica e seus paradigmas científicos não podem ser determinados por seus objetos de operação.

A Biblioteconomia opera com informação e com suporte de informação [materialmente, documento] e tem na organização e controle do fluxo destes e nos sujeitos [geradores e consumidores] de informação os objetivos determinantes do seu campo científico. Historicamente, ela trabalha com aqueles objetos, e embora mudem formatos e suportes, segundo o nível de atualização tecnológica de cada época, os objetos informação e organização de seu fluxo são os mesmos. O que há são novos sujeitos [geradores e consumidores] de informação internada nos diferentes suportes. Contudo, nessas novas circunstâncias, o instrumental de organização e de controle seguirá os mesmos princípios voltados à identificação, coleta, reunião, difusão e disponibilização da informação em seus suportes.

Sob esta ótica de análise, o mundo prático da Biblioteconomia constitui-se de:

  • a) OBJETOS DE OPERAÇÃO: representados por informação e suportes de informação;
  • b) SUJEITOS [geradores e consumidores] dos objetos com que opera;
  • c) PROCEDIMENTOS OPERADORES: representados por Organização e Controle do fluxo de seus objetos de operação dos e para os sujeitos [geradores e consumidores];
  • d) PESQUISA CIENTÍFICA dos sujeitos, dos procedimentos operadores e do processo de educação para a sua realização;
  • e) EDUCAÇÃO dos executores dos procedimentos operadores e dos pesquisadores das fontes e dos procedimentos operadores.

    Do mesmo ponto de vista, pode-se dizer que o mundo científico da Biblioteconomia é constituído, através de sua prática de pesquisa científica, pela construção de abstrações e conceitos advindos de seu mundo prático e de sua pesquisa.

    Ainda mantendo o enfoque na visão Kuhniana, deveremos concentrar nossa busca na descoberta do que é paradigmático na Biblioteconomia, naquilo que constitui ou representa o seu mundo científico, ou seja, naquilo que integra uma comunidade científica deste campo, e que produz as questões que essa comunidade necessita para desenvolver essa linha de ação. Isso é:

  • a) Perfis de produtores e consumidores de informação;
  • b) Organização e controle do fluxo de informação e seus suportes; e
  • c) Processo de educação dos produtores e consumidores de informação, bem como dos operadores da Organização e do Controle do fluxo da informação e seus suportes.

    A partir desta visada, em que já se começa a perceber os paradigmas da Biblioteconomia, passa a ser estranha a idéia de que o antigo paradigma da Biblioteconomia centrava-se em documento e de que o paradigma atual centra-se em informação.

    Traduzindo-se mais claramente, o que a Biblioteconomia permite perceber como conteúdos constitutivos de sua atuação científica são:

  • a) Perfis de leitores, usuários e clientes;
  • b) Perfis de cientistas, tecnólogos e produtores de cultura;
  • c) Modos de organização da informação e do conhecimento;
  • d) Modos de controle do fluxo da informação ou da transferência do conhecimento;
  • e) Processos de educação ao uso da informação de leitores, usuários e clientes;
  • f) Processos de produção de cientistas, tecnólogos e produtores de cultura escrita;
  • g) Processos de educação de operadores da Organização da informação e do conhecimento;
  • h) Processos de educação dos controladores do fluxo da informação e da transferência do conhecimento.

    Pelo que se tem até agora nesta discussão, a partir da Moderna Biblioteconomia iniciada por Melvil Dewey, ainda que modificada por S. R. Ranganathan, é possível fazer-se uma sistematização que ressaltaria:

    1. Os modos de organização da informação e do conhecimento;

    2. Os modos de controle do fluxo da informação ou da transferência do conhecimento;

    3. Processos de educação de operadores da organização da informação e do conhecimento;

    4. Processos de educação dos controladores do fluxo da informação e da transferência do conhecimento.

    Isto vai significar que os atuais e já velhos paradigmas da Biblioteconomia passarão pela seguinte convergência:

  • i. A Organização da informação, especialmente a difundida nos formatos livros, folhetos e periódicos sobre o suporte papel;
  • ii. A Classificação do conhecimento em Sistemas de Organização ideográfica, o que exige também o estabelecimento de procedimentos para a descrição de livros, folhetos e periódicos, como exigência para garantir sua localização física;
  • iii. A Organização de currículos escolares para a formação de organizadores da informação e classificadores do conhecimento.

    Mais objetivamente, esta convergência vai apontar na direção de que os paradigmas atuais e já velhos da Biblioteconomia podem ser explicitados da seguinte maneira:

    1. Modelo Deweyiano de Organização da informação; e

    2. Modelo Deweyiano de Educação bibliotecária.

    Isso, em síntese, remeteria para um Paradigma geral que pode ser chamado de Paradigma da Estabilidade da Organização da Informação.

    O universo científico da Biblioteconomia vem operando com esses modelos Deweyianos. O primeiro encontra-se em crise evidente, mas ainda representa a principal estrutura de organização da informação. Mantém-se em evidência e faz um enorme esforço de atualização. Suas bases estruturais ainda sustentam um universo informacional e do conhecimento dividido em dez partes.

    O segundo modelo Deweyiano também está em crise, mas ainda se mantém, especialmente por estar diretamente relacionado ao primeiro, e essa relação se manifesta não apenas porque foi formulado pelo mesmo idealizador, mas principalmente porque alcançou grande expansão internacional na esteira do imperialismo norte-americano. E sua sustentação, do mesmo modo que a de currículos de outros níveis escolares, se dá pelo papel de modelo que, em quase todo o mundo, é atribuído para o padrão educacional dos Estados Unidos, segundo Benavot e outros, citado por N. Saviani.

    Nos últimos trinta anos, viu-se na Biblioteconomia, a tentativa da inserção paradigmática dos: a) Perfis dos sujeitos [geradores e consumidores] de informação; e b) Educação ao uso e produção da informação, convergindo para um virtual paradigma Usuários da informação. No entanto, este modelo não foi viabilizado dada a inconsistência de sua construção teórica que não fomentou um quadro metodológico consequente. O insucesso relativo da tentativa veio como resultado da não produção de explicações, conceitos e abstrações mais universais que eram esperadas. Isso, em si, encerra, como em toda a Biblioteconomia, a incapacidade de seus pesquisadores em vê-la sobretudo como condicionada a contextos, na medida em que sua construção se dá a partir das práticas existentes em cada sociedade.

    PARADIGMAS DA BIBLIOTECONOMIA- Novos

    Tanto o Modelo Deweyiano de Organização da Informação quanto o Modelo Deweyiano de Educação Bibliotecária estão em crise, porque em crise está a concepção do universo determinado, fechado, concebido pela visão pragmática de Melvil Dewey, conformada pelas estruturas mentais do século XIX. O primeiro modelo Deweyiano entrou em crise aguda com as fórmulas de Organização da Informação imaginadas e construídas por Ranganthan que parte de uma visão de universo em expansão e que, a partir dessa visão, estruturou o seu sistema de classificação da informação e do conhecimento, o Sistema dos Dois Pontos. Tal sistema tem no facetamento dos assuntos o mecanismo para dar conta dos desdobramentos do conhecimento. Este sistema foi idealizado, sobretudo, a partir de uma metáfora linguística e mecânica conforme afirmação de seu autor. E o sistema se sustenta porque a língua, ainda que use uma simbologia básica para sua representação, o alfabeto, tem na construção dos sentidos e na combinatória desse mesmo alfabeto uma ilimitada e incontrolada capacidade de expansão.

    O segundo modelo Deweyiano, o da Educação bibliotecária, entrou em crise ainda na década de 30, nos Estados Unidos, quando da criação da Pós-Graduação em Chicago, mas sem vencer a incerteza quanto à própria necessidade de uma Educação Bibliotecária formal para a realização da Organização da Informação e do conhecimento, fato que ainda se lê muitos anos depois em L. Asheim.

    A enorme expansão econômica e técnica dos últimos 50 anos vem exigindo cada vez mais a adoção de modelos organizadores da informação, que apresentem melhor performance. Quem melhor respondeu a isso foi o paradigma que hoje vem se tornando predominante na medida em que possibilitou a criação de Tesauros, como mecanismos eficazes de controle terminológico facilmente manipuláveis em computador. Assim, é possível dizer-se que o paradigma novo na Biblioteconomia deste final de século é: O MODELO RANGANATHIANO DE ORGANIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO. Junto com ele, a novidade que o acompanha, e que por enquanto soa mais como uma problemática, mas que chegará a um paradigma Educacional, é a questão da Comunicação Bibliotecária.

    No paradigma centrado na concepção Deweyiana, o próprio projeto educacional era linear, racional e positivista. As disciplinas eram, ou ainda são, trabalhadas a partir de um centro ideal, a Organização e a Administração da Biblioteca, incorporando catalogação e classificação, e sendo complementado rigidamente pela Bibliografia e Referência.

    No paradigma novo, Ranganathiano, que está aí rompendo com o modelo Deweyiano, o projeto educacional tende a ser coerente com a idéia de Universo Heraclitiano, ou seja, tudo é fluxo, tudo é energia em movimento. É essa concepção de Ranganthan que, encontrando-se com a visão do pré-socrático Heráclito, vai fazer do projeto educacional em Biblioteconomia um modelo centrado na Comunicação. E o que se está chamando aqui de Comunicação Bibliotecária será, minimamente, a matriz de um outro Currículo de Biblioteconomia. Nesta perspectiva, é impossível imaginar-se um processo de ensino-aprendizagem em Biblioteconomia que possa ser realizado sem a relação direta com o ambiente bibliotecário. Esse processo vai exigir, minimamente, que os Cursos, após uma etapa propedêutica, estejam dentro das Bibliotecas. Novidade? Não há novidade nisto. No início do século foi este o modelo que a Biblioteca Nacional Brasileira adotou, com base na forma adotada pela École de Chartes, assim como foi também o modelo que Dewey adotou inicialmente para preparar seus primeiros seguidores.

    Olhando sem reservas, este é o caminho para a formação de graduandos e para o envolvimento dos pós-graduandos com as questões a serem objeto de investigação, ou seja, com as questões a serem vistas cientificamente pela comunidade científica da Biblioteconomia.

    Podendo ser chamado de o Paradigma do Fluxo da informação, ele só tem sentido quando visto como processo de comunicação. Aliás, o processo de comunicação, poderia ser visto como o mais universal de todos os mecanismos do universo. Visto, como em Heráclito, na condição de fluxo, tem como equivalente na Física a Energia que, nas relações sociais, é a Interação comunicativa, sendo o verdadeiro combustível da existência humana. No mundo de hoje, este processo é nada menos que a razão de existência das redes telemáticas.

    Tomado como a matriz do estudo da Biblioteconomia, o Paradigma do Fluxo da Informação está se tornando o cerne de sua pesquisa e será a diretriz de preparação dos recursos humanos, sendo a disciplina Comunicação Bibliotecária o foco central do Currículo do Curso que se deseje contemporâneo com este final de milênio.

    A representação gráfica que aparece ao final do artigo permite perceber, ainda que precariamente, o lugar ideal desse paradigma biblioteconômico na existência e funcionamento da sociedade. De outro lado, deixa ver que ele só seria exigido, ou só poderia se tornar evidente, num estágio em que o conhecimento e os mecanismos de comunicação da informação permitissem a agilidade hoje fornecida pelas modernas tecnologias comunicativas. Desse modo, uma análise do gráfico vai mostrar uma situação de circularidade, que é a forma mais interativa de manifestação dos processos universais. O universo, as galáxias, de modo geral não são caixões, senão que são bolas, grandes bolas, que se movimentam em elipses e em círculos. Nisso está o sentido de fluxo, ou seja, ilimitado e sem início, nem fim. E se os tem, início e fim, os tem na visão didática e explicadora humana. 

    CONCLUSÃO

    Cabe observar que tomando Thomas Kuhn como base de análise chega-se à rápida percepção de como a Biblioteconomia tem dificuldade em se apresentar como uma ciência da mesma natureza que as ciências estabelecidas como naturais, a exemplo da Física. Cabe também chamar a atenção de que a formação do Bibliotecário não tem sido direcionada no sentido de fazê-lo cientista. A maior aproximação possível disso é tornar bibliotecários mais direcionados a fazer uma ciência da sociedade e do indivíduo por suas transações informacionais, uma ciência dos fluxos de comunicação entre sujeitos [geradores e consumidores] de informação e de suportes de informação, isto é, entre sociedade e indivíduos. Isso, evidentemente, pouco tem a ver com a comunicação de massa ou mesmo a tradicional competência de um ramo denominado academicamente de Comunicação Social.

    De outro lado, pode-se observar que a Biblioteconomia tracional, Deweyiana, vem trabalhando sobre formas, formatos, que transpotam informação, embora despreze a abordagem dos fluxos. Daí dizer-se, equivocadamente, que o velho paradigma visava os documentos. É que os documentos parecem ser o universo Deweyiano, embora os documentos já e sempre existissem como depósitos de informação, sendo, portanto, condutores de informação concentrada. O passo adiante que dá o novo paradigma, chamado equivocadamente de o paradigma da informação, é que ele, sendo mais abrangente, abrange os fluxos comunicativos que, por sua vez, absorve as formas que transportam informação. É que ao ser um modelo que enfatiza a comunicação das micro-idéias, dos micro-pensamentos, só poderá compreendê-los ao compreender o trânsito desses na dinâmica sociedade-indivíduo-sociedade, ou seja, em seu fluxo permanente, dependente e, ao mesmo tempo, independente de formas e formatos.

    Contudo, se os paradigmas de uma comunidade científica se revelam nos seus manuais, conferências e exercícios de laboratórios, pouco tem sido feito no sentido de ser produzida uma ruptura de fato do Paradigma da Estabilidade da Organização da Informação, ou seja, do Paradigma Deweyiano. Ao menos no Ocidente, salvo discussões pontuais, o esforço que se realiza converge para a manutenção dos sistemas decimais de organização do conhecimento e da informação. Aliás, a este respeito, a grande inovação que se vê no sistema de Classificação decimal de Dewey é o fato de estar sendo publicado, na sua 21ª edição, em CD- ROM. Também se faz um enorme esforço no sentido de dar mais atualidade aos modos de organização das coleções existentes física ou virtualmente, bem como dos modos de transferir a mercadoria informacional.

    Assim, o que se vê de fato é que os tais manuais, conferências e práticas de laboratório em Biblioteconomia apoiam-se no velho paradigma e que o paradigma Ranganathiano é inserido como complementar às estruturas existentes. Isto é, não houve da comunidade científica da biblioteconomia a atitude de renúncia à maioria dos livros e artigos que sustentam-se na visão Deweyiana de Organização da Informação e do conhecimento e nem de seu modelo de educação bibliotecária. E se paradigma, como diz Kuhn, é aquilo que os membros de uma comunidade partilham, então, querendo ou não, somos seguidores do paradigma Deweyiano, é ele que ainda partilhamos, embora ele já seja insuficiente para atender às demandas atuais de fluxo, ou seja, embora ele não seja um modelo que centre-se em fluxos comunicativos, em transações interativas como a sociedade deste fim de milênio requer. 

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    Disponibilizado na WWW em 09/09/1996
    Última atualização realizada em 19/09/97

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