Introdução
Na nova era o índio desapareceu, desapareceu
Princesa Isabel e Conde Deu, em 1800, por aqui passaram
No alto de sua passagem, estabeleceram a Estação
Lá na esquina da Paulo de Frontin acabaram com a navegação
De barcos que navegaram com escravos no Rio Paraíba
Quando acabaram, quando acabaram com a capitania de Minas Gerais
Com homens de braços fortes descarregando minerais
Café e barras de ouro espalhados pelo continente
Vem mostrar quem pode com a história, mostrando a nossa gente
O passado sem metalurgia, com barras de aço fazendo a economia
Por nosso país, país, país
Em condições fantásticas. Alô, alô, alô Brasil, fazendo alguém feliz!1
Mineiro, migrante e aposentado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Jouvacy foi um dos grandes articuladores culturais de Volta Redonda. O samba de sua autoria, reproduzido na abertura deste artigo, expressa a visão de um trabalhador negro que teve sua trajetória pessoal e familiar profundamente marcada pela inserção na indústria de base nacional. Ao articular referências à escravidão, à Princesa Isabel e, sobretudo, à centralidade do período Vargas e da metalurgia na transformação da vida dos trabalhadores, a letra condensa uma percepção recorrente entre trabalhadores do Sul Fluminense: a de que a verdadeira experiência de cidadania teria se inaugurado apenas com o trabalho industrial e com a incorporação à ordem trabalhista varguista.
Quem deu a liberdade foi a Princesa Isabel, mas contudo [...] não tinha força
como Vargas. Ele (Getulio) deu a Lei [...] só as palavras dele [...] Só a Lei dele
que acabou com esse negócio de a pessoa ser cativo. Deu a liberdade [...]
acabou o cativeiro.
Getúlio foi tudo para o nosso povo, foi muito bom pro pessoal da lavoura
[...] Antes de Getulio não tinha lei. Nós éramos bicho. A Princesa Isabel só
assinou, Getulio é que libertou a gente do jugo da escravatura.2
Esse salto temporal — que minimiza o pós-emancipação imediato e enfatiza o desenvolvimentismo como marco fundador da dignidade do trabalho — aparece de forma reiterada nas memórias de trabalhadores negros da região. Depoimentos que contrapõem a abolição formal à “libertação” promovida por Getulio Vargas evidenciam como campo e cidade, mundo rural e mundo urbano, escravidão e trabalho assalariado são organizados em um balanço memorial que tende a produzir uma narrativa de igualdade e integração. Em Volta Redonda, cidade-sede da CSN, essa construção da memória coletiva se articulou de maneira particularmente potente ao ideal da “família siderúrgica” e ao mito da democracia racial, funcionando como dispositivos simbólicos de coesão, pertencimento e apagamento do conflito racial.
Entretanto, essa narrativa de harmonia e progresso conviveu, desde sua origem, com profundas assimetrias raciais. A construção da CSN, entre 1941 e 1946, mobilizou um intenso fluxo migratório para o Vale do Paraíba, majoritariamente composto por trabalhadores negros, muitos deles oriundos de Minas Gerais. Em 1954, ano da emancipação do distrito de Volta Redonda em que se fixou a usina, a CSN já empregava 11.184 trabalhadores. Naquele ano, a população de Volta Redonda era estimada em 56.380 habitantes, dos quais 90% estavam concentrados no núcleo urbano do novo município.3 Embora a historiografia sobre Volta Redonda seja extensa, a dimensão racial da formação da classe trabalhadora permaneceu por décadas como um ponto obscuro. Estudo baseado na heteroidentificação de fotografias funcionais revelam que cerca de 70% dos trabalhadores envolvidos na construção da usina eram negros,4 dado que tensiona diretamente a ideia de uma classe operária homogênea e racialmente indiferenciada.
É nesse contexto que este artigo se insere. A partir de entrevistas realizadas entre 2008 e 2023, do uso sistemático da história oral, de análises orientadas pela psicologia social do racismo e da heteroidentificação de fotografias e documentos, investigo como o racismo estrutural se manifestou no interior da CSN e no espaço urbano de Volta Redonda, especialmente durante a ditadura empresarial-militar. Argumento que o discurso da “família siderúrgica” e da democracia racial funcionou como uma forma de espacialização normativa da experiência operária, camuflando desigualdades raciais e produzindo uma memória oficial que negava o conflito.
Com o desmonte progressivo da estrutura assistencialista da CSN, a partir dos anos 1960, e a intensificação da repressão política, essas contradições tornaram-se mais visíveis.5 Trabalhadores negros passaram a ocupar de forma desproporcional as bordas da insegurança estrutural: foram excluídos de espaços associativos, concentrados em setores mais insalubres da produção e expostos a formas específicas de violência institucional. Duas dessas fraturas estruturam a análise desenvolvida ao longo do artigo. A primeira diz respeito à criação do Clube Palmares de Volta Redonda, fundado em 1965 por trabalhadores negros da CSN após a expulsão informal de pessoas negras dos clubes associativos da empresa. A segunda refere-se à leucopenia — também conhecida como benzenismo ou benzolismo — doença ocupacional que atingiu majoritariamente trabalhadores negros alocados em setores como a coqueria, revelando uma divisão racial do trabalho e a racialização da própria doença como estratégia de negação de direitos.
Ao articular esses dois casos, sustento que as memórias dos trabalhadores negros, bem como as imagens e documentos analisados, fraturam o discurso oficial da democracia racial e do progresso desenvolvimentista. Mais do que simples registros do passado, essas fontes revelam silêncios, deslocamentos e resistências, permitindo acessar outras espacializações da experiência operária — marcadas por exclusão, vigilância e também por formas coletivas de afirmação identitária. Assim, o artigo busca contribuir para uma historiografia que compreenda a ditadura empresarial-militar não apenas como um regime de repressão política e exploração de classe, mas também como um período de aprofundamento das desigualdades raciais e de institucionalização do racismo no mundo do trabalho.
Família siderúrgica e democracia racial camuflando a insegurança estrutural dos trabalhadores negros
Era o Brasil único. [...] O que eu via era o entusiasmo das pessoas pois toda
vez que você participa de alguma coisa é fantástico. Quando se falava em
CSN, Companhia Siderúrgica Nacional.
Fazia aço... Não existia isso no Brasil. Existiam umas fabriquetinhas em São
Paulo e Minas Gerais. A grandiosidade que era: indústria bélica, indústria de
segredo... [...]. Então, aquilo entusiasmava todo mundo. Você morar em um
lugar que era limpo, arejado, todo lugar que ia tinha placa [...].
[...] Havia aquela cidadania: eu posso chegar lá, depende de mim. O cara
estudava, tinha escola para todo lado. O Nazário, conheci o Nazário. O cara
era filho de pobre coitado na CSN. O cara conseguiu engenharia, foi chefe da
expansão da CSN.6
Ronaldo Gori, engenheiro aposentado, enfatizou a importância da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e de ter sido um de seus trabalhadores, destacando o entusiasmo coletivo como o grande catalisador da obra e do sentimento nacional. Acredito que o relato de Gori e o samba de Jouvacy reflitam expressões idiossincráticas do desenvolvimentismo. Jouvacy traçou uma linha histórica que se estende desde a Princesa Isabel até a corrida do aço, enquanto Gori destacou o entusiasmo das pessoas na integração do projeto nacional. Como ambos foram trabalhadores da primeira geração da CSN, grande parte da visão positiva sobre o desenvolvimentismo deveu-se ao discurso da “família siderúrgica” e à estrutura que o acompanhava.
Para Gori, existia uma “verdadeira democracia” advinda da implementação desenvolvimentista, caracterizada por um sentido liberal de autoconstrução de trajetória, uma escolha que engendrava trabalho individual como expressão de esforço pessoal. Seu relato atravessa classe e raça na construção da igualdade, embora a classe estivesse acima da raça. Para demonstrar isso, Gori utiliza o exemplo do senhor Nazário, que ascendeu socialmente através dos estudos. Mas por que escolher Nazário como exemplo? Nazário foi um dos primeiros engenheiros negros da CSN e um dos fundadores do Clube Palmares (criado em 1965), um clube que acolhia majoritariamente o público negro, uma vez que a CSN proibiu, a partir dos anos 1960, a participação de negros em seus outros clubes sociais. Trataremos especificamente do Clube Palmares na próxima seção deste artigo.
Regina Morel descreveu a família siderúrgica como um “jogo articulado de estratégias” em que se desejava tanto o “mercado permanente de força de trabalho saudável e produtiva” quanto controle e bom comportamento,7 para tanto a CSN forneceria toda uma estrutura para seus trabalhadores que muitos nunca haviam tido acesso. Essa estrutura foi chamada por muitos pesquisadores de paternalista8 e, em geral, vai ao encontro de ser uma estrutura permeada por uma “cultura dos trabalhadores adotando uma estratégia paternalista remanescente da Europa do século dezenove, que combinava o uso da coerção com medidas de bem-estar”.9
A questão aqui é pensarmos o quanto essa estrutura impactou os trabalhadores e principalmente os personagens negros, maioria dos migrantes da época, pois além de estarem deixando para trás o ambiente rural, deparavam-se com uma estrutura que ratificava a ruptura com seu passado e acentuava a mudança, isso fica evidente em vários dos relatos colhidos10 quando se trabalha com a primeira geração de trabalhadores da CSN: “A companhia dava comida, dava tudo, eu fui juntando um dinheiro, eu juntei dinheiro pra mim casar, comprei tudo novo, como a companhia não tinha casa ainda, aí mostrei falei: ‘Dr. eu pretendo casar em 1943, no final de 1943’”.11
A visão de que a empresa dava tudo ou que era “uma mãe” persiste atualmente e, não por acaso, em entrevista realizada em 2017, o senhor Sebastião12 declara que:
Na CSN não havia preconceito, de funcionário para chefia e da chefia
para funcionário. [...] Ela atendia as pessoas com problemas, dava casa,
dava assistência dentária, dava piscina para você nadar, praticar esporte,
cooperativa para você fazer compra, pra todo mundo [...]. Na CSN não existia
preconceito, acho que era uma empresa perfeita no meu ponto de vista atual.
A declaração de Sebastião reforça o impacto da estrutura fornecida aos trabalhadores. Embora Sebastião não tenha feito parte da primeira geração de trabalhadores da CSN, seu relato expressa a união dos trabalhadores através das mesmas condições de vida proporcionadas pela empresa. A estrutura fabril e extrafabril caminhavam na mesma direção, enquanto funcionavam “perfeitamente”. No entanto, Morel relata que a validade do discurso da “família siderúrgica” teve um limite, terminando em 1963. O regime de isenção fiscal dado à empresa já era questionado, e a emancipação do distrito (Volta Redonda, em 1954) só intensificou esse questionamento. Além disso, em 1963, a CSN pagou milhões à prefeitura, que estava em crise, com mais de 40.000 habitantes sem acesso à assistência médica e saneamento básico. Todo esse quadro de diversificação de interesses e precarização contribuiu para o fim do ideal de “família siderúrgica” promovido pela empresa, resultando no término dos serviços que ela prestava à cidade.13
Muitas das fissuras de classe que expunham os trabalhadores negros às piores condições de trabalho e à falta de equidade nos cargos de chefia e subchefia da empresa, mesmo antes dos anos 1960, já estavam evidentes quando analisados os casos expostos no periódico da própria empresa.14 Quando a CSN abriu mão de seu caráter paternalista e iniciou o desmonte gradual de sua estrutura assistencialista, os trabalhadores negros evidenciaram-se nas bordas da insegurança estrutural15 da classe trabalhadora. Ou seja, se havia uma dinâmica de experiência que determinava uma consciência coletiva para esses trabalhadores, agora ela se apresentava fraturada, e os trabalhadores negros enfrentavam uma piora imediata nas condições de trabalho e exclusão social fora dos muros da fábrica.16 Contudo, outro ponto de aderência que também diminuía as fissuras entre raça e classe se apresentava de maneira hipertrofiada no pós “família siderúrgica”: a democracia racial.17
Luís Felipe Silva, em artigo sobre a ditadura militar e a questão racial na CSN, recuperou um episódio (mais uma vez, extraído das páginas de O Lingote) particularmente ilustrativo da utilização do mito da “democracia racial” como elemento articulado a um imaginário que, tal como viemos discutindo, negava o conflito racial mediante a afirmação da “inclusão pelo trabalho” e do “progresso” que a empresa trazia. O historiador cita um discurso do embaixador de Senegal, proferido em visita a Volta Redonda, no ano de 1969, publicado sob o título “VR é outra abolição”:18
Assimilado pela etnia brasileira, o negro africano escravo de outrora é
o brasileiro de hoje que se confunde nesta harmonia de raças, neste
extraordinário colorido humano que é a democracia racial em evolução no
Brasil. Esta usina siderúrgica de Volta Redonda trabalha agora para uma
outra abolição, que atinge todos nós – a emancipação sócio-econômica
desta nação-continente.19
O discurso do embaixador reuniu todos os elementos mencionados: a afirmação da “democracia racial em evolução no Brasil”, alinhada com a ditadura, complementada pelas ideias de “progresso” e “emancipação socioeconômica” para “todos nós” – sem considerar a diversidade e os fatores específicos que afetavam setores dessa coletividade imaginária. No entanto, tanto dentro quanto fora da usina, o racismo continuava a se manifestar, com seus efeitos agravados pelas ações da ditadura empresarial-militar e pelo desmonte da estrutura local destinada às necessidades da classe trabalhadora.
O que se torna evidente é que se buscava utilizar a ideia de democracia racial como ferramenta normatizadora das experiências, como uma espacialização de experiência sem conflitos e, por extensão, das narrativas construtoras da visão de classe. Contudo, o desmonte das estruturas e a intensificação da exploração de classe durante a ditadura empresarial-militar agudizaram a contradição entre o mito e a realidade, que acabou por se impor. Os repertórios culturais estabelecidos em diferentes localidades tornaram-se mais visíveis, evidenciando tensões antes encobertas pelo discurso oficial.20 Tal dinâmica foi evidenciada nos fragmentos de entrevistas sócio-históricas apresentadas até aqui, e se estende às demais que compõem este texto. Ademais, ao analisarmos trajetórias de trabalhadores negros por meio da história oral, acessaremos não só os fatos, mas também as memórias afetivas, os silêncios, os deslocamentos e as resistências. Isso permite construir um viés de espaço e identidade que não é homogêneo, mas plural — revelando outras espacializações dentro de um mesmo território, como, por exemplo, redes de solidariedade, experiências de mobilidade e estagnação, e lugares de exclusão e pertencimento.21
Diante das fraturas, as resistências negras também se destacaram em várias esferas. No campo da cultura, da conscientização racial e do entretenimento surgiu um dos exemplos mais significativos das articulações que a população negra de Volta Redonda teve de construir para garantir suas expressões e sua sobrevivência: o Clube Palmares de Volta Redonda. Penso que a construção e atuação do clube vão ao encontro do insight de pesquisa presente na argumentação de Flávio Gomes e Marcelo Paixão, quando estes asseveraram que “o modelo desenvolvimentista acabou sendo forjado utilizando como motor ideológico o próprio mito da democracia racial”,22 pois o Palmares sempre atuou demonstrando que a implementação desenvolvimentista, a CSN, tinha um custo bem mais pesado para os trabalhadores e trabalhadoras negras.
Clube Palmares de Volta Redonda: um “chá de revelação da raça” na cidade da classe trabalhadora
A expressão “chá de revelação da raça” foi cunhada por Adelaide Maria Afonso Máximo, professora da rede pública, militante do movimento negro de Volta Redonda, participante do Clube Palmares e fundadora do Movimento de Conscientização do Negro de Volta Redonda (1983). Adelaide sempre aborda questões interessantes sobre a negritude na cidade. Segundo ela, “o negro de Volta Redonda é um negro diferente”. Questionada sobre o motivo dessa diferenciação, ela explica que “aqui em Volta Redonda, o negro teve acesso à educação”.23 Para além do acesso à educação formal, em grande parte viabilizado pela estrutura da CSN, parece que a luta contra o racismo e a conscientização racial são fatores altamente pedagógicos nesse processo, como demonstra a história de fundação do Clube Palmares.
A história do Clube Palmares começa em 31 de janeiro de 1965, quando um grupo de pessoas negras, todas ligadas à CSN, se reuniu e fundou o primeiro clube majoritariamente negro do Sul Fluminense, no estado do Rio de Janeiro. Segundo alguns fundadores, houve um debate para a escolha do nome do clube, com sugestões como 13 de Maio, 15 de Novembro, Feniano e Palmares. Os relatos indicam que a defesa do nome Palmares foi particularmente convincente, realizada pela irmã do engenheiro Nazário (um ex-presidente do clube e um de seus fundadores). Proveniente de uma família de Sergipe, ela conhecia profundamente a história do Quilombo dos Palmares, de Zumbi, e do simbolismo envolvido, destacando a importância dessa herança histórica.24
Nas entrevistas sobre a história do clube, vários relatos repetem a mesma questão: a CSN possuía vários clubes associativos frequentados de acordo com a profissão e função dentro da empresa (Clube dos Funcionários da CSN, 1942; Aero Clube, 1943; Clube Náutico e Recreativo Santa Cecília, 1948; Clube Recreio do Trabalhador, 1951).25 Assim, a divisão social da classe trabalhadora dentro e fora da empresa acabava por refletir a divisão racial. O problema é que, a partir do início da década de 1960, após o golpe militar e com o já citado desmonte da estrutura para a classe trabalhadora da CSN, as fissuras entre classe e raça ficaram mais evidentes.
Fonte: acervo fotográfico do Clube Palmares.
Iniciou-se um processo de proibição da entrada de pessoas negras, mesmo que trabalhadoras da própria empresa, nos clubes associativos. Parece que essa proibição ocorreu de maneira não oficial, pois nenhum documento ou ata com a instrução foi encontrada. Contudo, trabalhadores negros da CSN e seus familiares migraram para dentro do Palmares. Tanto que, na imagem anterior, observa-se que a coluna “CP” se refere ao número de inscrição do associado ao clube, enquanto a coluna “Matrícula” corresponde ao número de matrícula do funcionário na CSN. Isso indica que, em seus primeiros anos, havia quase uma identificação entre ser associado ao Clube Palmares e ser funcionário da CSN. O clube chegou a contar com mais de mil associados ainda na década de 1960.
Sobre a criação do clube, João Laureano asseverou: “O Náutico passou a ser o local dos mulatinhos […]. Passou a ser o clube dos mulatinhos e brancos”, além disso, João afirmou que o Náutico protagonizou uma “covardia”:
Eu morava no acampamento central, eu e a maioria como o Nazário
[esposo de Eunice] [...]. Então o galpão lá era a área de lazer [...] O Náutico
foi fundado no escritório [...]. Como a CSN estava expandindo e eles iam
precisar desmanchar os barracos, o Náutico veio para o acampamento
central, no barraco que era nosso, que era nossa área de lazer e disse
que ia acolher todos os moradores. Então beleza, aí entramos sócios do
Náutico. Era só um barraco não tinha fechamento lateral, então fizeram
o fechamento lateral, melhoraram o piso e começaram as atividades... E
foram melhorando. Na medida que foram melhorando foi aumentando o
quadro social. Eu tinha uma namorada na época [...] que ouviu um dia no
banheiro das mulheres ‘olha, disseram que o Náutico tá ficando muito bom
mas tem muito negro e está parecendo gafieira’ (risos). Você tá pensando
que ser negro é fácil? (risos) Tinha duas meninas de Barra do Piraí (cidade
ao lado) e elas frequentavam a casa dos tios delas lá na São João [rua],
mas para entrar no clube tinha que ser dependente de alguém, então elas
ficaram como minhas dependentes [...]. Num determinado dia eu chego na
portaria e eles não deixaram as meninas entrar. [...] “O que que houve?
Não, elas não podem entrar”. Eu não entrei pois eu estava com elas, no
domingo seguinte eu voltei sozinho [...] e na portaria disseram que eu falei
que lá tinha preconceito e lá não tinha preconceito.26
A partir de então, João é barrado, pois, supostamente, acusou o clube de ser preconceituoso, e o mesmo ocorreu com Nazário, mas a alegação foi de que sua desassociação se deu pois ele tocava tamborim na escola de samba. Não sabemos se o ato de tocar tamborim foi o problema ou se ele foi expulso por participar de outra agremiação, o caso é que outros relatos vão na mesma direção da execução de uma limpeza racial no Náutico. O já citado senhor Jouvacy lembra que ao ir fazer um show no Náutico recebeu a seguinte informação: “[...] o senhor tá expulso daqui, não precisa voltar mais não”. Ao procurar o motivo da expulsão, soube através de outro funcionário que havia ocorrido uma decisão de “[...] tirar tudo que é pessoa negra daqui”.27 D. Maria do Rosário, negra e moradora do bairro Retiro, reforça o caso ao descrever que preto não entrava no Clube Náutico e que estes criaram o “Clube dos Palmares, um clube só para gente preta”.28
Dona Eunice afirmou que, com a proibição de entrada de negros no Náutico, o debate sobre a questão racial ficou evidente:
As pessoas começaram a se reunir para debater a questão racial, né?
Estava ficando feio aqui em Volta Redonda. Por quê? [...] A CSN arrumava
tudo para seus operários, então tinha também um clube de lazer para os
operários. Então, os operários é que mantinham o clube, iam lá, trabalhavam,
arrumavam. Tinha tudo de barraco mesmo, mas era tudo arrumadinho, tudo
bonitinho. À medida que foi melhorando, crescendo, eles começaram a
segurar as carteirinhas dos negros.29
A inserção de negros no Clube Náutico estava diretamente relacionada à realocação do clube, que saiu da área de escritório devido às obras de expansão da CSN e foi instalado no Acampamento Central, uma área mais precarizada e com maior número de trabalhadores negros. O clube foi instalado em um galpão destinado ao entretenimento dos trabalhadores que viviam no local. Como citado por Eunice, com a melhoria das estruturas do clube, esses trabalhadores começaram a ter sua entrada proibida.
Diante das proibições e da falta de locais para interação e lazer, trabalhadores e trabalhadoras negras começaram a buscar uma solução. Nesse contexto, Maria da Glória de Oliveira (Dagó), João Estanislau Laureano e Nazário Ernesto Santos Dias tiveram a iniciativa de criar um clube na localidade. Dagó, a primeira professora negra de Volta Redonda, tinha a matrícula número 3 no livro ata do clube. João, funcionário da CSN, tinha a matrícula número 4, e Nazário, um dos primeiros engenheiros negros da usina, era matriculado com o número 1 no clube. Lúcio Andrade, primeiro presidente do Clube Palmares, tinha a matrícula número 2.
O que há de peculiar na criação do Clube Palmares é o estranhamento que temos ao notar a contradição em relação aos ideais e discursos de época, tanto para com o governamental como para com o da empresa. Enquanto a CSN trabalhava com um discurso de “família siderúrgica”, numa perspectiva muito próxima do ideal de democracia racial, a ditadura empresarial-militar negava os problemas raciais brasileiros e defendia a “paz das cores”,30 chegando mesmo a tirar os dados raciais das estatísticas governamentais dos anos 1960 e 1970,31 ou seja, ao inibir disparidades raciais nas estatísticas, tentava-se reforçar o ideal de democracia racial no país.
Membros da Diretoria, Conselho Deliberativo e Coral Palmares: João Laureano, José Gomes, João Linhares, Elza Timóteo, Jorge Timóteo, Terezinha, Dagó, Messias de Paula, Eloidmar (Loló), Lúcio Andrade, Alice (esposa de Elpídio), Mário, Aparecida, José Elias, Geraldo, Antônio, Carlos Félix (Jaú), Fernando, José Nicodemos. Volta Redonda, anos 1960. Fonte: acervo fotográfico do Clube Palmares.
A imagem apresentada acima evidencia questões fenotípicas muito acentuadas, pois (aparentemente) para o início do clube, os associados eram majoritariamente pretos e os pardos possuíam fenótipo negroide.32 Penso que evidência disso possa ser as três pessoas sempre citadas como articuladoras da ideia e da fundação do clube (Maria da Glória de Oliveira, Nazário Ernesto Santos Dias e João Estanislau Laureano) e seu primeiro presidente (Lúcio Andrade), pois todos eram pessoas pretas.
É evidente que um ideal muitas vezes existe apenas no pensamento, pois a realidade frequentemente o desafia. Esse é o caso da democracia racial que supostamente prevalecia no país, especialmente em Volta Redonda. Vamos considerar o depoimento do atual presidente do Clube Palmares. Edson Daniel João (conhecido como Mister) nos concedeu uma entrevista para o projeto “Companhia Siderúrgica Nacional: violações de direitos e responsabilidades”, vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenado pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Mister, que se autonomeia da segunda geração palmarina, relatou a presença de “infiltrados” no clube durante a ditadura militar, indivíduos que faziam perguntas suspeitas e agiam de maneira diferenciada. Parte da atuação no clube envolvia ficar atento a essas pessoas e suas intenções. Ele mencionou que muitos infiltrados foram descobertos devido às atividades do Palmares com os movimentos negros, já que a militância ativa frequentemente identificava esses infiltrados fardados no Rio de Janeiro, dificultando a negação de suas verdadeiras identidades. A estratégia envolvia se aproximar desses indivíduos, dando-lhes pouca informação, mas com ares de importante, para evitar que desaparecessem, enquanto evitavam revelar suas próprias intenções. Eventualmente, os infiltrados acabavam sendo expostos ao serem vistos fardados ou em atividades com outros militares e policiais da época.33
O depoimento de Mister é comprovado pela documentação consultada por Pires ao citar o Clube Palmares em documento do Departamento Geral de Investigações Especiais (DGIE) de 9 de setembro de 1982.34 Com base nessa evidência, no depoimento de Mister e de outros entrevistados, não foi surpreendente descobrir, ao aprofundar nossas pesquisas (UFF/CAAF-Unifesp), no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), um fichamento sobre o Clube Palmares feito pela polícia política. Contudo, ainda não tivemos acesso a este documento. A realidade por trás do mito da democracia racial incluía muita vigilância e repressão contra vozes dissonantes, consideradas subversivas, como o Clube Palmares.
O Palmares sempre atuou como espaço de entretenimento e formação, não sendo apenas um clube dançante. Há muitos exemplos, mas gostaria de citar uma ação registrada na ata da comissão de festas, que revela o lado formador do clube desde seu início. Para as comemorações do aniversário do clube (196935), houve uma reunião em 14 de dezembro de 1968, onde diretores e diretoras planejaram atividades para ocorrer entre os dias 25 e 30 de janeiro. Entre as atividades listadas estavam “voleibol feminino”, “churrasco”, palestra sobre “a influência dos ritos africanos em nosso catolicismo”, “Noite da Juventude Palmarina” e, no dia 31, aniversário do clube, uma conferência especial com o “conferencista Abdias do Nascimento”.36 É muito provável que Abdias não tenha comparecido ao evento, pois um dia antes da reunião que planejou convidá-lo, a ditadura empresarial-militar decretou o Ato Institucional nº 5 (AI-5). Com o endurecimento do regime, Abdias se exilaria no exterior por 13 anos.
Maria Eunice dos Santos Dias ou Nice Nazário, como ficou conhecida artisticamente (pois era também artista plástica), foi ex-presidenta do clube e esposa do engenheiro Nazário (outro ex-presidente). Ela relata em entrevistas que Abdias e, principalmente, Lélia González estiveram mais de uma vez no Palmares.37 Os relatos vão desde as ideias políticas debatidas no clube aos passeios pela feira da cidade que Lélia tanto gostava, inclusive com degustação de pastel e caldo de cana.
Um dos aspectos dignos de destaque no ambiente interno do Clube Palmares, conforme registrado em suas atas e documentações, é o fluxo de negritudes, que nem sempre foi uma fonte conciliadora de cosmovisões. O atual presidente aborda essa questão como geracional, posicionando-se como da segunda geração palmarina e apresentando a equipe de projetos, que atua desde 2022 na construção de eventos, apresentações e dinamização do clube além de seus muros, como a quarta geração. No site do clube, ainda é registrado que o “propósito maior do Palmares desde o início foi prioritariamente a elevação cultural do negro(a) e a valorização da cultura afro-brasileira”,38 questão mais pertinente aos palmarinos da primeira geração. Os relatos colhidos mostram que, com o fluxo da Soul Music, do movimento Black Panther e de ideais progressistas, o Palmares também se reformatou em sua autoconcepção e atuação sociopolítica. Lideranças religiosas cristãs e do povo de terreiro frequentavam e ainda frequentam o clube, e dessa diversidade, muitas vezes conflituosa, vem a humanização necessária para a luta antirracista,39 pois um dos motes racistas é a desumanização dos corpos negros.
Contudo, apesar de suas ações significativas, o Palmares sempre enfrentou perseguições e possui uma volumosa pasta de processos e ações contra si.40 Os documentos demonstram constantes questionamentos de suspeição sobre o clube, com referências a “pessoas suspeitas” e “movimentos suspeitos” dentro de seus muros, além de denúncias anônimas e não anônimas que se avolumaram no Ministério Público. Em 1985, a Prefeitura de Volta Redonda derrubou os muros do clube a pedido dos moradores do bairro que desejavam sua remoção, mas a direção conseguiu comprovar a aquisição do terreno, e o muro foi reconstruído no ano seguinte.41
Durante a pesquisa do projeto UFF/CAAF-Unifesp, trabalhei sob a coordenação das professoras doutoras Alejandra Estevez (UFF - Volta Redonda) e Flávia Rios (à época na UFF - Niterói) e, dentro do recorte racial, focamos em três frentes de possibilidade de estudo e reparação: o Clube Palmares, a Greve dos Peões de 197942 e a leucopenia. Para os três casos, as fotos e relatos foram essenciais. Ademais, os relatos evidenciaram que membros do clube participaram dos outros dois momentos citados, ou no suporte ou oferecendo o próprio espaço do clube para reuniões.
Segundo Flávia Rios, em se tratando de estudos sobre clubes negros,43 o caso do Clube Palmares é bastante peculiar, pois o Clube Palmares surgiu devido a uma política estatal (não oficial) promovida pela Companhia Siderúrgica Nacional. Essa particularidade leva o atual presidente do Clube Palmares a descrevê-lo como um “quilombo urbano” e um “solo sagrado da resistência”.44 Considerando que o clube se localiza no bairro Jardim Europa entre as ruas Roma e Paris, a descrição de Mister se torna simbolicamente mais significativa.
Leucopenia: doença entre origem étnica e divisão racial do trabalho?
[Ele] falou comigo que na Alemanha eles usavam muito o negro pra trabalhar
na coqueria. Eu perguntei: ‘- Por quê?’. Ele disse: ‘- Porque na Alemanha
a pessoa quando ficava doente, com anemia [...] ele era aposentado’. E o
negro tinha uma doença parecida com a anemia [...], a anemia falciforme.
Tem pouca oxigenação [...]. Então, quando o cara dizia que ia entrar na
CSN tinha muito negro trabalhando, tirando aquelas portas semiautomáticas.
Então ele dizia que isso era porque... O cara não podia reclamar depois. Que
ele já tinha a doença.45
O relato acima foi colhido em 2009, quando o objetivo da entrevista ainda não tinha como mote a questão racial, mas a formação da classe trabalhadora de Volta Redonda. É interessante notar como que um engenheiro branco narra com detalhes a questão do processo de produção, ao mesmo tempo que cita a doença e a estratégia da empresa de burlar indenizações, ao jogar a condição da doença na biologia do doente. Ele não se exime de mostrar que a escolha de corpos negros para determinada seção era indicada em sua própria formação.
[...] A preferência do trabalho do negro era no calor do fogo, tá? [...] Tentaram
me jogar no calor do fogo, eu disse: ‘Oh Doutor, o senhor está querendo me
mandar embora da Companhia?’ (risos). Depois me puseram, conseguiram
me levar lá para a coqueria.46
O relato acima, de José Garcia, é corroborado pelo de Geraldo Orozimbo ao relatar a sua chegada, em 1956, para trabalhar na cozinha da empresa. Por ser um negro alto e forte ele relata que ouviu um grito direcionado para seu chefe: “esse aí deveria ir para a coqueria!”.47 Já o Luiz Paulo Pereira, mais novo, e que entra na CSN nos anos 1970, dá depoimento sobre a questão da coqueria, do benzenismo e anemia falciforme, inclusive citando a questão dos exames periódicos que, segundo ele, só passam a ocorrer nos anos 1980.48
Resumidamente, a coqueria seria uma grande estrutura dentro de uma siderúrgica com vários fornos para a transformação do carvão em coque, uma das matérias básicas na produção do aço. Esses fornos recebem uma mistura de carvão mineral. Da reação química dentro da coqueria resulta o gás benzeno, substância que “ao contaminar o sangue pode ir para diferentes partes do corpo, como o cérebro, fígado, medula óssea – órgão responsável pela produção de sangue, podendo provocar leucopenia (redução dos glóbulos brancos), anemia, dificuldade de coagulação, leucemia e outros tipos de câncer e até aplasia da medula – organismo para de produzir sangue”.49 Sob a nuvem de benzeno, as condições da coqueria e bateria de fornos se tornavam insalubres, como a fábrica não possuía filtros, muitas outras áreas e até o território extramuros podem ter sido contaminados.
As condições insalubres da coqueria e bateria de fornos dentro da CSN viraram questão dentro do Congresso Nacional. No dia 18 de maio de 1974, o deputado Peixoto Filho (do MDB do Rio de Janeiro) citava:
Um número superior a 200 operários trabalha diariamente, no subsolo,
onde a temperatura no verão atinge a 80 graus centígrados em condições
normais, onde a ventilação está ausente, o oxigênio é diminuído, acrescido
de 40% de gás que é expelido, o que conduz esses homens sacrificados e
laboriosos a terem um período de vida bem menor do que os seus colegas
de outras secções da Companhia [...]. As condições são tão precárias
que a própria Companhia passou a lhes fornecer leite, a fim de diminuir
os efeitos da intoxicação, medida essa, por incrível que pareça, que foi
suprimida posteriormente.50
Entre outras questões ele cita que “os portadores de doenças as mais diversas, vêm a falecer sem que os desenlaces sensibilizem os dirigentes da companhia e as autoridades responsáveis pelo cumprimento das normas de higiene e segurança do trabalho”, e assevera que em outros países em que as leis trabalhistas não são tão avançadas, cabe aos trabalhadores de “coqueria e bateria de fornos” a equiparação aos trabalhadores de minas de carvão, “gozando de benefícios especiais, inclusive aposentadoria aos 15 anos de trabalho e de outras vantagens pecuniárias e preservadoras de saúde”.51 Ao fim da apresentação do tema, ele assegura que apresentaria projeto de lei para reparação do que estava a ocorrer.
Há que se ponderar sobre a questão citada pelo deputado, de equiparação dos trabalhadores da coqueria aos trabalhadores de minas. Na busca sobre pesquisas que perpassassem o assunto, encontramos De Lima (2015)52 e a construção de precarização e racialização na construção dos carvoeiros, trabalhadores de minas. Ademais, em estudo mais amplo realizado por Knotter (2015),53 há a constatação de que a divisão racial do trabalho para o segmento é uma tendência global.
PROJETO Nº 240-A, DE 1975
O Congresso Nacional decreta:
Art. 1° A duração normal do trabalho nos serviços de coqueria e nas seções
de bateria de fornos não excederá de seis horas diárias ou de trinta e seis
horas semanais.
§ 1° O número de horas previsto neste artigo poderá ser elevado até oito
horas diárias e trinta e seis horas semanais, no máximo,
§ 2° A prorrogação prevista no parágrafo anterior dependerá sempre de acordo
escrito individual ou coletivo e prévia licença da autoridade competente em
matéria de higiene do trabalho,
§ 3.° A remuneração do trabalho no período de prorrogação será, no mínimo,
25% superior à da hora normal, constando sempre o seu valor, do acordo
individual ou coletivo de trabalho.54
Entre idas e vindas, pedidos de vista, acusação de falta de autonomia para a gestão da cidade de Volta Redonda (o prefeito era indicado pelo governador) e o debate entre Arena e MDB, o projeto só é aprovado em 1977. Em momento algum há citação da cor ou raça dos trabalhadores, mas todas as questões colocadas até aqui evidenciam tratar-se de uma divisão racial do trabalho. Acredito que os mencionados estudos (anteriormente citados) alicerçam os relatos colhidos anteriormente e que as fotos da própria CSN, principalmente para o período de 1964 a 1985, possam documentar essa racialização dos trabalhadores no setor.
Somente em 1987, o benzenismo ou benzolismo foi reconhecido como doença de trabalho pelo Ministério do Trabalho, sendo que, até 1985, nenhuma denúncia sobre a doença havia sido feita. O fato é que a CSN alegava que os negros possuíam anemia falciforme, o que a empresa tratava como uma questão genética de raça. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda (SMVR), via jornal Maioria Falante,55 eram mais de 2.000 casos na CSN com cerca de 500 afastados pela impossibilidade de trabalhar. Além disso, segundo a reportagem, surgiam casos de leucopenia em bairros da cidade que integravam a rota de circulação da poluição, como Retiro, Conforto e Ponte Alta. É notável que tenha sido na década de 1980 que as primeiras denúncias relacionadas à doença — cujas principais vítimas, entre os trabalhadores da CSN, eram pessoas negras — começaram a ser registradas. Nessa mesma década, o movimento negro ganha maior visibilidade no Brasil, coincidindo com o aumento do fluxo de pesquisas acadêmicas em Volta Redonda, impulsionado pela obra de Morel e pelo grupo de pesquisadoras que a acompanhava.56
Um fato novo a ser considerado é que o benzenismo, ou benzolismo, esteve diretamente relacionado aos casos de intoxicação por benzeno ocorridos inicialmente na Cosipa e, posteriormente, na CSN. A partir de então, houve um aumento significativo no número de processos contra a empresa, quase todos iniciados nos anos 2000.57 O uso indiscriminado de trabalhadores negros nos fornos e na coqueria precede a ditadura empresarial-militar. No entanto, foi durante este período que a doença foi descoberta e que muitos trabalhadores começaram a buscar justiça.
A advogada e bolsista do projeto UFF/CAAF-Unifesp, Eliege Domingos, obteve diretamente com o TRT acesso a mais de 10.000 páginas de processos e confirmou nossa hipótese inicial de pesquisa: a maioria dos atingidos pela doença é negra. Mesmo não conseguindo analisar as 10.000 páginas, ela focou em processos coletivos e conseguiu analisar 19 deles. Dos casos analisados, 21,05% dos atingidos são brancos, 68,42% são negros, 5,26% não apresentaram documentos com foto e 5,26% não foram identificados racialmente devido à qualidade das fotos. Como não há autodeclaração racial por parte dos requerentes dos processos, nem tipificação racial nos processos, a solução que adotamos para a racialização dos atingidos foi a heteroidentificação racial com base nas fotos presentes nos acórdãos. Em parte, seguimos a mesma metodologia descrita nos já citados trabalhos de Dinius (op. cit., 2004)58 e Silva (op. cit., 1997). Silva explicita os critérios ao analisar as fotos presentes nas fichas dos funcionários da siderúrgica que estudou:
O critério utilizado foi a maior ou menor presença de traços negroides,
tais como cor da pele negra, tipo do cabelo, formato do nariz e dos lábios.
Aqueles que apresentavam a cor da pele negra, nariz arredondado, lábios
grossos e cabelos crespos foram classificados como ‘pretos’; aqueles
que não apresentavam uma dessas características foram classificados
como ‘mestiços’. Nessa categoria, portanto, estão inclusos todos os que
poderiam ser chamados de mulatos, morenos ou pardos; aqueles que não
possuem nenhuma dessas características foram classificados de ‘brancos’;
chamamos ‘negros’ o resultado do somatório de ‘pretos’ e ‘mestiços’.59
Em linhas gerais, o que Silva fez foi aferir a questão fenotípica e tratá-la com alguma similaridade aos dados que o IBGE estabelecia. Ademais, o que ela fez, em 1997, foi justamente o que determinou a Nota Técnica da Defensoria Pública da União (DPU), em 2023, para a questão das cotas raciais, quando se buscou desenhar, a “partir de um Grupo de Trabalho especializado na temática, um posicionamento institucional visando orientar os defensores públicos federais”.60 Na nota, a DPU citou que o Ministério Público Federal (MPF) sugeriu a observação de certos aspectos para efeito da melhor fiscalização e prevenção de fraudes no critério de autoidentificação, pois se ressaltou que os critérios devem possuir “elementos predominantemente fenotípicos na identificação de candidatos negros” (pretos e pardos).61
Em minha tese de doutorado, realizei algo semelhante ao tentar heteroidentificar trabalhadores mencionados no periódico da CSN (O Lingote), para os anos 1950. Nesse caso, atribuí a eles uma classificação de cor/raça com base nos mesmos critérios utilizados pelo Censo de 1950, quando o processo de autodeclaração foi empregado pela primeira vez.62 No meu caso específico, acabei tendo de criar a categoria “não identificado”, pois quando a qualidade da foto não ajudava na identificação e/ou a categorização fenotípica ficava comprometida, eu acabava por lançar os analisados nessa categoria.63 Contanto, em minha pesquisa, na de Dinius (2004) e na de Silva (1997), a intenção era mensurar pretos e pardos dentro da classe trabalhadora do período estudado e em ambiente siderúrgico. Talvez por esse motivo não tenhamos utilizado as categorias “indígena” e “amarelo”. Enfim, embora os estudos sobre trabalhadores negros sejam fundamentais, é preciso reconhecer que a questão indígena segue marginalizada. Ampliar os estudos étnico-raciais para incluir essas trajetórias é essencial para enfrentar esse silenciamento histórico e debatermos categorias já existentes, como a categoria pardo.64
Além da heteroidentificação das fotos dos trabalhadores nos processos, Eliege Domingues trouxe análises muito peculiares das irregularidades presentes: movimentos do processos que dão uma ideia da morosidade e intercursos dos mesmos, questões muito evidentes de violações de direitos dos trabalhadores atingidos, tais como: 1) para alguns processos, o mesmo médico da junta médica da CSN era médico da junta médica do Ministério do Trabalho e 2) o processo 0005100-18.2006.5.01.0342 mostra trabalhadores terceirizados na coqueria, questão ilegal para a época.
Por fim, Eliege apresenta um caso revelador de continuidade da abordagem e tratamento para corpos negros. No processo 0379300-54.2005.5.01.0342, de 2005, em que o autor foi identificado como preto e contratado como forneiro, tendo trabalhado durante o período de 24/03/86 a 17/03/1993. Na Comunicação de Acidente de Trabalho emitida pela empresa há a seguinte informação: “Trabalhava na SLE - Manuseando gás benzeno”. Na contestação a empresa afirmou que “a leucopenia é uma característica transitória causada por diversos fatores, dentre eles a origem étnica”65 e que deveria o autor provar que não possuía propensão genética ao aparecimento da doença, ou seja, uma declarada justificativa que confunde leucopenia (glóbulos brancos) com anemia falciforme (glóbulos vermelhos) e que propositalmente racializa a doença, mesmo que isso se verifique somente na seleção dos trabalhadores para as áreas atingidas e não na justificação biológica da doença.
Conclusão
O presente artigo buscou contribuir para a compreensão das relações raciais no interior da Companhia Siderúrgica Nacional e na cidade de Volta Redonda, enfatizando como o racismo estrutural operou não como um elemento externo ou acessório, mas como dimensão constitutiva do desenvolvimentismo e da ditadura empresarial-militar. Ao mobilizar fontes orais, imagens e documentação institucional reunidas no âmbito do projeto Companhia Siderúrgica Nacional: violações de direitos e responsabilidades, o estudo procurou deslocar o olhar historiográfico de narrativas consolidadas sobre progresso, integração e cidadania operária, evidenciando as fraturas raciais que estruturaram as experiências concretas de trabalho, adoecimento e sociabilidade da classe trabalhadora.
Essa perspectiva dialoga com uma tradição crítica que compreende a raça como princípio organizador das hierarquias do trabalho e da formação de classe. Já em Black Reconstruction in America, W. E. B. Du Bois (1935)66 demonstrava que a raça não opera como um desvio moral do capitalismo, mas como um de seus fundamentos históricos, estruturando a exploração do trabalho, a cidadania e os regimes de reconhecimento. No contexto brasileiro, Clóvis Moura (2023)67 formulou argumento convergente ao definir o racismo como uma “arma ideológica de dominação”, inseparável do capitalismo dependente e da manutenção das desigualdades de classe. Para Moura, o racismo não decorre de preconceitos difusos ou resquícios do passado escravista, mas funciona como mecanismo ativo de organização da exploração e de legitimação da superexploração do trabalho negro.
A experiência dos trabalhadores negros da CSN confirma essa leitura. A sobrerrepresentação de trabalhadores negros na construção da usina, sua concentração em setores mais insalubres da produção e sua condição majoritária entre os atingidos pela leucopenia/benzenismo não podem ser interpretadas como efeitos colaterais do processo industrial. Trata-se, antes, de uma divisão racial do trabalho historicamente produzida e naturalizada, na qual corpos negros foram sistematicamente destinados às tarefas de maior risco e menor proteção. Nesse ponto, a análise converge também com a formulação de Barbara e Karen Fields (2012)68 sobre o racecraft: práticas sociais e institucionais que produzem a raça como se fosse um dado natural, ocultando seu caráter histórico e político. A racialização da doença — tratada como suposta condição “étnica” — e a consequente negação de direitos trabalhistas e indenizações expressam esse processo de naturalização ideológica do racismo, tal como descrito por Moura (op. cit., 2023) em sua crítica ao racismo como tecnologia de dominação de classe.
Do ponto de vista metodológico, a pesquisa reafirma a centralidade da história oral e das fontes visuais como instrumentos capazes de tensionar silêncios documentais e produzir novas chaves de leitura sobre o passado. Em um contexto marcado pela ausência sistemática de dados raciais — tanto nos registros empresariais quanto nos processos trabalhistas e estatísticas oficiais —, a heteroidentificação racial de fotografias constituiu não apenas uma estratégia técnica, mas uma escolha epistemológica e política. Ao tratar as imagens como objetos históricos, foi possível evidenciar padrões fenotípicos, hierarquias raciais e continuidades de exclusão que escapam à documentação escrita e aos discursos oficiais de integração.
As fraturas raciais também se manifestaram para além do espaço fabril. O estudo do Clube Palmares de Volta Redonda revela como a sociabilidade urbana foi atravessada por mecanismos informais de exclusão racial. A exclusão de trabalhadores negros dos clubes associativos da CSN e a constituição de um clube majoritariamente negro evidenciam a operação seletiva do mito da democracia racial, produzindo pertencimentos condicionados e espacializações hierarquizadas. Nesse ponto, a análise dialoga tanto com Kabengele Munanga (2008)69 quanto com Robin D. G. Kelley (1990).70 Munanga demonstrou como a ideologia da mestiçagem, longe de promover igualdade, funcionou historicamente como instrumento de apagamento das desigualdades raciais e de deslegitimação da identidade negra. Já Kelley, ao analisar formas negras de organização no sul dos Estados Unidos, evidenciou que espaços de sociabilidade, cultura e associativismo foram centrais para a constituição da experiência de classe e da ação coletiva, mesmo quando situados à margem das estruturas sindicais ou institucionais formais.
O Clube Palmares emerge, assim, como espaço de resistência, formação política e afirmação identitária, tensionando o discurso oficial de integração e expondo os limites do projeto desenvolvimentista quando observado a partir das experiências negras. Tal como argumentava Moura (op. cit., 2023), as formas de organização negra não representam desvios particularistas da luta de classes, mas expressões concretas das condições raciais específicas sob as quais essa luta se dá em sociedades marcadas pelo racismo estrutural.
Ao articular memória, imagens e trajetórias, este artigo demonstra que raça e classe não operaram de forma dissociada na história da CSN, mas como dimensões profundamente imbricadas da experiência do trabalho industrial. “Dar cor” à história da classe trabalhadora, nesse sentido, não significa acrescentar a raça a uma narrativa já constituída, mas reconstituir os próprios fundamentos sobre os quais essa narrativa foi construída. Ao fazê-lo, torna-se possível escrever uma história do trabalho e da ditadura que reconheça plenamente seus protagonistas negros e enfrente, de forma crítica, as desigualdades raciais que estruturaram — e continuam a estruturar — a sociedade brasileira.
Recebido em: 01/08/2024
Aprovado em: 04/03/2026
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