Nas últimas décadas, o tema da indústria têxtil brasileira tem ganhado cada vez mais espaço na produção historiográfica e, sobretudo, na história social do trabalho. A interiorização das universidades, a ampliação dos programas de pós-graduação e o aumento do número de bolsas de pesquisa possibilitaram alteração no perfil do/a estudante do ensino superior nas instituições públicas e suscitaram novas questões, abordagens e perspectivas a partir do interesse de pesquisa de jovens oriundos da classe trabalhadora e/ou oriundos de regiões do país impactadas pela expansão do ensino universitário.
Nesse sentido, o livro Tem pano para manga: histórias do trabalho têxtil no Brasil, organizado por Felipe Augusto dos Santos Ribeiro, Juçara da Silva Barbosa de Mello e Lucas Porto Marchesini Torres, é um reflexo do cenário descrito. A coletânea composta por dez capítulos, que se desenvolveram no âmbito de cursos de mestrado, doutorado e pós-doutorado, conta com a colaboração de autores/as, em alguns expressivos casos, com proximidade com o mundo fabril têxtil por conta de suas origens familiares, o que enriquece a produção acadêmica presente na obra.
O primeiro capítulo é de Felipe Augusto dos Santos Ribeiro e apresenta um breve panorama da produção historiográfica sobre trabalho têxtil no Brasil, feita nas décadas 1960 e 1970, com ênfase para os estudos que exerceram relevante influência no campo da história social do trabalho. O autor pontua que grande parte da produção levantada foi invisibilizada ou permanece desconhecida no debate historiográfico atual. Salienta que uma parte considerável foi produzida por mulheres pesquisadoras. Defende que tais trabalhos devam ser lidos não apenas por seu pioneirismo, mas também para resgatar discussões que não receberam a devida atenção de seus pares à época e para estabelecer diálogos. Nesse panorama, Ribeiro destaca instigantes pesquisas sobre mulheres operárias que foram produzidas na década de 1970 e que ainda carecem de maior articulação com as pesquisas atuais.
O segundo capítulo, de autoria de Caroline Duarte Matoso, analisa narrativas de trabalhadores/as da Fábrica Rheingantz, em Rio Grande (RS), e de membros da família industrial que exerceram cargos de diretoria na empresa, entre 1920 e 1968, com o intuito de compreender como os diferentes setores rememoram e justificam a inserção de mulheres e as desigualdades de gênero no ambiente fabril. A partir das entrevistas orais com os/as trabalhadores/as, a autora observa “a naturalização da divisão sexual do trabalho, em um movimento que relaciona a natureza feminina ao trabalho na tecelagem”,1 possivelmente Matoso se refere a uma percepção por parte dos entrevistados de que as mulheres possuiriam características tidas como naturais, mas que são construídas socialmente e atribuídas ao gênero feminino e que conferem às mulheres aptidões consideradas como naturais para o trabalho no ramo de tecidos, tais como destreza, paciência, cuidado, delicadeza.2 Tais habilidades ficam claras na fala do desenhista técnico Aureo Nunes de Almeida: “É muito minucioso, é muito cansativo e o homem não tem essa capacidade de absorção do trabalho como a mulher tem. Fazer sempre exatamente a mesma coisa, de modo repetitivo. Acredito que a mulher tem... é mais bem armada para isso.”3 O trecho em destaque nos permite fazer uma reflexão sobre habilidades ou conhecimento empírico como qualificação para o trabalho.4 Mirta Lobato aponta que características como débil, hábil, forte não representam meros atributos de uma descrição, mas indicam a possibilidade individual e os limites desta na formação de seu papel social como trabalhador/a. Tal possibilidade está diretamente ligada a relações de gênero. Assim, força e habilidade são consideradas atribuições masculinas, ao passo em que a aptidão atrelada à delicadeza é considerada uma característica feminina; e tais atributos determinariam a divisão sexual do trabalho.5
No capítulo seguinte, Anna Maria Litwak Neves e Eltern Campina Vale elaboram um quadro comparativo das ações trabalhistas de operários/as das tecelagens de Paulista, em Pernambuco, e Rio Tinto, na Paraíba entre 1930 e 1950. As duas fábricas pertenciam aos industriais Lundgren, que juntas formaram uma das maiores indústrias têxteis do Brasil. Os autores destacam que a mobilização operária foi amplamente vista nas duas fábricas quando os tribunais trabalhistas ganharam uma nova dimensão na mitigação dos conflitos nas relações de trabalho, sobretudo após 1943, focalizando como os trabalhadores se utilizaram desse mecanismo institucional na defesa de suas garantias legais. Neves e Vale entendem que a empresa se recusava a reconhecer os direitos trabalhistas e levavam a disputa até a Justiça do Trabalho como uma forma de não abdicar do poder e da autoridade sobre o operariado nas relações capital-trabalho.
No quarto capítulo, ao atentar para o paternalismo industrial de Bezerra de Mello, Juçara da Silva Barbosa de Mello evidencia uma teia de relações entre o empresário e os trabalhadores de um grupo industrial têxtil, permeada por conflitos, modos de resistência e pacto de reciprocidade. Este delicado pacto de reciprocidade se pautava, de um lado, na concessão de benefícios sociais pelo patrão e, de outro, na demonstração de lealdade e fidelidade pelo operariado. Assim, o processo de formação identitária do operariado se encontraria imbricado ao de constituição da classe empresarial, definindo-se justamente em momentos de ruptura do pacto de reciprocidade. Deve-se mencionar que tal relação se estabelece com constantes flutuações sem deixar de demarcar os distintos lugares que os sujeitos ocupam. A autora também pontua que o conflito não se fez ausente, resultando em confrontos e negociações que caracterizam o fazer histórico da luta de classes.
No capítulo quinto, Alessandra Belo Assis Silva também se interessa pelas lutas travadas na Justiça do Trabalho. A autora analisa a atuação de operárias, em sua maioria, somadas a alguns colegas operários da Companhia de Fiação e Tecelagem Industrial Mineira, de Juiz de Fora, entre 1954 e 1957, contra demissões arbitrárias de trabalhadores/as estáveis e próximos/as à garantia do direito. De 62 dissídios individuais investigados sobre a matéria da estabilidade e demissões, 59 foram impetrados por mulheres, sendo encontrados apenas três impetrados por homens. No tocante ao direito à estabilidade, Marcelo Badaró aborda o “peso do estatuto da ‘estabilidade no emprego’”, visto que tanto estimulava a rotatividade da mão de obra empregada há poucos anos para evitar que acessassem tal direito, quanto garantia maior segurança para os trabalhadores com mais de dez anos de serviço no mesmo estabelecimento, o que poderia garantir maior poder de barganha e autonomia.6 Contudo, a pesquisa de Alessandra Silva demonstra que, embora demitidos/as e privados/as do acesso à estabilidade, os/as trabalhadores/as buscaram recorrer à justiça na tentativa de recuperar o direito que lhes foi negado. A autora salienta que a luta por direitos do operariado têxtil juiz-forano teve como resultado algumas conquistas importantes para a categoria, sobretudo por conta da ação contundente exercida pelo combativo Sindicato dos Têxteis da cidade.
No capítulo seguinte, Lucas Porto Marchesini Torres procura analisar um crime a partir da perspectiva da história social do trabalho em Salvador. A investigação do caso do furto realizado por Pedro Domingos, porteiro da fábrica São Braz, de propriedade da Companhia Progresso e União Fabril, ocorrido nos anos 1950, conecta-se a uma rede de relações sociais intrincadas e amplas, envolvendo trabalhadores de dentro e de fora da fábrica, seu gerente, policiais, advogados. Tal emaranhado revela uma cultura operária que se pauta em diversos critérios como posição social, ocupação de trabalho, local de moradia, raça e gênero. Assim, a pesquisa demonstra como muitas marcas sociais influenciavam o cotidiano dos mundos do trabalho soteropolitano.
O sétimo capítulo, de autoria de Márcio Romerito da Silva Arcoverde, procura elaborar um panorama acerca das pesquisas sobre trabalho têxtil em Pernambuco a partir do olhar de um historiador oriundo da classe trabalhadora. Além disso, a partir do caso da Societé Cotonnière Belge Bresillienne, discorre sobre a constituição do corpo de operários desse estabelecimento, entre o final do século XIX e início do XX, com vistas a compreender a contribuição do trabalho têxtil na construção moral do trabalho assalariado no pós-abolição, bem como, a discutir paternalismo industrial e populismo focalizando as estratégias da classe dominante açucareira que traçaram uma interlocução direta nos meios operários. Arcoverde salienta que sua experiência foi importante para a definição de um tema de pesquisa com o qual se identificasse e que estabelecesse relação com sua vivência de classe. Procura evidenciar sua familiaridade com o mundo que emergia na documentação: moradia, relação dos/as trabalhadores/as com o patrão, sociabilidades fora da fábrica etc.; tais aspectos do cotidiano do operariado fabril se assemelhavam à dinâmica de sua vida no engenho. Assim, percebemos que a trajetória pessoal do autor se mostra presente em sua análise interessada em entender os caminhos trilhados pelos/as operários/as têxteis em Pernambuco e suas relações com diversos segmentos da sociedade, inclusive com representantes da elite rural.
O oitavo capítulo está inserido no debate acerca do associativismo recreativo7 e desportivo8 como parte da cultura de classe do operariado. Cristina Ferreira analisa as formas de sociabilidade e a cultura associativa dos trabalhadores urbanos do setor têxtil de Blumenau, Santa Catarina, entre 1958 e 1968. As associações de caráter desportivo e recreativo investigadas apontavam como meta a melhoria dos laços de amizade entre os sócios e seus familiares através de três categorias de lazer relacionadas:
1) ao estímulo da leitura, via criação de bibliotecas e da proposta para edição de um periódico de circulação interna e distribuição gratuita entre os sócios; 2) incremento de práticas desportivas de caráter amador, com destaque para o futebol; 3) congregar seus sócios com reuniões de cunho social, cultural e cívico, tanto em espaços festivos relacionados à fábrica ou festas relacionadas ao calendário festivo dos trabalhadores.9
É importante salientar que essa cultura operária era construída em meio a tensões entre a disciplina fabril e a busca de criação de espaços autônomos entre os operários, nesse sentido, tais ambientes de lazer também estão atrelados a outras experiências vivenciadas pelos trabalhadores fabris. Em pesquisa que aborda o associativismo recreativo dos/as trabalhadores/as têxteis da Freguesia da Gávea, que residiam na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, Mariana Costa ressalta a centralidade desses clubes operários como lugares principais de lazer popular e de construção de redes de sociabilidade, mas também de luta por cidadania.10 Ao analisar clubes dançantes e bailes negros fundados pela classe trabalhadora, Leonardo Pereira também destaca como esses homens e mulheres fizeram do lazer um canal de defesa de seus direitos e de sua cidadania. Longe de aliená-los, esses clubes tornavam-se ambientes efetivos de organização social.11 Cristina Ferreira, por sua vez, entende as práticas de lazer e cultura como a leitura, o desporto e as festividades como elementos da cultura associativa articulados tanto nas formas de sociabilidade quanto no cotidiano dos trabalhadores têxteis de Blumenau.
No penúltimo capítulo, Telma Bessa Sales e Jormana Maria Pereira Araújo buscam resgatar traços dos significados do cotidiano da indústria têxtil, no Ceará, bem como, refletir sobre lutas por direitos e relações políticas que contextualizam esses processos, sobretudo na segunda metade do século XX, com vistas a dialogar/confrontar as memórias do trabalho e dos trabalhadores do ramo com a memória construída pelos setores das classes dominantes. Nas narrativas dos entrevistados, as autoras encontram referências aos espaços das memórias operárias, às reflexões diretamente atreladas ao cotidiano do trabalho e às experiências dentro e fora do chão da fábrica. Fica clara a intenção de Sales e Araújo em enfatizar a importância do lembrar, de evidenciar a disputa de memória, permeada por lutas constantes, reinventadas a cada contexto de retrocesso e de retirada de direitos.
Por fim, o último capítulo, de autoria de Daniela Rebelo Monte Tristan, discute diversos aspectos das relações cotidianas dos/as trabalhadores/as da Companhia de Fiação e Tecelagem de Juta de Santarém, a Tecejuta, localizada no estado do Pará, entre 1965 e 1990. A análise se concentra principalmente em debates em torno de acidentes de trabalho, noções de moralidade acerca do trabalho feminino e relações de gênero no ambiente fabril. Ao atentar para a forte presença feminina nessa fábrica, a autora destaca “o quanto essa presença era ali problemática, por uma série de razões”.12 Mas, na verdade, ao longo da investigação, percebemos se tratar da construção de uma imagem pejorativa sobre as mulheres que trabalhavam na Tecejuta. Tal imagem se pautava em discussões sobre moralidade e papéis de gênero, sem considerar a importância do trabalho fabril para aquelas mulheres, visto que, proporcionava autonomia a elas e algumas eram até mesmo as provedoras do lar. Pejorativamente, as trabalhadoras eram associadas às pilhas Eveready, que usava como mote “o pulo do gato”, visto que “a figura do gato evoca, portanto, liberdade (ou ‘desregramento’, pela moral da época, em Santarém) sexual”.13
Ao focalizar a presença de mulheres nas fábricas têxteis do Piauí e do Maranhão, no final do século XIX, Felipe Ribeiro percebeu que elas eram identificadas pela alcunha de “pipira”. O autor nota que a partir do ingresso no trabalho industrial, elas conquistavam um certo status diante das demais profissões consideradas femininas, adquirindo maior liberdade social, daí a analogia com o “bater de asas” das aves pipiras. No entanto, este apelido apresentou conotações pejorativas para muitas operárias, vistas sob um olhar machista como mulheres disponíveis a variadas formas de importunação.14 Embora os casos analisados por Daniela Tristan e Felipe Ribeiro se passem em períodos diferentes, fica evidente que concepções dominantes às distintas épocas sobre moralidade se aproximavam no sentido de colocar sob julgamento público a honra feminina e tais visões de mundo permearam as experiências de mulheres trabalhadoras em fábricas de tecidos. As operárias passaram a ser chamadas por apelidos com conotação sexual por estarem ocupando postos de trabalho considerados como impróprios à dignidade feminina, tais como seriam as fábricas de tecidos do final do século XIX, como é possível perceber na pesquisa de Ribeiro; e de uma região interiorana com poucas fábricas, como era o caso de Santarém nas décadas finais do século XX, a partir do que notamos na pesquisa de Tristan. Tais imagens estereotipadas visavam a estabelecer uma representação social que buscava “condenar” publicamente essas mulheres operárias têxteis. Entretanto, apesar de estigmatizadas enquanto trabalhadoras, as pesquisas mostram que elas enfrentaram estereótipos de gênero e preconceitos na defesa de sua autonomia e pautaram o debate sobre noções de moralidade para o gênero feminino. Para Daniela Tristan, o convívio entre homens e mulheres no trabalho fabril de Santarém e as discussões que tal convivência implicava suscitaram transformações na esfera dos valores no meio operário, impactaram diretamente no ambiente moral da cidade e contribuíram para alterá-lo significativamente.
Podemos perceber que temas acerca do impacto da presença feminina no setor têxtil e da luta das mulheres na defesa de seus direitos foram abordados em alguns capítulos do livro. Tal destaque evidencia a influência dos estudos de gênero na história social do trabalho e demonstra as potencialidades de tal perspectiva de análise na produção historiográfica. No entanto, deve-se pontuar que embora tal categoria analítica esteja ganhando cada vez mais espaço nas pesquisas sobre mundos do trabalho, o panorama apresentado pela obra indica que ainda há carência de investigações que atentem para noções de masculinidade em fábricas de tecidos. Levando em consideração que aptidões tidas como femininas eram requeridas em tal ramo e que mulheres e menores chegaram a representar a grande maioria da força de trabalho empregada no setor têxtil,15 a análise de gênero com foco nas masculinidades possibilitaria refletir sobre as implicações, para os homens, de trabalhar em uma área da indústria considerada feminilizada; os espaços e as seções ocupados por eles; os possíveis estereótipos atrelados à mão de obra masculina; o processo de seleção e as características exigidas deles; os conflitos entre os próprios homens; as interações com as mulheres; entre outras possibilidades. Assim, a partir dos temas desenvolvidos na coletânea, podemos pensar que o livro abre como agenda de pesquisa o debate sobre o aprofundamento dos entrelaces entre estudos de gênero e mundos do trabalho.
Isto posto, considero que Tem pano para manga: histórias do trabalho têxtil no Brasil contribui para ampliar e complexificar o conhecimento sobre o universo da indústria têxtil a partir da perspectiva da história social do trabalho. A diversidade regional se apresenta como um dos pontos principais da obra, pois possibilita ao/à leitor/a conhecer mais sobre o processo de industrialização brasileira para além do eixo Rio-São Paulo e das capitais dos estados. Tal diversidade possibilita desconstruir possíveis generalizações, evidenciar especificidades e ressaltar a pluralidade das lutas e da resistência empregada por homens e mulheres que vivenciaram o processo de exploração do trabalho nas fábricas de tecidos no Brasil.
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