“É quando teus amigos te surpreendem deixando a vida de repente
e não se quer acreditar.
Mas essa vida é passageira,
chorar eu sei que é besteira,
mas, meu amigo, não dá prá segurar. Não dá prá segurar!”
IRA!
Algumas pessoas não morrem simplesmente. Sua presença entre nós é tão marcante, suas atitudes exercem tanta influência na vida das pessoas que têm o privilégio de usufruir de sua companhia e nas instituições nas quais atuou, que sua memória permanece insistentemente em cada momento, cada lembrança, cada situação. É uma constante presença da ausência, quando sua atuação tem o incrível poder de mudar para melhor os lugares e as pessoas. Este é, sem dúvida, o caso de Maria Luíza Ugarte Pinheiro, professora aposentada do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e um dos grandes nomes da História Social do Trabalho no país. Sua obra de maior repercussão e impacto acadêmico certamente é Cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no porto de Manaus (1899-1925), obra que foi o resultado de sua pesquisa de mestrado, defendida em 1996, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sob a orientação da professora Heloísa de Faria Cruz. Como a própria autora escreve, a pesquisa foi pensada como um “ato político de intervenção social e como tal é dedicado à luta dos trabalhadores amazonenses, que saberão trilhar seus próprios rumos, recuperando experiências vivenciadas por seus antecessores, centelhas de coragem, esperanças e lutas que ficaram no caminho”.1
A partir de uma pesquisa minuciosa e de uma escrita sensível e delicada, a autora confere centralidade e protagonismo à categoria dos portuários em Manaus, evidenciando suas lutas renhidas, seu cotidiano laboral e sua relação com a própria cidade de Manaus.
O título deste pequeno texto em homenagem à tão generosa e querida amiga traz justamente o título de A saudade sobre os ombros: razão e sensibilidade na trajetória de Maria Luíza Ugarte Pinheiro (1959/2026), propondo um encontro entre a memória e a obra. Ao parafrasear A cidade sobre os ombros, livro central de sua trajetória intelectual, buscamos traduzir em palavras o sentimento que atravessa este momento de despedida. Neste trabalho, Maria Luíza ensinou que a cidade não se sustenta apenas em projetos, edifícios ou discursos, mas no esforço cotidiano de homens e mulheres comuns, cujas vidas, gestos e trabalhos carregaram, muitas vezes em silêncio, o peso da história. A cidade, para ela, era experiência vivida, marcada por tensões, afetos e desigualdades. Hoje, ao inverter delicadamente os termos, cidade/saudade, buscamos evidenciar que também nós carregamos algo sobre os ombros: a saudade de sua presença generosa, de sua escuta atenta, de sua inteligência sensível aplicada aos arquivos, às salas de aula aos espaços coletivos de pesquisa e de seu afeto terno e carinhoso com os amigos, alunos e orientandos. Não se trata de uma saudade apenas pessoal, mas de uma ausência que se faz sentir no cotidiano acadêmico, nos projetos interrompidos, nas conversas que não se concluirão, na taça de vinho que não tomaremos e nas perguntas que continuarão sem resposta.
Sua partida representa uma perda profunda para a historiografia brasileira, para os estudos históricos produzidos a partir e sobre a Amazônia e, acima de tudo, para todas e todos que, de alguma maneira, tiveram a oportunidade de conviver com pessoa tão sensível e terna. Professora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Maria Luiza construiu, ao longo de mais de três décadas de atuação acadêmica, uma trajetória intelectual marcada pela combinação rigorosa entre investigação empírica, generosidade intelectual, sensibilidade social e compromisso com a formação de pesquisadores. Maria Luiza teve atuação central tanto na graduação quanto na pós-graduação em História, sendo responsável pela formação de gerações de historiadores, orientando trabalhos de iniciação científica, monografias, dissertações e teses, reunindo as qualidades de orientadora exigente, mas profundamente generosa.2
No campo da pesquisa, sua produção é vasta e consistente. Maria Luiza é referência nacional nos estudos sobre a história do trabalho urbano na Amazônia, em especial sobre o porto de Manaus, os estivadores, o associativismo operário e as greves nas primeiras décadas do século XX. Obras como A cidade sobre os ombros3 e Mundos do trabalho na Cidade da Borracha,4 em coautoria com seu inseparável companheiro Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro, tornaram-se marcos para a compreensão da experiência histórica dos trabalhadores na Amazônia. Pesquisadora apaixonada pelos arquivos e pelo manuseio minucioso da documentação, tinha curiosidade aguçada e grande sensibilidade para temas sociais, o que fez com que ela se debruçasse sobre múltiplas problemáticas, interligando a história social do trabalho com a história urbana. Grande conhecedora dos arquivos, discorria sobre seus acervos com a mesma naturalidade com que preparava um saboroso prato de bacalhau, um inigualável ossobuco ou um doce de cupuaçu.
De modo inovador, refletiu sobre a imprensa como fonte e objeto de investigação histórica, e publicou outro texto de referência: a obra Folhas do Norte: letramento e periodismo no Amazonas (1880-1920),5 livro resultante de sua pesquisa de doutorado, defendida na PUC-SP em 2001, também sob orientação de Heloísa de Faria Cruz. Publicado originalmente como resultado de sua tese de doutorado, a obra é fundamental para a compreensão da história da imprensa e da cultura letrada na Amazônia. Nela, Maria Luiza Ugarte Pinheiro analisa o surgimento, a circulação e os sentidos sociais dos periódicos amazonenses no contexto da chamada Belle Époque da borracha, deslocando o olhar historiográfico dos grandes centros do país para uma experiência regional marcada por intensas transformações econômicas, sociais e urbanas, e dando destaque às folhas operárias e ao papel da mulher na imprensa.
Nesse sentido, os jornais aparecem não apenas como veículos de informação, mas como instâncias de produção de sociabilidade, de afirmação de identidades e de mediação entre elites letradas, trabalhadores, imigrantes e setores subalternos da população urbana, destacando hierarquias, exclusões e tensões. Sem sombra de dúvidas, Folhas do Norte contribuiu decisivamente para a renovação dos estudos sobre imprensa no Brasil, destacando a centralidade da Amazônia nesses debates. A obra permanece como referência incontornável não apenas para pesquisadores da história regional, mas para todos aqueles interessados na história da imprensa, da cultura letrada e das formas pelas quais diferentes grupos sociais disputaram sentidos e lugares no espaço público brasileiro.
Em 2001, seu interesse pela imprensa a levou, juntamente com seu companheiro de todas as horas Luís Balkar Pinheiro, a constituir, no âmbito do Departamento de História da UFAM, o Laboratório de História da Imprensa no Amazonas (LHIA), espaço que não apenas reuniu um vigoroso acervo sobre a História da Imprensa no Amazonas, como também se constituiu em espaço privilegiado para o desenvolvimento de pesquisas sobre a temática, contribuindo para impulsionar trabalhos, tanto no âmbito da graduação quanto na pós-graduação, e definir linhas de investigação no campo da história da imprensa e da cultura letrada no Amazonas. Mais do que um núcleo de guarda documental, o LHIA afirmou-se como um verdadeiro laboratório de formação historiográfica, estruturando projetos coletivos, promovendo a sistematização e catalogação de periódicos e estimulando abordagens que articulavam história política, história social do trabalho e história intelectual. Ao inscrever a imprensa como objeto e como fonte, o LHIA trouxe uma contribuição decisiva à historiografia regional.
Fruto desse trabalho de meticulosa pesquisa documental é a obra Imprensa operária no Amazonas, livro organizado por Maria Luiza Ugarte Pinheiro e Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro, que reúne transcrições e fac-símiles de diversos jornais operários amazonenses, disponibilizando essa preciosa documentação para a consulta de um público mais amplo e estimulando novas investigações no campo da História Social do Trabalho na Amazônia. Ao tornar acessíveis periódicos produzidos por associações operárias, tipógrafos e militantes nas primeiras décadas do século XX, a obra não apenas ampliou o repertório documental disponível, mas contribuiu para a ampliação das possibilidades interpretativas sobre as experiências políticas e organizativas das classes trabalhadoras no Norte do país.
Na apresentação, os autores destacam “a expectativa de que eles (os jornais) possam iluminar os estudos de História Operária, recém-iniciados no contexto do historiográfico do Norte do país”,6 explicitando o caráter programático da publicação: mais do que compilar fontes, tratava-se de intervir no próprio campo historiográfico, oferecendo base empírica sólida para a consolidação de uma agenda de pesquisa até então incipiente na região.7 Outro eixo fundamental de sua trajetória foi a incorporação da perspectiva de gênero à história social amazônica. Seus estudos sobre mulheres, imprensa, trabalho e sociabilidade contribuíram de forma decisiva para a consolidação da história das mulheres e dos estudos de gênero na Região Norte, dialogando com debates historiográficos nacionais e internacionais. Sua atuação como intelectual e feminista militante deu grande impulso às discussões sobre a História e Historiografia das Mulheres, disciplina que ministrava tanto na graduação quanto na pós-graduação e em torno da qual orientou e incentivou o desenvolvimento de pesquisas sobre gênero, feminismo e sexualidade. Na obra Gênero & imprensa na história do Amazonas, coletânea organizada pela autora reunindo textos de pesquisadoras e pesquisadores que articularam os eixos gênero e imprensa para “analisar as trajetórias das mulheres amazonenses desde a metade do século XIX, com especial atenção para as representações produzidas/ difundidas pela imprensa local”, Maria Luíza observava de forma muito pertinaz que “um rápido olhar sobre a historiografia amazonense (mesmo recente) nos permite perceber a quase completa ausência de estudos focados na trajetória e vivência feminina [resultando] na incômoda percepção de que referências às mulheres foram sempre esparsas e pontuais, quando não nulas)”.8
Felizmente, e em grande medida graças aos esforços de Maria Luiza em dinamizar e consolidar os estudos sobre gênero em nosso estado, o quadro anteriormente marcado pela escassez de pesquisas nessa área sofreu transformações profundas. Nas últimas décadas, observou-se um crescimento expressivo (tanto em termos quantitativos quanto qualitativos) das investigações que passaram a conferir centralidade às trajetórias, experiências e vivências de mulheres na história do Amazonas. Esse movimento não ocorreu de forma espontânea: ele se relaciona diretamente com a atuação intelectual e política de Maria Luiza, que contribuiu decisivamente para abrir caminhos, formular perguntas e estimular novas agendas de pesquisa. Sua contribuição não se limitou à produção de estudos pioneiros sobre mulheres, imprensa e mundo do trabalho na Amazônia.
Maria Luiza atuou como formadora de uma geração de pesquisadoras e pesquisadores que encontraram em sua obra, em sua orientação e em sua postura acadêmica e política uma fonte constante de inspiração. Sua conduta intelectual, marcada pelo rigor historiográfico, pela sensibilidade, pela generosidade e pela defesa de uma história social atenta às desigualdades, estimulou dezenas de jovens historiadores a trilhar o caminho das pesquisas sobre gênero e história das mulheres, ampliando significativamente esse campo de investigação. Uma rápida consulta ao catálogo de teses e dissertações do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas permite perceber com clareza essa inflexão historiográfica. Diversos trabalhos orientados por Maria Luiza enfrentaram diretamente o silêncio historiográfico que durante muito tempo marcou a história das mulheres na região. Entre eles, podemos mencionar pesquisas como: Imprensa e gênero: a condição feminina e as representações da mulher amazonense na imprensa provincial (1850-1889),9 de Bianca Sotero de Menezes; Mulheres impressas: amor, violência e trabalho no cotidiano das mulheres em Manaus (1932-1962),10 de Isabel Saraiva Silva; Imprensa, imigração, trabalho e sociabilidades femininas na Belle Époque manauara (1880-1920),11 de Valdirene Aparecida Pires Porto; e Reivindicando e negociando direitos: as trabalhadoras de Manaus na Justiça do Trabalho (1989-1999),12 de Isabel Cristina Saboia Varão, entre muitos outros trabalhos que passaram a investigar as múltiplas dimensões da experiência feminina na história amazônica sob sua orientação e inspiração. Maria Luiza Ugarte Pinheiro não apenas produziu pesquisas sobre gênero e história das mulheres, mas formou uma verdadeira agenda de investigação sobre mulheres na Amazônia, contribuindo decisivamente para consolidar o campo de estudos de gênero na historiografia amazônica.
Mais recentemente, em texto intitulado Caminhos da história das mulheres no Amazonas (2020), Maria Luíza traçou um panorama dos caminhos percorridos pelos estudos de gênero no Amazonas, observando que “felizmente, nas últimas décadas, esse quadro vem sendo, aos poucos, minimizado, contribuindo para isto a ampliação da pesquisa acadêmica, ancorada fortemente na expansão dos cursos de pós-graduação na área em todo o estado”.13 Outra temática que ocupou lugar central nas reflexões e investigações desenvolvidas por Maria Luiza Ugarte Pinheiro foi a questão da imigração no estado do Amazonas. Inserindo esse problema no interior de uma perspectiva mais ampla da história social do trabalho14 e da formação urbana de Manaus,15 Maria Luiza dedicou-se a examinar a presença e a atuação de diferentes grupos de imigrantes que se estabeleceram na região, especialmente no contexto das transformações econômicas e sociais impulsionadas pela economia da borracha entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. De família com origens em Portugal, Maria Luiza explorou de maneira particularmente fecunda as experiências de comunidades portuguesas,16 espanholas17 e de outros contingentes migratórios18 que passaram a compor o complexo mosaico social da capital amazonense. Ao investigar suas formas de inserção no mundo do trabalho, suas estratégias de sociabilidade e suas iniciativas associativas e culturais, a autora revelou como esses grupos contribuíram para redefinir as dinâmicas urbanas, políticas e culturais da cidade.
Um dos aspectos mais originais de sua abordagem foi o diálogo constante entre história da imigração, história da imprensa, história do trabalho e história das mulheres, frequentemente articulando pontes entre esses campos temáticos. A partir da análise de periódicos produzidos por comunidades de imigrantes (ou para elas), Maria Luiza demonstrou como a imprensa funcionou como espaço privilegiado de construção de identidades, de afirmação cultural e de articulação de redes de solidariedade e mobilização. Esses periódicos permitiam não apenas manter vínculos com as culturas de origem, mas também negociar lugares e pertencimentos no interior da sociedade amazônica.
Maria Luiza também ocupou posições de chefia e coordenação no Departamento de História, teve atuação destacada em projetos de cooperação acadêmica interinstitucional, como o Procad (que integrou a UFAM, a PUC-SP e a UFCG), além de participar de redes internacionais de pesquisa sobre história do trabalho portuário e imigração. No entanto, para além dos números e cargos, Maria Luiza Ugarte Pinheiro deixa como legado uma forma de fazer história profundamente enraizada na pesquisa empírica, no compromisso com os sujeitos históricos subalternizados e na valorização da Amazônia como espaço legítimo de produção de conhecimento historiográfico. Sua trajetória intelectual permanece como referência incontornável para os estudos sobre trabalho, imprensa, imigração e gênero, bem como para a formação de historiadores comprometidos com uma história social crítica e socialmente situada.
Todavia, para mim, Maria Luíza é muito mais do que uma das grandes referências da história social na Amazônia: é uma amiga querida que me recebeu de braços abertos em Manaus quando eu acabara de chegar de Porto Alegre, com uma mochila às costas, muitas expectativas e tantas esperanças. Naquele momento, ela e seu amado companheiro Luís Balkar me acolheram com uma generosidade rara, transformando-me em parte de sua maravilhosa família justamente quando a distância de minha cidade e de meus familiares por vezes feriam a alma e gelavam meu peito. Maria Luíza foi também uma companheira inesquecível na degustação de vinhos nas noites manauaras e uma parceira nos churrascos, encontros gastronômicos – nos quais ela sempre nos brindava com comidas maravilhosas e sobremesas deliciosas – e viagens para as belas cachoeiras de Presidente Figueiredo. No plano profissional, sua generosidade se manifestou de forma igualmente marcante. Foi ela quem me convidou para participar da minha primeira banca de mestrado na Universidade Federal do Amazonas. Do mesmo modo, minha primeira orientanda de mestrado também foi um presente seu: Maria Luíza abdicou de sua orientação para que eu não permanecesse sem orientandos no momento que ingressava no Programa de Pós-Graduação em História da UFAM. Gestos como esse dizem muito sobre sua grandeza humana e sobre o modo solidário com que compreendia a vida acadêmica. Em um dos livros com que me presenteou, escreveu que aquele gesto era apenas um “pretexto para animar futuras conversas regadas a muito vinho”. Hoje, com lágrimas incontidas nos olhos, finalizo este texto tomando um vinho — português, como ela gostava — e reiterando a profunda gratidão, admiração e carinho que sempre terei por Maria Luíza Ugarte Pinheiro. Sua presença permanece viva na memória, nas conversas, nos livros e nos vinhos. Sempre carregaremos essa saudade sobre os ombros!!!
0000-0002-5752-6148