David Montgomery (1927-2011) foi um dos principais responsáveis pela consolidação da História Social do Trabalho nos Estados Unidos (para simplificar, usaremos essa denominação para aquilo que nos países de língua inglesa foi batizado de new labor history), no entanto, é um autor cuja obra permanece pouco conhecida no Brasil para a maioria dos pesquisadores desse campo de estudos. Apesar de ter sido professor visitante no Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp, em 1987, quando pôde apresentar os resultados de sua pesquisa que resultaram no livro The Fall of the House of Labor,1 nenhum de seus livros chegou a ser traduzido e publicado aqui.2 A exceção quanto ao conhecimento de sua obra fica por conta primordialmente de pesquisadores brasileiros que, ao se voltarem para o tema do processo de trabalho, tomaram contato com seu livro já mencionado, assim como com o título que o precedeu Workers’ Control in America.3 Nessas obras, relacionou o papel do local de trabalho à configuração da consciência operária e o papel central dos operários qualificados para assegurar o controle sobre o processo de trabalho.
Esta resenha não faria sentido sem fornecer ao leitor um breve relato da trajetória política e acadêmica de David Montgomery, e que no livro é contemplada por meio tanto do “Esboço biográfico”, que abre o volume, quanto por passagens da Introdução, ambos de autoria dos organizadores. Essas duas dimensões de sua vida não podem ser entendidas de forma separada.
Montgomery nasceu em uma família branca de classe média nas proximidades de Filadélfia (Pensilvânia), desde a juventude interessou-se por temas de desigualdade e classes sociais, tendo começado a ler a imprensa socialista e seguido a política local. Seus estudos universitários no Hardfore College, nos arredores de Filadélfia, foram interrompidos pelo serviço militar como operador alocado na base de Los Alamos (Novo México), na qual foi desenvolvido o Projeto Manhattan que resultou na bomba atômica. Essa experiência o conduziu ao ativismo no movimento pelo controle de armas nucleares. Em 1947, tendo deixado o serviço militar como sargento, foi beneficiado pela lei de incentivo aos estudos dos soldados desmobilizados (GI Bill) ingressando no Swarthmore College, também próximo a Filadélfia, onde voltou-se para disciplinas em história.4
Após um curto período estudando ciência política e sociologia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, passou a trabalhar na companhia de geração de energia elétrica daquela cidade e ingressou no sindicato dos eletricitários, no qual atuou em questões relacionadas aos direitos civis. Entre 1951 e início de 1952, atraído pela atividade de apoio à igualdade racial, à coexistência pacífica e ao sindicalismo do Partido Comunista, ingressou nessa organização. Casou-se com Martel Wilcher, militante negra, em um período em que ainda imperavam leis de segregação racial em vários estados dos EUA, e em vários deles casamentos interraciais podiam conduzir à prisão. Em 1956, o casal, já com dois filhos pequenos, mudou-se para Mineápolis (Minnesota), onde Montgomery trabalhou como um operador de máquinas na grande fábrica da empresa Honeywell e atuou no sindicato dos mecânicos. Em 1957, como tantos outros de sua geração, na esteira dos debates em torno do XXº Congresso do Partido Comunista da União Soviética e da invasão soviética da Hungria, deixou o Partido Comunista. Em 1960, iniciou estudos de pós-graduação em História na Universidade de Minnesota, completando seu doutorado em 1962. No ano seguinte, iniciou sua carreira docente na Universidade de Pittsburgh (Pensilvânia), atuando nos círculos antiguerra e sindicais. Seu primeiro livro, Beyond Equality, versão revista de sua tese de doutorado, foi publicado em 1967.5
Entre 1967 e 1969, foi professor visitante na Universidade de Warwick (Inglaterra), juntando-se a Edward Thompson, então professor naquela instituição. Sob a influência deste último, publicou diversos artigos sobre a industrialização nos EUA. Porém, ao encontrar sindicalistas da indústria automobilística em Conventry, uma das companhias obteve sua deportação com base em lei de 1919, voltada contra estrangeiros subversivos. Essa experiência, juntamente com o contato com outros historiadores europeus, moldou sua percepção do controle operário nos EUA.
Na Universidade de Pittsburgh, Montgomery e seus estudantes de pós-graduação apoiaram ativamente diversos movimentos de trabalhadores universitários, mineiros de carvão, metalúrgicos e eletricitários. Em 1979, tornou-se professor da Universidade de Yale (New Haven, Connecticut). Nessa nova instituição, apoiou a organização de trabalhadores da instituição. Ainda em 1979, na Universidade de Pittsburgh, antes de sua partida para Yale, tornou-se editor da revista International Labor and Working-Class History, um dos mais inovadores e influentes periódicos de história social do trabalho, função que exerceu por dez anos. Em 1997, aposentou-se da Universidade de Yale, porém continuou ativo como pesquisador e conferencista.
Seu último livro autoral, Citizen Worker,6 fruto de um conjunto de conferências realizadas na Universidade de Oxford, trata da experiência dos trabalhadores no século XIX, com ênfase nos trabalhadores negros, e de como, pouco a pouco, as expectativas de direitos da população negra no pós-abolição foram sendo frustradas. À época de sua morte trabalhava com temas como a relação dos trabalhadores dos países industrializados com o imperialismo e a resistência ao colonialismo em diferentes partes do mundo.7 Depois disso, ainda coorganizou com Horace Huntley, Black Workers’ Struggle for Equality in Birmingham, que apresenta depoimentos orais com trabalhadores negros que participaram da luta por direitos civis em Birmingham (Alabama).8
A coletânea organizada por Stromquist e Barret reúne 20 textos de David Montgomery, do período de 1958 a 2014, a maioria publicados em periódicos científicos ou coletâneas, e três deles inéditos. Organizados em sete blocos temáticos, dentro de cada bloco os textos são ordenados por ordem cronológica de produção ou publicação. Os temas tratados abrangem um largo espectro que reflete o percurso intelectual e militante de Montgomery. Greves, motins, o processo de formação da classe operária nos EUA, a história do sindicalismo, racismo, trabalho compulsório, a relação entre classe trabalhadora, direitos e política institucional, história comparativa, imperialismo são alguns dos objetos tratados, em uma periodização que se estende do século XVIII ao final do século XX. Na organização da coletânea, percebe-se também a mudança operada no recorte geográfico de Montgomery, de uma história social do trabalho voltada para o caso nacional para uma cada vez mais comparativa e global. Vários dos capítulos da coletânea retomam as temáticas tratadas nos livros publicados por Montgomery e possibilitam ao leitor conhecer a análise do autor sobre os temas tratados, mesmo que desconheça seus livros. Porém, como já apontado, tanto o recorte temático quanto o recorte cronológico dos capítulos da coletânea vão além dos recortes encontrados nos livros autorais.
Evidentemente no espaço de uma resenha não é possível tratar com mais vagar cada um dos textos que integram o livro. Todavia, outra temática que convém enfatizar são os capítulos que integram o último bloco temático de número 7, que recebeu o título de “Intervenções políticas”. Três dos quatro textos/capítulos desse bloco tratam do contexto, dos impasses e das conquistas do sindicalismo estadunidense no final do século XX, neles vemos simultaneamente o Montgomery analista político, historiador e militante na sua melhor forma. Já o último capítulo, o de número 20, do bloco e do livro, com o título “Challenges Facing Historians of the Working Class” (em tradução livre “Desafios diante dos historiadores da classe operária”), constitui um verdadeiro programa de ação para aqueles que não acreditam que a luta de classes seja algo do passado. Nesse aspecto, os organizadores foram particularmente felizes no ordenamento e seleção dos textos. Em outras palavras, o livro, que conta ainda com a listagem da produção bibliográfica de Montgomery ao final e um índice temático e onomástico, é uma excelente introdução ao trabalho historiográfico e à atitude política desse historiador.
A eventual tradução e publicação de uma edição brasileira da coletânea de Stromquist e Barret seria uma ótima oportunidade para tornar David Montgomery conhecido de pesquisadores e de um público mais amplo no Brasil. É estarrecedor que um dos mais importantes historiadores do trabalho dentro de uma perspectiva marxista permaneça em grande medida desconhecido do leitor brasileiro, ademais porque suas análises suscitam questões cruciais para qualquer historiografia do trabalho.
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