Fantasmas rojos é uma obra escrita a quatro mãos por dois dos melhores historiadores argentinos em atividade, o que gera a expectativa de que a parceria resultaria em um trabalho de alta qualidade. O leitor não se decepciona, o livro é excelente. Ele reúne as características que qualificam os trabalhos acadêmicos de primeira linha, sobretudo erudição, clareza de linguagem e sofisticação da análise. Portanto, ainda que seja voltado a público mais amplo, o livro atende também aos requisitos e expectativas dos pesquisadores acadêmicos. Importa acrescentar que o livro oferece a seus leitores (especialmente aos estrangeiros) um bônus: embora tenha como foco a história do anticomunismo argentino ao longo do século XX, ele apresenta também uma síntese da história política daquele país no mesmo período.

Fantasmas rojos vem se somar a uma série de publicações e pesquisas realizadas nos últimos anos que vem configurando uma historiografia dedicada ao estudo do anticomunismo. Tais trabalhos têm mostrado que os embates envolvendo os projetos comunistas ocuparam papel essencial no século XX, com destaque para o fato de que o anticomunismo se manifestou bem antes da emergência da Guerra Fria, ao contrário do que imaginava o senso comum. A produção acadêmica sobre esses temas já vinha ganhando corpo desde os anos finais do século XX, mas tem sido impulsionada graças ao recente retorno da retórica do perigo vermelho ao palco político central, que é uma das facetas do chamado giro à (extrema) direita vivenciado em várias partes do mundo, inclusive na Argentina e no Brasil. O presente revival anticomunista é até certo ponto surpreendente, dado o óbvio declínio das experiências comunistas. Porém, como ressaltam os autores, nem sempre a retórica e as ações anticomunistas guardam uma relação de proporcionalidade com o comunismo realmente existente.

Como seria de esperar em um trabalho de historiadores profissionais, o livro se beneficia (e se apropria) da produção anterior sobre o mesmo tema, no seu país e em escala global, inclusive a historiografia produzida no Brasil. Aliás, os autores identificaram na Argentina traços semelhantes aos que têm sido analisados no caso brasileiro, como a existência de bases ideológicas conectadas a três argumentos (prefiro dizer matrizes) essenciais, que servem de inspiração e alimentam os discursos e as práticas anticomunistas: a defesa da propriedade privada e do mercado, a afirmação da religião e dos valores cristãos, e o nacionalismo de cariz autoritário. Além disso, eles igualmente perceberam que o anticomunismo se tornou uma tradição naquele país, com um imaginário enraizado em diferentes grupos sociais. Por outro lado, importa destacar que eles buscaram apontar singularidades da Argentina, tema que será retomado com mais vagar à frente. Franco e Bohoslavsky chamam a atenção para um aspecto que talvez não seja totalmente singular, mas é marcante no caso argentino. Em comparação a outros países, o mundo acadêmico da Argentina tardou mais a reconhecer a importância do anticomunismo, o que os autores do livro atribuem ao peso exercido por outros conflitos políticos centrais na história daquele país, sobretudo as disputas entre conservadores e radicais no primeiro terço do século XX, e, em seguida, os conflitos envolvendo o peronismo e o antiperonismo. Nesse sentido, um dos propósitos dos autores é mostrar que, na Argentina, os embates políticos do século passado não podem ser adequadamente compreendidos sem a chave do anticomunismo, e foram muito bem-sucedidos nesse intento.

A estrutura de capítulos do livro foi organizada à base de uma sequência cronológica das fases mais importantes do anticomunismo na Argentina, tendo em vista as respostas dos agentes estatais e não estatais frente ao desafio do “perigo vermelho”: 1902-1932; 1932-1958; 1958-1973; 1973-1983. Essa cronologia cobre praticamente todo o século XX e, ao longo dos capítulos, foram analisados os principais conflitos políticos vividos pela Argentina, as ações repressivas voltadas contra as esquerdas (incluindo o peronismo) e algumas das políticas sociais e culturais dedicadas a dificultar o proselitismo das ideias comunistas.

A estrutura analítica do livro enfoca prioritariamente duas dimensões dos fenômenos anticomunistas, que são destacadas ao longo do trabalho: primeiro, as ações repressivas, e, em segundo lugar, o que os autores chamam de dimensão integradora e produtiva do anticomunismo. No primeiro caso, a abordagem enfoca principalmente a legislação repressiva, os órgãos de vigilância policial, os golpes militares, as ações de censura e as práticas de violência mais aguda (assassinatos, torturas, desaparecimentos); no segundo aspecto, o livro analisa sobretudo a criação de leis sociais, políticas educacionais e iniciativas de propaganda, o que inclui produtos culturais como filmes e desenhos animados. Chama a atenção que as ações repressivas estatais receberam maior espaço na obra, seja porque os autores preferiram enfatizá-las, ou porque elas foram de fato mais impactantes ou mais frequentes que as ações integradoras. Ainda quanto às análises sobre ações integradoras, aponto um único senão ao livro. Creio que a escolha do título “Da cena política à vida cotidiana” para um dos subcapítulos não foi ideal, já que, na verdade, ali foram abordadas algumas entidades não estatais anticomunistas, alguns exemplos de produtos visuais voltados à propaganda anticomunista, as motivações religiosas e morais para a rejeição aos vermelhos e as vicissitudes da militância católica, inclusive os conflitos que surgiram quando alguns religiosos começaram a se aproximar da esquerda. De toda forma, as análises apresentadas na seção são consistentes e importantes para uma adequada compreensão da amplitude do arsenal anticomunista.

Para leitores brasileiros, é inevitável que o livro estimule a pensar em comparações e conexões envolvendo a história dos dois países, já que vários episódios e contextos aproximam as duas realidades históricas, de resto assemelhadas estruturalmente devido a processos de formação similares (colonização europeia etc.). No caso da história do anticomunismo, há abundância de possibilidades não apenas para pensar análises comparativas, mas também para perceber as interconexões e aprendizados mútuos, já que muitos agentes observavam o país vizinho buscando inspiração para suas ações. Alguns exemplos, entre muitos outros possíveis: no caso das iniciativas repressivas, a Argentina criou primeiro leis para expulsão de estrangeiros “indesejáveis” e adotou antes a fórmula “ordem política e social” para nomear aparatos policiais; já no Brasil foi criada antes uma legislação ampla que serviu à criminalização da militância comunista (a lei de segurança de abril de 1935, cujo título na verdade era: “que define crimes contra a ordem política e social”), enquanto na Argentina a tentativa de aprovar lei de semelhante escopo foi barrada pela Câmara dos Deputados pela mesma época.

Por outro lado, ainda em relação à temática repressiva, chama a atenção que em certos contextos as políticas estatais direcionadas aos comunistas seguiram rumos diferentes, como na altura de 1943, ano em que a ditadura varguista reduziu a pressão sobre o PCB devido ao alinhamento com os Aliados, o que permitiu aos comunistas brasileiros começarem a se reorganizar após anos de repressão intensa; já na Argentina, o golpe militar de junho de 1943 desencadeou severa perseguição aos militantes do Partido Comunista Argentino, que foram presos às centenas em diferentes localidades do país. Os autores informam que, no final de 1944, ocorreu um fracassado intento insurrecional do PCA, aparentemente inspirado na insurreição de novembro de 1935 no Brasil, cujo principal impacto foi intensificar a repressão anticomunista na Argentina. O episódio causa estranheza, afinal, por que iriam os comunistas argentinos inspirar-se numa insurreição fracassada? Porém, ele pode indicar que a percepção sobre a insurreição de novembro de 1935 na ocasião era distinta da que vigora hoje. Enfim, a lista de possibilidades para pensar conexões e comparações é longa e estimulante, mas fiquemos por aqui.

Voltando à questão das singularidades da Argentina, dois temas se destacam a partir da análise dos autores. Primeiro, o lugar central do peronismo e do antiperonismo na história daquele país, o que implicou numa intrincada relação com o comunismo, já que os peronistas foram ferrenhos anticomunistas, e, quando no governo (principalmente nos anos 1940-1950), perseguiram os militantes do PCA, seus concorrentes na disputa pela liderança da classe trabalhadora. Significativamente, os autores apontam que, no contexto dessa primeira experiência peronista, ocorreu um fenômeno de popularização dos valores anticomunistas, inclusive, e sobretudo, entre a classe trabalhadora, fruto das políticas empreendidas pelo peronismo no poder. No entanto, após o golpe militar que retirou Perón do poder, em setembro de 1955, e na medida em que setores peronistas se propuseram a ações radicais nos anos 1950-1960, e que parte deles se converteu a uma espécie de socialismo nacional nos anos 1970, inclusive abraçando a luta armada, eles passaram a ser vistos pelas forças conservadoras e militares como agentes do comunismo e da subversão da ordem, levando alguns desses setores a mesclarem antiperonismo e anticomunismo. Aqui se poderia conjecturar sobre o caso do varguismo no Brasil, que tem algumas semelhanças com o peronismo, mas o espaço da resenha não o permite. De todo modo, parece claro que o peronismo (e o antiperonismo) alcançou um enraizamento mais profundo nas classes populares e no imaginário social, enquanto o varguismo pode ter deixado um legado mais duradouro nas instituições públicas.

Outra singularidade enfatizada pelos autores, registrada no título do livro, seria que naquele país haveria anticomunismo forte sem um comunismo tão expressivo, portanto, na Argentina, o “perigo” comunista seria mais imaginário que real. Pode-se redarguir que isso não chega a ser uma excepcionalidade, já que outros casos foram semelhantes, como nos Estados Unidos. Além disso, historicamente, é difícil encontrar uma proporcionalidade exata entre a força do inimigo e o medo construído em torno dele. Entretanto, é verdade que no cenário do Cone Sul, e mesmo em comparação com outras regiões, o PCA não se destacou como uma força política decisiva (o seu melhor desempenho eleitoral foi 2% dos votos), embora em certos momentos tenha sido influente entre lideranças operárias e estudantis. Nesse caso, de fato, a imagem de fantasma vermelho pode funcionar melhor na Argentina. Assim, segundo os autores, o comunismo na Argentina teria sido um inimigo mais difuso e genérico do que em outros países, de modo que as ações e discursos anticomunistas acabaram por se prestar ao combate a todo tipo de ameaça à ordem, das greves operárias ao uso de drogas. De novo, tal forma de uso oportunista do anticomunismo também se vê em outros países, como já foi analisado no caso brasileiro, mas pode ter sido mais intenso no país platense.

Como é comum no caso das sínteses de boa qualidade, o livro levanta questões que suscitam a curiosidade e despertam a expectativa por um ulterior aprofundamento das análises. Essa sensação é mais forte ao ler o último capítulo, o mais breve deles, que trata do contexto entre o retorno de Perón ao poder, em 1973, e a sanguinolenta ditadura de 1976-1983, fase em que peronismo, antiperonismo e anticomunismo se encontraram mais uma vez na história argentina. O país viveu então um quadro político muito intrincado, já que o próprio governo Perón iniciou a repressão à esquerda armada, alvejando não apenas os guerrilheiros marxistas (principalmente do Exército Revolucionário do Povo), mas também os peronistas de esquerda (notadamente os Montoneros), que se sentiram traídos pelo líder. Os militares que assumiram o poder com o golpe de 1976 deram continuidade e intensificaram de maneira sanguinária as políticas repressivas do governo peronista. Porém, os discursos repressivos tenderam a apontar para atores subversivos genéricos, nomeados frequentemente como terroristas ou delinquentes, alvos que poderiam abarcar o peronismo, os marxistas (do ERP) e os comunistas. Para tornar o quadro mais desafiador, o PCA teve uma relação ambígua (para dizer o mínimo) com a ditadura de 1976, que, por sua vez, não incluiu o partido na lista das organizações políticas proscritas nem o colocou como alvo principal da repressão, além de ter mantido relações cordiais com a URSS (por razões econômicas), embora líderes militares de algumas províncias argentinas perseguiram os comunistas por conta própria, matando algumas centenas deles. Tendo em vista essa complexa e violenta fase da história argentina, fica-se em dúvida sobre o papel ocupado pelo anticomunismo, já que a retórica repressiva parece ter investido mais no terrorismo, na subversão e no marxismo, enquanto os comunistas propriamente ditos não foram o alvo principal.

Em suma, ao final do percurso, o leitor fica com vontade de conhecer mais, outra evidência da qualidade do livro, que vale muito a pena ser lido.

Recebido em: 25/082025
Aceito em: 26/01/2026
Publicado em: 23/06/2026