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                <journal-title>PERSPECTIVA: REVISTA DO CENTRO DE CIÊNCIAS DA
                    EDUCAÇÃO</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">PERSPECTIVA: REVISTA DO CENTRO DE
                    CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO</abbrev-journal-title>
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            <issn pub-type="epub">2175-795X</issn>
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                <publisher-name>Universidade Federal de Santa Catarina</publisher-name>
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            <article-id pub-id-type="doi">10.5007/2175-795X.2024.e95922</article-id>
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                <subj-group subj-group-type="heading">
                    <subject>Artigo</subject>
                </subj-group>
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                <article-title>Vivências de uma criança trans em contexto de Educação Infantil:
                    direito ao reconhecimento da identidade e do corpo</article-title>
                <trans-title-group xml:lang="en">
                    <trans-title>Experiences of a trans child in the context of early Childhood
                        Education: right to recognition of identity and body</trans-title>
                </trans-title-group>
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                    <trans-title>Experiencias de un niño trans en el contexto de la Educación
                        Infantil: derecho al reconocimiento de la identidad y el
                        cuerpo</trans-title>
                </trans-title-group>
            </title-group>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-9286-2158</contrib-id>
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                        <surname>Amâncio</surname>
                        <given-names>Izzie Madalena Santos</given-names>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-7741-3709</contrib-id>
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                        <surname>Lima</surname>
                        <given-names>Patricia de Moraes</given-names>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-0850-4014</contrib-id>
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                        <surname>Teodoro</surname>
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                <institution content-type="orgname">Universidade da Integração Internacional da
                    Lusofonia Afro-Brasileira, Unilab</institution>
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                    Lusofonia Afro-Brasileira, Unilab, Brasil, E-mail: izzie.mada@gmail.com,
                    https://orcid.org/0000-0001-9286-2158</institution>
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                <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Santa Catarina,
                    UFSC</institution>
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                <email>patricia.demoraeslima@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC,
                    Brasil, E-mail: patricia.demoraeslima@gmail.com,
                    https://orcid.org/0000-0001-7741-3709</institution>
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                <institution content-type="orgname">Universidade da Integração Internacional da
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                <country country="BR">Brasil</country>
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                <institution content-type="original">Universidade da Integração Internacional da
                    Lusofonia Afro-Brasileira, Unilab, Brasil, E-mail:
                    lcristina.teodoro@unilab.edu.br,
                    https://orcid.org/0000-0002-0850-4014</institution>
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                <month>04</month>
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                <season>Oct-Dec</season>
                <year>2024</year>
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            <volume>42</volume>
            <issue>4</issue>
            <fpage>01</fpage>
            <lpage>19</lpage>
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                    <year>2024</year>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
                        licença Creative Commons Attribution Non-Commercial que permite uso,
                        distribuição e reprodução não-comercial irrestrito em qualquer meio, desde
                        que o trabalho original seja devidamente citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <abstract>
                <title>Resumo</title>
                <p>O presente artigo realiza uma análise acerca da experiência da constituição da
                    identidade de uma criança trans por meio de narrativas que revelam a presença e
                    significação de seu corpo em instituições de Educação Infantil. O estudo
                    apresenta resultados parciais de uma pesquisa de mestrado no Programa de
                    Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, pautada
                    pelos seguintes objetivos: (1) perceber como uma criança trans narra e constitui
                    sua identidade de gênero e racial, (2) compreender, em processos de interações,
                    como negocia e interpreta as expectativas sociais de gênero, masculinos e
                    femininos, pulsantes em nossa cultura e (3) apreender como a criança significa
                    seu corpo infantil. A pesquisa pautou-se em um cunho etnográfico e os resultados
                    alcançados tratam de como as culturas educativas se diferenciam, e como o espaço
                    educativo é marcado pela transfobia em relação às crianças trans, impactando as
                    interações entre elas e seus pares, bem como com os adultos. Diante disso,
                    propõe-se uma reflexão acerca do desafio que se impõe às instituições educativas
                    de compreender e acolher as dissidências de gênero, promovendo os direitos das
                    crianças trans, de modo a assegurar-lhes uma existência digna e reafirmar sua
                    cidadania como um direito humano inegociável.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>Abstract</title>
                <p>This article analyzes the experience of the constitution of a trans child’s
                    identity through narratives that reveal the presence and significance of her
                    body in early childhood education institutions. This study presents the partial
                    results of a master’s research project in the Postgraduate Program in Education
                    at the Federal University of Santa Catarina, based on the following objectives:
                    (1) to perceive how a trans child narrates and constitutes her gender and racial
                    identity, (2) to understand, in processes of interactions, how she negotiates
                    and interprets the social expectations of gender, masculine and feminine,
                    pulsating in our culture and (3) to seize how the child signifies her infant
                    body. The research was based on an ethnographic approach, and the results show
                    how educational cultures differ and how the educational space is marked by
                    transphobia about trans children, impacting interactions between them and their
                    peers, as well as with adults. Given this, we propose a reflection on the
                    challenge that educational institutions face in understanding and welcoming
                    gender dissidence, promoting the rights of trans children, guaranteeing them a
                    worthy existence, and reaffirming their citizenship as a non-negotiable human
                    right.</p>
            </trans-abstract>
            <trans-abstract xml:lang="es">
                <title>Resumen</title>
                <p>El presente artículo realiza un análisis acerca de la experiencia de la
                    constitución de la identidad de una niña trans por medio de narrativas que
                    revelan la presente y significación de su cuerpo en instituciones de Educación
                    Infantil. El estudio presente resultados parciales de una investigación de
                    Maestría en el Programa de Posgraduación en Educación de la Universidad Federal
                    de Santa Catarina, pautada por los siguientes objetivos: (1) percibir como una
                    niña trans narra y constituye su identidad racial y de género; (2) entender, a
                    través de la interacción, como negocia e interpreta las expectativas sociales de
                    género, masculino y femeninos, relevantes en nuestra cultura y (3) aprender como
                    la niña significa su cuerpo infantil. La investigación es de cuño etnográfico y
                    los resultados alcanzados tratan de cómo las culturas educativas se diferencias
                    y como el espacio educativo es marcado por la transfobia en relación a la niñez
                    trans, impactando las interacciones entre ellas y sus pares, así como con los
                    adultos. Además de esto, se propone una reflexión acerca del desafío que se
                    impone a las instituciones educativas de entender y acoger las disidencias de
                    género promoviendo los derechos de la niñez trans, de modo de asegurarles una
                    existencia digna y reafirmar su ciudadanía como un derecho humano
                    innegociable.</p>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>Etnografia</kwd>
                <kwd>Crianças trans</kwd>
                <kwd>Identidade de gênero</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>Ethnography</kwd>
                <kwd>Trans children</kwd>
                <kwd>Gender identity</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="fr">
                <title>Mots-clés:</title>
                <kwd>Etnografía</kwd>
                <kwd>Niñez trans</kwd>
                <kwd>Identidad de género</kwd>
            </kwd-group>
        </article-meta>
    </front>
    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>Introdução</title>
            <p>Este texto apresenta resultados parciais de uma pesquisa de mestrado desenvolvida no
                Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, que
                teve como objetivo: (1) perceber como uma criança trans narra e constitui sua
                identidade de gênero e racial, (2) compreender, em processos de interações, como
                negocia e interpreta as expectativas sociais de gênero, masculinos e femininos,
                pulsantes em nossa cultura e (3) apreender como a criança significa seu corpo
                infantil. Por meio de uma Etnografia com uma criança que se auto identifica como
                transmasculina que, inicialmente, tinha 5 anos de idade.</p>
            <p>A pesquisa desenvolvida insere-se no campo dos Estudos Sociais da Infância, tendo
                como base a fundamentação teórica da Sociologia da Infância, que compreende a
                criança como sujeito social e a infância uma construção social do tipo geracional.
                Ainda, há o entendimento de que a infância é atravessada pela opressão de classe,
                gênero, raça e etnia. Assim, a partir do entendimento dos Estudos Interdisciplinares
                acerca das crianças e as infâncias, é necessário trazer, nas pesquisas, as
                narrativas das crianças trans, sendo assim, foi necessário questionar onde estavam
                as “vozes” delas, narrando as suas vidas, pois, não era possível escutá-las ou
                enxergá-las na maioria das pesquisas que falavam a partir de vozes adultas ou de
                interpretações de adultos, sobre as ações e falas de crianças presença na esfera da
                vida social (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Lima, 2015</xref>) sob a égide do
                legislativo brasileiro, que somente se tornou existente devido às reivindicações
                sociais.</p>
            <p>Na busca de captar as formas de ser, pensar e agir, em um processo de constituição
                que foi desenvolvida a pesquisa por meio de um estudo etnográfico. <xref
                    ref-type="bibr" rid="B4">Ferreira e Lima (2020)</xref>, argumentam que cada vez
                mais a Etnografia tem se mostrado útil, metodológica e epistemologicamente, para se
                pensar o universo que envolve as crianças. Partindo de um olhar que se desdobra em
                miudezas distintas do sentido originário do termo infância, ou seja, “àqueles que
                são ausentes de voz” ou “àqueles que não falam”. No que se refere à criança elegida
                para participar da construção deste projeto, partimos do pressuposto de que “as
                opções metodológicas não são neutras” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Ferreira;
                    Nunes, 2014, p. 116</xref>) e que, portanto, “a noção etária é um modo de
                classificação e representação social com relevo descritivo e analítico” (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B5">Ferreira; Nunes, 2014, p. 117</xref>).</p>
            <p>O sujeito eleito e convidado para participar desta ciranda investigativa,
                apresenta-se enquanto menino trans e reivindica em muitos vídeos e
                    <italic>lives</italic> maneiras adequadas de tratamento à uma criança trans,
                seja durante os atendimentos de saúde, educacionais e nos ambientes virtuais. Suas
                performances artísticas revelam entre o lúdico e a denúncia que esta criança trans
                produz, que ela está reivindicando alteridade em meio: (1) a uma sociedade
                adultocêntrica, (2) classista e racista e (3) cisnormativa. Entre esses eixos de
                opressão, interrogamos: como a criança trans, sujeito da pesquisa, narra as
                tentativas de desempoderamento do branco-cis-hetero-patriarcado?</p>
            <p>Levando em consideração alguns pontos a serem superados nas pesquisas com crianças,
                investimos, aqui, em uma compreensão de que diferentes recursos facilitam o processo
                no campo pesquisado, deste modo, foram utilizados para registro e construção de
                dados a observação, o diário de campo, a contação de história, os bonecos
                confeccionados em tecidos e a produção de desenhos. Nesse sentido, o uso de
                procedimento de construção de dados, a partir das narrativas da criança, com um
                caráter mais participativo, possibilitou um trabalho de interpretação e desocultação
                de sua voz e de certa forma da voz de outras crianças, que permanecem, muitas vezes,
                ocultas nos métodos tradicionais de investigação, através de perspectivas
                geracionais adultocêntricas.</p>
            <sec>
                <title>Identidade de gênero e transgeneridade</title>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B6">Jesus (2013)</xref> defende: gênero é uma
                    categoria que a inscrição não corresponde à categoria descritiva macho ou fêmea,
                    por se fazer por via da autopercepção do sujeito, portanto, a identidade de
                    gênero, independe do sexo. E, por serem identidades culturalmente construídas,
                    os gêneros não devem ser determinados a partir dos órgãos genitais dos sujeitos.
                    Nesse sentido, compreende-se que o gênero não é dado, é sistematicamente
                    ordenado por meio de códigos e lógicas que são produzidas e reproduzidas
                    socialmente.</p>
                <p>Sendo assim, por vezes, é comum confundir o gênero e a sexualidade. A
                    sexualidade, de modo específico, pode ser lida a partir da orientação sexual do
                    sujeito, e, grosso modo, se pode traduzir por “atração afetivo-sexual, por
                    alguém” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Jesus, 2013, p. 15</xref>). A identidade
                    de gênero é uma construção cultural e social que deve partir da autopercepção e
                    autoproclamação pelos sujeitos , em uma dada sociedade. Assim, o</p>
                <disp-quote>
                    <p>Gênero com o qual uma pessoa se identifica, que pode ou não concordar com o
                        gênero que lhe foi atribuído quando de seu nascimento. Diferente da
                        sexualidade da pessoa, Identidade de gênero e orientação sexual, são
                        dimensões diferentes e que não se confundem. Pessoas transexuais podem ser
                        heterossexuais, lésbicas, gays ou bissexuais, tanto quanto as pessoas
                        cisgênero (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Jesus, 2013, p. 14</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>Os sujeitos que se identificam ou concordam com o gênero que lhe foi atribuído,
                    são considerados cisgêneros, assim, é possível compreender o conceito de
                    “Cisgênero, como um conceito guarda-chuva que abrange as pessoas que se
                    identificam com o gênero que lhes foi determinado quando de seu nascimento”
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Jesus, 2013, p. 14</xref>).</p>
                <p>A transfeminista <xref ref-type="bibr" rid="B9">Nascimento (2021)</xref> pontua
                    que:</p>
                <disp-quote>
                    <p>O conceito de cisgeneridade coloca em disputa a percepção de que os corpos -
                        de que nenhum corpo, para ser específica —, é naturalmente sexuado, ou
                        generificado. Denuncia ainda o modo colonial de produção de nossos gêneros,
                        que vai além de uma assimetria entre os gêneros, como muitas feministas
                        historicamente abordam; o conceito colonial de gênero se ancora numa base
                        bioessencialista de definição das nossas experiências, impondo um padrão
                        exclusivamente binário de correspondência entre sexo (supostamente
                        biológico) e gênero (cultural) (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Nascimento,
                            2021, p. 100</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>Assim, é possível entender que a identidade parte sempre do sujeito,
                    independentemente de como a sociedade o compreende. Tanto as identidades cis ou
                    trans partem de uma identificação. O que diferencia os sujeitos são suas
                    experiências e pertencimentos na sociedade. As identidades cisgêneras são
                    eleitas pela sociedade enquanto norma, enquanto as identidades transgêneras,
                    transexuais e travestis são lidas enquanto desvio dessa norma, preestabelecida.
                    As normas de identidade de gênero são baseadas em lógicas biológicas, orientadas
                    a partir das características físicas do sujeito.</p>
                <p>Nessa perspectiva, a cisnormatividade atua na construção do sujeito antes mesmo
                    do indivíduo se perceber pertencente a algum gênero. <xref ref-type="bibr"
                        rid="B16">Vergueiro (2016)</xref>, defende que só se percebe a
                    não-cisgeneridade em função da opressão causada pela colonização cisgênera.
                    Assim, a construção de gênero está ritualizada desde a descoberta da gravidez, a
                    partir de determinadas expectativas sociais , onde a comunidade irá
                    aprender-ensinar alinhando as expectativas de gênero à normatividade biológica.
                        <xref ref-type="bibr" rid="B13">Scott (1995)</xref> anuncia que, as
                    representações simbólicas, culturalmente construídas para homens e mulheres,
                    elegem as identidades cisgêneras enquanto uma norma social, a dita identidade
                    positiva (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Silva, 2014</xref>), em oposição às
                    identidades trans, que são vistas como desvio da norma estabelecida
                    culturalmente e, por isso, são depreciadas para garantir o local hegemônico da
                    cisgeneridade. Cisgêneros, portanto, são pessoas que têm suas identidades de
                    gênero legitimadas pelo Estado e pela cultura. As identidades trans vão além de
                    um antagonismo às identidades cisgêneras, já que, representam uma vasta
                    possibilidade de viver e se sentir além do binarismo de gênero e suas imposições
                    socioculturais e subjetivas.</p>
                <p>A cisgeneridade, enquanto uma norma social colonizadora, atua a partir de
                    ferramentas ideológicas, políticas e individuais, embutidas no discurso
                    biomédico, jurídico, cultural, institucional e que constrói homens e mulheres
                    para serem cisgêneros. Nesse sentido, a construção compulsória de sujeitos
                    cisgêneros tem limitado as experiências de sujeitos não-cisgêneros, mas, não
                    anula as vivências múltiplas dos gêneros, pois, o gênero não é rótulo, não é
                    algo sólido, mas, pelo contrário, é plástico, autopercebido e autoproclamado. Na
                    década de 1970, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Oakley (2017)</xref><xref
                        ref-type="fn" rid="fn1">1</xref> contribui com o debate ao trazer a
                    discussão acerca dos “intersexuais”, e argumentar que esses sujeitos, que
                    assentavam na concepção biologizante nem enquanto homens ou tampouco mulheres,
                    nasciam e somente eram “determinados” por meio de cirurgias reparadoras e, após,
                    como os demais indivíduos, exerciam com “normalidade” os papéis de gênero dentro
                    das lógicas biológicas. Assim, para a referida autora</p>
                <disp-quote>
                    <p>Identidade de gênero (sentimento de si sobre ser homem e mulher) é o
                        determinante crucial do papel de gênero (viver como homem ou mulher); sexo
                        biológico pode ser, e, frequentemente é, reconstruído para permitir que o
                        indivíduo interprete papéis de gênero masculino ou feminino sem confusão e
                        riscos, do ridículo social. Aqui é que a biologia se torna plástica, num
                        sentido literal, e é alterada para estar em conformidade com a identidade de
                        gênero. Não é a identidade que é moldada, pela biologia (<xref
                            ref-type="bibr" rid="B10">Oakley, 2017, p. 68</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>Essa discussão foi um marco nas discussões das relações de gênero, ao quebrar o
                    paradigma biologizante, e compreender o termo como um fator psicocultural e
                    social, ou seja, independente da biologia e dos órgãos sexuais. No entanto, é
                    necessário evidenciar que os termos “intersexuais”, “homossexuais” e
                    “transsexuais”, usados por <xref ref-type="bibr" rid="B10">Oakley (2017)</xref>,
                    ainda eram marcados por uma lógica da patologização e pela linguagem normativa,
                    na qual a identidade de gênero da pessoa não depende de seu sexo biológico é
                    preciso, ainda, harmonizar a biologia com a identidade de gênero individual,
                    através de cirurgias.</p>
                <p>A garantia da identidade de trans é um direito. Visto que, em 25 de maio de 2018
                    a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou da classificação oficial de doenças
                    a CID-11<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>, que considerava como doença
                    mental o quadro de pessoas trans. A transsexualidade deixou de ser considerada
                    uma doença mental e passou a ser configurada como uma incongruência de gênero.
                    Já a expressão transgênero remete a um leque de categorias identitárias que se
                    relacionam às expressões que não estão de acordo com a matriz de sexo e gênero.
                    A transgeneridade acolhe a união política dos diversos indivíduos com distinções
                    de gênero consideradas incompatíveis com as condutas sociais que visualizam
                    apenas o binário de gênero. Porém, perfazendo um movimento de corpos que
                    importam é fundamental não restringir pessoas em dissidência enquanto
                    transgênero, sem fazer menção às demais identidades, que historicamente estão na
                    frente das trincheiras, destaca-se aqui travestis e homens e mulheres
                    transexuais.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>Crianças trans e educação escolar</title>
                <p>A pesquisadora, ativista, travesti negra, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Jesus
                        (2013)</xref> realizou uma pesquisa remota com dez pessoas, entre elas,
                    homens e mulheres trans, travestis e <italic>crossdresser<xref ref-type="fn"
                            rid="fn3">3</xref>.</italic> Na pesquisa, por meio de questionário
                    online, as pessoas entrevistadas sentiram que possuíam um gênero diferente do
                    atribuído socialmente. A pesquisa analisou, via memórias de pessoas dissidentes
                    em identidade de gênero, as implicações psicossociais das vivências de gênero —
                    os conflitos, desejos e realizações — na experiência de suas infâncias. Uma das
                    análises, destaca:</p>
                <disp-quote>
                    <p>Uma leitura das narrativas sobre as memórias da infância como crianças trans,
                        e de alguns de seus fragmentos, aponta para experiências comuns da vivência
                        da transgeneridade entre os diferentes sujeitos, com aspectos negativos,
                        como o sentimento do “estranho”, remetendo a uma internalização, pelas
                        crianças, do discurso binarista de gênero que busca controlar e evitar que
                        os limites atribuídos aos sexos biológicos sejam rompidos, e que sua
                        falibilidade seja evidenciada (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Jesus, 2013,
                            p. 10</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>A pesquisadora defende: fora do campo da psiquiatria e saúde mental <italic>lato
                        sensu,</italic> há pouca produção de pesquisas acerca das crianças trans,
                    sendo um reflexo de como as relações estão estabelecidas socialmente, e não
                    apenas na psiquiatria e saúde mental.</p>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B11">Oliveira (2018)</xref>, travesti preta, doutora
                    em educação e professora da Universidade Federal do Paraná, em seu artigo
                    intitulado “Minha vida em cor-de-rosa: cenas e encenações da transexualidade
                    feminina na infância”, analisa um filme e um documentário que abordam a
                    transexualidade feminina. No texto, revela com detalhes como o modelo de
                    organização social constrói a cisgeneridade como uma produção cultural, nas suas
                    palavras “as pessoas precisam ser ensinadas, desde muito cedo, a agir de modo
                    que consigam reproduzi-lo no futuro” (2018, p. 111). O agravamento da
                    discriminação com a adultização impõem uma lógica perversa às crianças trans,
                    segundo a autora,</p>
                <disp-quote>
                    <p>No caso da criança transexual, existe ainda o agravante de que ela pode ser
                        vista como portadora de uma patologia, que precisa e deve ser tratada,
                        passando por experiências que evidenciam o quanto está em desacordo com os
                        padrões pré-estabelecidos e como é necessário que altere sua forma de pensar
                        e agir para que possa adequar-se ao sexo anatômico e assim levar uma vida
                        “normal” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Oliveira, 2018, p. 113 – grifos do
                            original</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>Ainda, apresenta a reflexão acerca da realidade atual de pessoas que transicionam
                    de gênero na infância e como passam por processos violentos e dolorosos que
                    envolvem o reconhecimento de sua identidade de gênero por parte da família, dos
                    vizinhos e da sociedade de modo geral. Ressalta, ainda, que esses processos, por
                    vezes, ocorrem por meio de conflitos e discriminações que atravessam não apenas
                    a criança trans, mas, também, a rede que a cerca.</p>
                <p>A instituição educativa é um dos primeiros espaços de vida pública das crianças.
                    Uma das cenas analisadas por <xref ref-type="bibr" rid="B11">Oliveira,
                        (2018)</xref> é a agressão sofrida por uma das personagens dentro do
                    banheiro da escola, onde, para ela, são violências que visam possíveis práticas
                    corretivas para o sujeito trans. É importante ressaltar que o uso de
                    identificação em banheiros é parte de políticas culturais que versa a construção
                    dos gêneros, ou seja, sinalizam — de forma escrita, por cores ou por meio de
                    desenhos — o que se espera do macho ou da fêmea da espécie humana. A falta de
                    possibilidade do acesso por meio de uma autoidentificação do sujeito, não
                    possibilita o exercício da cidadania, da dignidade e nem tampouco do respeito. O
                    banheiro enquanto um espaço público e que faz parte do ambiente educativo,
                    necessita propiciar interações e apreensões de códigos de conduta moral,
                    portanto, torna-se um local privilegiado e é necessário compreender esse espaço
                    como um local em que a vida acontece, as crianças vivem e constroem cultura de
                    pares, mas, também, estabelecem entre si, relações de poder e opressão. Outra
                    discussão importante, é quanto os símbolos culturais:</p>
                <disp-quote>
                    <p>A construção de uma identidade de gênero, feminina ou masculina, tem nos
                        cabelos um elemento simbólico dos mais importantes. Deixá-los crescer
                        significa identificar-se como mulher e cortá-los, aproximar-se de uma
                        identidade masculina, necessitando no caso das crianças, do consentimento da
                        família (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Oliveira, 2018, p. 125</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>A transfobia, autorizada por meio do discurso adultocêntrico, questiona o severo
                    controle dos corpos e mentalidades das crianças trans. O conjunto de violências
                    e violações acometidos à comunidade podem desdobrar-se em um adoecimento, um
                    desgaste da força vital e mental do sujeito. Isso fica evidente na tentativa de
                    suicídio, apresentada na escrita da autora, por uma de suas personagens após
                    recorrentes práticas coercitivas e de responsabilização da criança trans em
                    relação às violências sofridas.</p>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B1">Amancio (2019)</xref> alerta que a construção
                    social do gênero normativo e normalizado atravessa a construção das identidades
                    de gênero das crianças, ou seja, “a triste realidade é que travestis e
                    transexuais estão expostas(es/os) a discriminações desde as suas tenras
                    infâncias” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Venturi; Bookany, 2011, p.
                        122</xref>). Estão vivenciando processos sociais complexos e aí reside a
                    necessidade de uma auscultação, para compreender quais as demandas de
                    atendimento, proteção e cuidado. Apesar das recentes e tímidas aparições desses
                    sujeitos concretos, observamos que a criança trans, mesmo enquanto categoria de
                    análise, desloca a universalização das vivências das crianças cisgêneras, a
                    infância normativa e normalizada, porque desestabiliza a infância normal e
                    ingênua, esperada pela instituição educativa.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>A experiência de uma criança trans no contexto educativo e da Educação
                    Infantil: a infância e o direito a ter direitos</title>
                <p>É importante evidenciar que, ao longo do tempo, a compreensão acerca do que é a
                    infância e a criança, tem se transformado. Assim, esses dois conceitos são
                    fundamentais neste artigo, e concordamos com <xref ref-type="bibr" rid="B12"
                        >Sarmento (2008)</xref>, quando afirma que as crianças são atores sociais,
                    sujeitos de direitos e por um outro lado e interligado ao anterior que a
                    infância é categoria social geracional e socialmente construída.</p>
                <p>Esta pesquisa de caráter qualitativo buscou, por meio da Etnografia, trabalhar
                    com um estudo específico de uma criança trans. Dizer, portanto, que a Etnografia
                    tem sido considerada uma abordagem eficaz em estudos e pesquisas que envolvem
                    crianças, não deve ser entendida, no entanto, como uma mera transposição de
                    procedimentos utilizados junto de uma população adulta para seu emprego, junto
                    das crianças. Embora os recursos etnográficos em pesquisas com crianças sejam
                    considerados os mais adequados, utilizá-los não é tarefa fácil. O caminho a ser
                    trilhado é marcado pelas incertezas próprias de cada dia e de cada momento, pois
                    nunca se sabe ao certo o que pode garantir o sucesso na busca e na construção de
                    dados. Ao longo do processo de constituição de significados do e para o mundo
                    social, as crianças inventam, reinventam, negociam e estabelecem códigos e
                    limites que nem sempre o adulto consegue compreender. Assim,</p>
                <disp-quote>
                    <p>Precisamos conviver com as incertezas nos estudos das crianças, agora não
                        mais compreendidas como sujeitos passivos. Elas são capazes de burlar
                        algumas regras e normas dos adultos e criam entre elas verdadeiros sistemas
                        culturais de apreensão dos significados do mundo que ainda necessitamos
                        estudar e compreender (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Delgado; Müller, 2005,
                            p. 144</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>Baseadas em <xref ref-type="bibr" rid="B7">Lima (2015)</xref>, importa considerar
                    para a pesquisa etnográfica, (1) o olhar de perto e de dentro, que acompanha e
                    participa do cotidiano enquanto sujeito do processo da pesquisa. Os modos de
                    inserção no campo, pressupõe, portanto (2) o estar com, que neste sentido,
                    significa a vivência em um campo de possibilidades que está intimamente ligada a
                    uma entrada <italic>in locus,</italic> com respeito e sensibilidade ao
                    interlocutor e sua realidade cultural. Neste sentido, o processo de escrita da
                    pesquisa etnográfica parte de um esforço de tradução daquilo que foi vivido,
                    daquele que foi sentido e experienciado. Diante disso, é fundamental (3) assumir
                    a escrita como elemento político da pesquisa, pois é neste movimento
                    etnográfico, que lançamos a alteridade para o centro do debate, trata-se daquilo
                    que não nos passa despercebido, porque nos atravessa em uma relação de
                    interdependência entre pesquisadoras e sujeitos (<xref ref-type="bibr" rid="B7"
                        >Lima, 2015</xref>).</p>
                <p>Ainda, a Etnografia, enquanto epistemologia e metodologia é excelente para
                    conhecermos as crianças a partir das próprias crianças (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B5">Ferreira; Nunes, 2014</xref>), e isso significa reconfigurar as
                    velhas formas de entender as crianças nas pesquisas, requer um esforço de
                    posicioná-las a partir do que são, em suas temporalidades, potencialidades,
                    alteridades, competências e experiências, específicas a cada uma delas. Uma
                    Etnografia reflexiva corresponde a estes pontos mencionados anteriormente, é um
                    situar os sujeitos enquanto sujeitos da infância e também construtores de
                    culturas:</p>
                <disp-quote>
                    <p>Neste seguimento, os processos de reflexividade metodológica inerentes à
                        prática etnográfica constituem terreno fértil para ampliar a problematização
                        do conceito de agência aos adultos, desafiando-os a perspectivarem o
                        conceito de adultez nas diferenças, alteridades e interdependências
                        intergeracionais, segundo um entendimento de ambas as condições, adultos e
                        crianças, como identidades em construção, transitórias e múltiplas (<xref
                            ref-type="bibr" rid="B5">Ferreira; Nunes, 2014, p. 117</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>Ao refletir os modos de produção da pesquisa junto de uma criança trans, em
                    tempos de Pandemia, optamos por transpor a pesquisa ao modo remoto, a fim de
                    garantir a saúde das pessoas envolvidas. O encontro com a criança da pesquisa
                    foi iniciado dentro do ambiente virtual, nas redes sociais. Na ocasião do
                    encontro, o perfil da criança, sujeito da pesquisa, foi divulgado nas mídias
                    digitais dos movimentos sociais de travestis e transexuais, numa campanha de
                    visibilização e proteção às crianças trans, muito em função da transfobia
                    denunciada por famílias de crianças trans do Brasil e a refletir acerca da
                    diminuição da idade das pessoas violentadas com o passar dos últimos anos.</p>
                <p>Durante o estudo etnográfico, foi utilizada a plataforma virtual <italic>Google
                        Meet,</italic> que viabilizou a gravação dos encontros, a realização de
                        <italic>prints</italic> da tela, exibição de tela para dialogar acerca do
                    perfil nas redes sociais da criança, saber melhor do seu processo de
                    autonomeação enquanto sujeito trans.</p>
                <p>Ainda, levando em consideração alguns pontos a serem superados nas pesquisas com
                    crianças, investimos em uma compreensão de que diferentes recursos facilitam o
                    processo de inserção no campo pesquisado. Tais recursos certamente ampliaram as
                    possibilidades de capturar os momentos vividos durante a pesquisa de campo.
                    Nesse sentido, a busca foi por procedimentos de construção de dados a partir das
                    narrativas da criança, considerando um caráter mais participativo e entendendo
                    que podem propiciar um trabalho de tradução e desocultação das vozes das
                    crianças, que permanecem ocultas nos métodos tradicionais de investigação, por
                    meio de perspectivas geracionais e adultocêntricas.</p>
                <p>O uso de fotos, por meio do <italic>prints,</italic> possibilitou a construção da
                    memória capturada nas telas e transpor os sentidos do campo recorrendo ao uso da
                    imagem. Experiências com a fotoetnografia ou a imagem-criança foram
                    compartilhadas por <xref ref-type="bibr" rid="B8">Lima e Nazario (2014)</xref>,
                    ao apontarem que “o trabalho com fotografia nas pesquisas com crianças tem nos
                    auxiliado a constituir uma aproximação mais genuína aos universos infantis e
                    contribuído para nos colocar diante de uma experiência com a infância” (p. 505).
                    As autoras demonstram ainda o quanto há potência no uso das fotografias no
                    sentido de fornecer a possibilidade de uma “leitura de narrativas visuais sobre
                    o contexto investigativo” (p. 501) como, por exemplo, os elementos que compõem a
                    trama social do sujeito onde o conjunto de elementos registrados podem
                    revelar-nos aspectos da cultura da criança.</p>
                <p>Oficialmente, a observação de campo foi iniciada em fevereiro de 2021, na ocasião
                    ele (o sujeito da pesquisa) estava com 6 anos de idade, porém, como dito, o
                    encontro foi anterior, bem como os contatos não oficiais de aproximação. A
                    relação de escuta da criança exige da adultez um lugar de constante vigilância
                    acerca do seu papel.</p>
                <p>Além das observações, optou-se pela realização de oficinas, mas no primeiro
                    encontro remoto ocorreu a apresentação do projeto de pesquisa e o convite para a
                    criança fazer parte da pesquisa. O estabelecimento de uma relação com a criança
                    na pesquisa, possibilitou conhecê-lo a partir do universo que compõe seu
                    cotidiano, apesar dos encontros requererem o uso de tecnologias limitadas, foi
                    construído um espaço comum no qual era possível questionar reciprocamente, mas
                    também a si mesmo, este exercício fica explícito diante das interrogações
                    advindas da pesquisa junto a um menino trans. Ao passear pela produção de
                    conteúdo no perfil no Instagram, ele apresentou sua família, as pessoas
                    trans/travestis que ele conhecia e suas significações e entendimentos sobre
                    signos e símbolos socioculturais, como explícito no diálogo abaixo:</p>
                <disp-quote>
                    <p><italic>Pesquisadora: Como? E essa pessoa quem é? É a Leona?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Hanram! Éporque... é a tia Leona. Olha minha camisa de super
                            man?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Sim...</italic></p>
                    <p><italic>Criança: (Inaudível)</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Entendi. Deixa eu ver aqui mais e essa bandeira aqui, é
                            uma bandeira aqui atrás?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: O que?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Dessa foto...</italic></p>
                    <p><italic>Criança: É, porque ela botou tipo um filtro e apareceu essa bandeira.
                            Aí ela botou, uma roupa aí eu fiquei com essa roupa aí!</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E essa bandeira, significa o que?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Trans.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Um? A bandeira trans?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Sim.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E o que é ser trans?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: O que?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: O que é ser trans? Como é ser trans?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Tipo, você é um homem aí quer ser menina. Aí você é menina e
                            você é, quer ser, homem. Pronto.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Entendi. Olha eu quando era criança. Aqui oh: (mostro
                            foto minha com 3 anos de idade). Eu usava roupa de menino.</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Oh!</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Eu usava roupa de meninos. Aí eu demorei bastante para
                            poder falar com minha mãe para eu passar a usar roupas de menina e mudar
                            o meu nome. Você está vendo aqui?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eu também fui a mesma coisa.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Foi? E como é que foi para você? Você se sentiu como
                            depois que você falou com sua família?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eu me senti (inaudível).</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Hum, como?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Me senti tremendo.</italic> (Transcrição da Primeira
                        Conversa com a criança, sujeito da pesquisa, em 26 de julho de 2021, via
                        plataforma do <italic>google meet</italic>)</p>
                </disp-quote>
                <p>Na conversa, foi possível acessar uma narrativa acerca da transexualidade, a
                    partir de uma criança trans de hoje e uma criança travesti que vivenciou outros
                    processos até chegar à afirmação da sua própria identidade. Na relação
                    construída com a criança na pesquisa, não apenas a identidade dissidente em
                    gênero que se comunica pelo diálogo aberto, mas a diferença se anuncia por
                    diversos prismas e narrativas entre a criança e a adulta da investigação,
                    justamente porque a relação entre a criança hoje e a criança da memória, é
                    intermediada pelas leituras que se têm do tempo de agora.</p>
                <p>Durante as conversas, a criança trans evidenciou um processo de transição
                    familiar que perpassa o reconhecimento de sua identidade de gênero, sendo
                    acolhido a partir de seu desejo. É possível interpretar que, ao reivindicar para
                    a sua mãe a sua identidade de gênero, o faz não apenas em um sentido isolado,
                    mas abre caminho para o entendimento de si e suas relações com o mundo. Ao
                    revelar sua identidade, reivindica cidadania e aponta para as ausências
                    afetivas, buscando mobilizar e constituir uma rede de acolhimento e apoio,
                    inicialmente, dentro do seu próprio lar. A criança apresenta a sua família por
                    meio das fotos e conta do processo de autonomeação:</p>
                <disp-quote>
                    <p><italic>Criança: Pode ser esse daqui? Vai.. vaipra cima.. pra baixo... pra
                            baixo.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Pra baixo? Me ensina aí que eu estou
                            aprendendo.</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Pode descer.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Pode descer?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Pra cima. Olhe aí.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: e essa foto daqui?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Pode falar.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E essa foto daqui, quem é que está nestas
                            fotos?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Minha família.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: É a sua família? Quem é essa pessoa da frente, é você e
                            do seu lado?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: É o meu irmão.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E lá atrás? Quem são?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: É a minha mãe, a minha outra mãe e a minha
                        irmã.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Como é que foi que você chegou pra sua mãe pra poder
                            falar que você é um menino? Você lembra disso como é que
                        foi?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Foi, sabe por quê? Porque eu não gostei, porque eu não
                            gosto, eu não gostei de ser menina. Aí eu via um canal e me deixou
                            impressionado o nome. E eu fui perguntar para minha mãe se eu podia
                            ficar com o nome.</italic> (Transcrição da Primeira Conversa com a
                        criança, sujeito da pesquisa, em 26 de julho de 2021, via plataforma do
                            <italic>google meet</italic>)</p>
                </disp-quote>
                <p>Durante essa conversa, a criança solicita ser chamada pelo seu nome, num
                    exercício de renomear-se a partir de seus pertencimentos. A escolha do nome de
                    uma pessoa trans é refletida em seus aspectos de pertencimento, então é comum, a
                    mudança do nome mesmo após a eleição de um nome anterior. O interessante aqui é
                    a abertura dada pela família, para que receba respeito e tratamento digno. A
                    criança vai contando como ocorreu o seu processo de transição inicial,
                    concomitante com a transição da sua família, que, inicialmente, trouxe as
                    questões da autopercepção de gênero e outros fios que foram sendo puxados, como,
                    por exemplo a escolha do nome, os brinquedos a partir do seu gênero
                    autoproclamado, o uso de roupas “para meninos” e como essas narrativas foram
                    significando as suas sensações acerca das conquistas de cidadania.</p>
                <p>Assim, em uma das conversas foi pedido para que dividisse uma folha de papel em
                    dois lados e que desenhasse o que ele sentiu quando ganhou a carteira de
                    identidade com o nome social e no outro lado como ele se sentia quando as
                    pessoas não o tratavam pelo nome social. A criança pediu para desenhar um lado
                    sobre o nome social e no outro ele assistindo o desenho do SONIC, nesse sentido,
                    foi negociada a feitura do desenho. A partir do seu desenho, contou como
                    percebeu o processo de inclusão do nome social em sua carteira de
                    identidade:</p>
                <disp-quote>
                    <p><italic>Pesquisadora: Tá bom. O que foi que você desenhou, nesse primeiro
                            desenho da página?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eu desenhei dizendo assim: “Vai logo, eu quero ter meu
                            documento!”. Aí eu disse</italic></p>
                    <p><italic>a ela, ela disse, aí eu desenhei ela dizendo:
                        “Garoto...”.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Conta a história pra mim. Como foi que surgiu esse
                            desenho?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Quê?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Isso daí aconteceu?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: O meu fone caiu!</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Ahn! Me conta a história desse desenho, o que foi que
                            você quis dizer nesse desenho?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eu quis dizer que a mulher quando ela viu, aí ela tava
                            grávida, né? Aí eu: Vai logo!</italic></p>
                    <p><italic>Termina esse negócio! Aí eu fiquei assim, oh! Na parede
                            assim...</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Ah, foi difícil você conseguir seu documento, com o
                            nome social?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Foi e muito!</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora : Foi? (...)Por quê?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Passei até dias sem o documento. Aí demorou, demorou,
                            demorou, demorou, demorou, demorou... (risos) demorou (...). Demorou,
                            até-rerereeee chegar lá, lá, lá, lá, um, é, um, é... (...)</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Sim, e aí demorou, demorou e demorou para você
                            conseguir o documento... e como foi que você se sentiu quando você pegou
                            seu documento?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Ué, feliz, feliz!</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Foi você que pediu pra botar o nome
                        social?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: No início as pessoas demoraram pra se acostumar a te
                            chamar pelo seu nome?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Passou dias, dias... (...)</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Aí demorou alguns dias, demorou alguns dias para as
                            pessoas se acostumarem...</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Dias não, dias não. Passou um dia aí ela se acostumou, se
                            acostumou, meus amigos (ele repete várias vezes o seu próprio
                            nome)</italic> (Transcrição da Sexta Conversa com a criança, sujeito da
                        pesquisa, em 05 de agosto de 2021, via plataforma do <italic>google
                            meet</italic>)</p>
                </disp-quote>
                <p>Uma discussão central trazida por ele, diz do direito ao nome social na carteira
                    de identidade de crianças trans, que somente é possível a partir da solicitação
                    do responsável legal e aqui, ganha evidência a importância do apoio familiar
                    para a garantia do acesso ao direito de ter um nome com o qual a criança se
                    identificava. Ainda, na narrativa acima está um contexto protagonizado pela
                    criança trans, que, a partir do interesse das pessoas que estão à sua volta,
                    mostra um outro lugar habitável para a cisgeneridade. Além do processo
                    vivenciado para a conquista de seu nome social e a garantia de sua identidade de
                    gênero como direito, a vivência no espaço educativo, também, foi analisada. Aos
                    poucos, foi possível maior aproximação para compreender como ocorriam as
                    interações tanto com as crianças quanto com os adultos presentes naquele espaço,
                    ou seja, a trajetória escolar de um menino trans. A partir do lúdico foi
                    possível acessar as narrativas acerca da instituição educativa, como segue um
                    trecho da conversa:</p>
                <disp-quote>
                    <p><italic>Pesquisadora: Tá tudo bem?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Tá, o meu irmão tá fazendo tarefa. A minha irmã está
                            assistindo. Está tudo bem aqui.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E você foi pra escola hoje? E como é que foi
                            lá?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Foi bom. De noite eu comi macarrão enrolado, comi batata,
                            parecia que não era batata porque não pareceu batata e
                        cenoura.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Hum...</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Não me parecia batata.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E deixa eu te...</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Não me parecia batata, mas o gosto era de outro
                            gosto.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: (risos)</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Será que é batata mesmo? (risos) Eu não sabia se era
                            batata.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: (risos) Hoje aqui eu comi arroz e
                        salada...</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Um dia eu também comi brócolis, arroz, feijão, macarrão,
                            feijão, macarrão.</italic></p>
                    <p><italic>Brócolis e salada e tomate.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E lá na escola, como é que é? Lá tem
                        merenda?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Hoje eu comi: Eu comi a (inaudível)</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Como?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eu posso comer só um farelo de queijo.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Ah, você tem intolerância à lactose?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Sim.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Entendi.</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eu peguei o pão. Não são dois pães? Pão e dentro tem queijo.
                            É que tem uma mulher, eu acho que é o nome dela é Mônica, eu disse isso
                            [Ela me deu o queijo] Por favor, você pode só tirar esse outro pão aí?
                            Ela disse: “Tem certeza? “ Eu: Tenho. Ela foi lá, tirou e botou em outro
                            pote. Aí eu fui embora.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Aí você comeu e não sentiu alergia...</italic></p>
                    <p><italic>Criança: É.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E na hora do, você chama intervalo ou
                        recreio?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Intervalo?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Na hora do lanche.</italic></p>
                    <p><italic>Criança: No recreio tem que comer e no lanche tem que comer. Ainda
                            bem porque eu gosto de comer.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E estão indo todos os colegas para a
                        escola?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Sim. Todos os colegas estão virando meu amigo. Ana virou.
                            Riquelme virou. Outro virou e mais outro virou!</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Todos estão virando seus amigos!</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Só um que eu não tô vendo ele na escola mais. Eu não tô
                            vendo não...</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Hum... Entendi.</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Hoje eu não vi um amiguinho não. Porque um amiguinho meu,
                            ele não está indo.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Entendi. E eles são cisgêneros ou são
                        trans?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Quê?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Eles são cisgêneros ou são trans? São crianças
                            cisgêneras ou são crianças trans? Os seus amigos...</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eles são normal, não são trans.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Não são trans... hum... E eles sabem que você é
                            trans?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Quê?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E seus colegas sabem que você é trans?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eu nunca disse.</italic></p>
                    <p>(Trecho da quarta oficina com a criança, sujeito da pesquisa, dia 29 de Julho
                        de 2021).</p>
                </disp-quote>
                <p>Diante o que a criança destacou, a possibilidade de uma leitura alheia quanto o
                    seu corpoidentidade não lhe foi tirada, alguém poderia ter dito, porém, ele
                    afirma que não disse. Nesse sentido, não é um segredo, é apenas um assunto que
                    não é falado naquele contexto. Enquanto sujeito de direito, é garantido a
                    possibilidade de ser e existir sem constrangimentos de seus pertencimentos
                    identitários, é assegurado o lugar da experiência do corpo no mundo, sem ser
                    necessário explicar e indicar ao outro o seu local de constituição enquanto
                    sujeito trans. Em outra conversa, o diálogo foi direcionado para suas vivências,
                    e a criança comentou enquanto menino trans que gosta de roupas masculinas e se
                    sente feliz usando-as, quando perguntado sobre usar as suas roupas na escola,
                    ele comenta:</p>
                <disp-quote>
                    <p><italic>Pesquisadora: E como foi na escola? Quando você começou a usar
                            roupas...</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Em qual escola?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Quando você começou a usar as suas roupas na
                            escola.</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Ah, foi legal!</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E os coleguinhas entenderam.</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Ah, entenderam... Eu sempre entro no banheiro, fecho o
                            banheiro.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: No banheiro? Eu num (não) ouvi.</italic></p>
                    <p><italic>Criança: No banheiro: Eu entro no banheiro, fecho a porta, que tem a
                            portinha do banheiro, porque tem a portinha no banheiro, tiro as calças
                            e faço xixi e pronto</italic> (Trecho do Primeiro encontro com a
                        criança, sujeito da pesquisa em 26 de julho de 2021).</p>
                </disp-quote>
                <p>Um dos pontos que a criança aborda diz respeito à plasticidade do gênero, em que
                    enquanto criança, a roupa é, por vezes, o que vai diferenciar a leitura social
                    da identidade de gênero. Ele refere-se à experiência da transmasculinidade na
                    instituição educativa. É importante ressaltar que, naquele momento, a criança
                    estava em uma primeira vivência de aula presencial após o início da Pandemia e,
                    também, de sua transição acessando a política do nome social e que, a
                    instituição respeitou, assegurando o direito à identidade de gênero e,
                    especificamente, ao uso de roupas masculinas. No entanto, nem sempre a vivência
                    no espaço educativo é positiva em relação ao seu direito de ter seu corpo e
                    identidade respeitados; por exemplo, no oitavo encontro, a conversa girava sobre
                    o nome social na instituição educativa, como é possível acompanhar abaixo:</p>
                <disp-quote>
                    <p><italic>Pesquisadora: Mas na tua carteira aparece que nome
                        agora?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Ainda.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Entendi. O outro nome não aparece?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Hunrum.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E a professora sabe?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Não, até agora.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E você já contou pra algum dos colegas de lá pra cá,
                            que eu te perguntei uma vez e você falou que não.</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Não, né?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Entendi. E você prefere não contar?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eu não prefiro nem contar, né?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: O que?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eu não preciso nem contar.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Por quê?</italic></p>
                    <p><italic>Criança Porque eu não quero. Quer que aconteça a mesma coisa que
                            aconteceu na minha outra escola?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E o que foi que aconteceu?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Ué, na outra escola!</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Qual escola?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: A minha primeira escola.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Como é que foi lá na primeira escola, com teu nome? Com
                            teu nome antigo, o teu nome morto. Eles falavam o seu nome
                            morto?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Sim. Algumas vezes. Quando soube, né? Aí o garoto falou
                            desse jeito, o nome morto.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Aí você não quer contar na escola nova para as pessoas
                            não ficarem te chamando, pelo nome morto. É isso?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: O que?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Você não quer contar na escola para as pessoas não
                            saberem o seu nome morto?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Sim.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Mas qual o problema das pessoas saberem?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Porque eu não quero que eles saibam desse
                        jeito.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Eles fazem o que quando sabem? Eles chamam você e você
                            se sente como?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Ué, do jeito que eu fiquei naquele dia, naquela escola.
                            Chateado.</italic> (Trecho da oitava oficina com a criança, sujeito da
                        pesquisa, em 12 de agosto de 2021).</p>
                </disp-quote>
                <p>A estratégia do silêncio desenvolvida pela criança é interessante diante das
                    situações de violências motivadas pela transfobia institucional, até mesmo, nas
                    interações dentro do ambiente educativo. Ele diz não precisar contar por que não
                    o notam enquanto criança trans, mas conta que antes do reconhecimento familiar e
                    educativo em compreendê-lo enquanto sujeito de direitos, ele sofreu agressão
                    dentro do banheiro da escola, quando um menino cisgênero o chamava pelo nome de
                    registro antigo, usando o nome imposto à criança trans como forma de violência,
                    de lhe pautar a partir da norma estabelecida na cultura — escolar e social.</p>
                <p>A criança quando passa na modernidade a ser inserida na instituição educativa
                    passa a ser o aluno<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>. A questão aqui é
                    quando a categoria aluno diz de uma normatização que transborda os contornos
                    territoriais e sensoriais de crianças trans, impondo o estigma através da
                    diferenciação. Uma chave para interpretarmos a violência transfóbica, como eixo
                    de intersecção que atravessa a construção da criança, e sobressai diante das
                    demais, é a utilização do nome de registro como ato de violência contra a
                    criança trans. Essa violência física e psicológica, perpetua-se durante sua
                    trajetória na Educação Infantil, marcando as experiências na pré-escola por meio
                    da transfobia. Ao ser perguntado se ele recorreu a ajuda da professora durante o
                    período em que sofria com a violência, responde:</p>
                <disp-quote>
                    <p><italic>Criança: Não.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Hum... você tinha medo de contar para a
                            professora?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Sim.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: E você achava que ela iria falar o que se você
                            contasse?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: “Não”.</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Hãn?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: “Não” o que ela ia (iria) dizer.</italic></p>
                    <p>(Trecho da primeira oficina com a criança, sujeito da pesquisa em 26 de
                        agosto de 2021)</p>
                </disp-quote>
                <p>A noção de aluno normativo desdobra-se em uma fricção no cotidiano da criança, e
                    isso impacta diretamente nas relações e interações estabelecidas no contexto
                    educativo. A ideia do aluno é uma ideia normalizada fixada em aspectos limitados
                    e limitantes da criança. No artigo “O desencantamento da criança: entre a
                    Renascença e o Século das Luzes” escrito por <xref ref-type="bibr" rid="B2">Boto
                        (2002)</xref>, a autora diz:</p>
                <disp-quote>
                    <p>De fato, o que parece ser a voz corrente dos escritos sobre educação, entre a
                        Renascença e o Século das Luzes, é um dado desejo de obtenção do mínimo
                        denominador comum da infância: as características básicas presentes em todas
                        as crianças, qualquer que seja a classe, a nacionalidade, o nível de
                        inteligência etc. Nisso, encontra-se um quê de silêncio, de separação, de
                        isolamento, e também de invisibilidade. A criança é muda; em sua
                        individualidade, é espectador silencioso; é silenciada na sua voz, que, pelo
                        suposto moderno, não saberá falar por si A criança dita pela razão moderna
                        foi desencantada; sem dúvida. Foi secularizada e institucionalizada.
                        Passamos - teóricos da educação - a falar dela. Ao separar a criança do
                        universo adulto, a modernidade cria a infância como uma mônada - unidade
                        substancial ativa e individual; presente, no limite, em todos os seres
                        infantis da espécie humana: sempre a mesma; sempre igual, inquebrantável,
                        inamovível, irredutível - um mínimo denominador comum. Não falamos mais das
                        crianças, e sim da infância (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Boto, 2002, p.
                            57</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B2">Boto (2002, p. 14)</xref> anuncia: a pedagogia
                    desde a Renascença vem aderindo novas perspectivas no que tange à pedagogia, com
                    outros modos de perceber o ser humano e também de conceituá-lo. De modo singular
                    a criança passou a ser retratada a partir de um ponto de vista inferiorizado,
                    nota-se a dificuldade, na época, de perceber a criança enquanto sujeito, tendo
                    em vista, a visibilização de outros sentidos para a criança:</p>
                <disp-quote>
                    <p>A criança é percebida pelo que lhe falta, pelas carências que apenas a
                        maturação da idade e da educação poderiam suprir. Frágil na constituição
                        física, na conduta pública e na moralidade, a criança é um ser que deverá
                        ser regulado, adestrado, normalizado para o convívio social (Botto, 2002, p.
                        17).</p>
                </disp-quote>
                <p>Neste sentido, os colégios na modernidade passam a adotar lógicas de seu tempo,
                    baseados em um ideal de tempo para exercitar a mente a fim de torná-lo produtivo
                    e preparador de um terreno fértil para uma fase adulta de produtividade. Assim,
                    com efeito o aluno deixa a sua bagagem de experiências enquanto criança, criança
                    trans, a bagagem de vida é deixada na porta da escola, outras experiências ficam
                    para a rua, é bem-vindo à instituição o sujeito normalizado, deste modo, a
                    cultura da criança trans não é reconhecida e valorizada dentro do contexto
                    educativo, a sua própria existência enquanto sujeito sociocultural. Se por um
                    lado, junto ao assujeitamento, tem resistências e formas de impor-se frente às
                    normas vigentes, é preciso aparecer os contrapontos.</p>
                <disp-quote>
                    <p><italic>Pesquisadora: Entendi. E eles são cisgêneros ou são
                        trans?</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Quê?</italic></p>
                    <p><italic>Pesquisadora: Eles são cisgêneros ou são trans? São crianças
                            cisgêneras ou são crianças trans? Os seus amigos...</italic></p>
                    <p><italic>Criança: Eles são “normal”, não são trans.</italic></p>
                    <p>(Trecho da quarta oficina com a criança, sujeito da pesquisa, dia 29 de Julho
                        de 2021).</p>
                </disp-quote>
                <p>Na conversa, por mais que a criança não utilize a palavra cisgênero ou, talvez,
                    não tenha ouvido direito a pergunta em função da tecnologia, o fato é que foi
                    apresentada uma dicotomia intrínseca na afirmação de que os colegas não eram
                    trans e, sim, eram crianças normais. De outro modo, é possível refletir que por
                    não serem trans os amigos são normais. Portanto, de ambas as formas, a categoria
                    trans é distinta da normal, se por um lado está significando um outro, o sujeito
                    normal, há também nessa colocação uma compreensão de si na resposta, sendo a
                    criança um sujeito trans, na medida em que as diferenças se colocam em relação.
                    A afirmação do espaço de poder ocupado pela norma cisgênera ou cisnormatividade
                    consequentemente centraliza as experiências-corpo-subjetividade das crianças
                    cisgêneras para a consolidação de uma cultura escolar que fabrica
                    compulsoriamente crianças cisgêneras. Neste sentido, o modo como operam para a
                    cisnormatização é via objetificação da criança trans, que atravessa a construção
                    identitária de todas as crianças na Educação Infantil.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>Considerações finais</title>
            <p>Os desafios para o desenvolvimento da pesquisa foram muitos, o principal podemos
                dizer que foi a oportunidade de conhecer a criança trans e interpretar suas
                múltiplas formas de comunicação e a busca por direitos e reconhecimento da sua
                identidade.</p>
            <p>No âmbito da pesquisa etnográfica, a autointitulação da criança como um menino trans,
                permitiu compreender a sua identidade de gênero, vivenciada a partir de uma
                masculinidade deslocada da hegemônica ao considerar as potencialidades e
                pertencimentos do seu corpo trans em sociedade. E, em relação às identidades de
                gênero, a criança pontua uma perspectiva positiva e parte da autonomeação do sujeito
                tanto para si, quanto para o outro.</p>
            <p>Os dados de campo da pesquisa, também, apontaram, a partir da narrativa da criança
                trans, para a construção da identidade trans desde a tenra infância, em um contexto
                de construção, reconhecimento e valorização familiar. Ainda sobre este dado, a
                partir da narrativa da mãe da criança trans, a percepção da identidade dissidente de
                gênero da criança, ocorreu entre 02 e 03 anos de idade, por meio da recusa dos
                brinquedos, brincadeiras e vestimentas, porém, a autonomeação enquanto menino trans
                ocorreu aos 05 anos de idade, concomitantemente com a experiência na Educação
                Infantil.</p>
            <p>Mediante as narrativas da criança trans foi possível perceber a ausência de preparo
                para o acolhimento e garantia de seus direitos quando apresenta a sua primeira
                experiência em uma instituição de Educação Infantil. Situações de violências
                vividas, tais como: agressões físicas, insultos, por parte de outras crianças,
                desrespeito em relação ao uso do nome social, foram recorrentes na sua trajetória. O
                banheiro foi narrado como um lugar que tem centralidade para a dinâmica dessas
                violências quando do seu uso, levando-nos a pensar a marca heteronormativa imposta
                na arquitetura institucional e os impactos na constituição dos direitos das crianças
                trans.</p>
            <p>Por fim, a pesquisa identifica dois cenários distintos onde a criança experiencia a
                construção da sua transsexualidade: a casa e a instituição educativa. O cenário das
                violências é narrado e identificado nas experiências fora de casa e nas instituições
                educativas. Fazendo-nos pensar o desafio das instituições educativas para
                compreender as dissidências de gênero e a construção dos direitos das crianças trans
                por uma vida digna, sem violências e que afirme a sua cidadania como um direito
                humano, e inegociável.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <fn fn-type="other" id="fn1">
                <label>1</label>
                <p>O texto aqui referenciado é uma tradução para o português do Capítulo 6, “Sex and
                    Gender”, do livro de Ann Oakley, “Sex, Gender and Society” (1972), publicado na
                        <bold>Revista Feminismos (2017).</bold> Disponível em: <ext-link
                        ext-link-type="uri"
                        xlink:href="https://periodicos.ufba.br/index.php/feminismos/article/view/30206"
                        >https://periodicos.ufba.br/index.php/feminismos/article/view/30206</ext-link>.
                    Acesso em: 30 out. 2024</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn2">
                <label>2</label>
                <p>Maiores informações: <ext-link ext-link-type="uri"
                        xlink:href="https://www.paho.org/pt/noticias/11-2-2022-versao-final-da-nova-classificacao-internacional-doencas-da-oms-cid-11-e"
                        >https://www.paho.org/pt/noticias/11-2-2022-versao-final-da-nova-classificacao-internacional-doencas-da-oms-cid-11-e</ext-link>.
                    Acesso em: 10 nov. 2024.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn3">
                <label>3</label>
                <p>Independe da cultura ou do sexo, é a pessoa adepta a prática de se vestir,
                    manifestar e usar adereços do sexo oposto. Este termo tem sido usado pensando o
                    “Preconceito e/ou discriminação em função da identidade de gênero de pessoas
                    transexuais ou travestis” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Jesus, 2013, p.
                        29</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn4">
                <label>4</label>
                <p>Consideramos essa nomenclatura a partir do Ensino Fundamental.</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ref-list>
            <title>REFERÊNCIAS</title>
            <ref id="B1">
                <mixed-citation>AMANCIO, Izzie Madalena Santos. <bold>Só posso ser menina ou
                        menino?</bold> Identidade de gênero e raça nas narrativas de crianças em
                    espaços de Educação Infantil. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em
                    Pedagogia) - Instituto de Humanidades e Letras dos Malês, Universidade da
                    Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, São Francisco do Conde,
                    2019. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
                        xlink:href="https://repositorio.unilab.edu.br/jspui/handle/123456789/1670."
                        >https://repositorio.unilab.edu.br/jspui/handle/123456789/1670.</ext-link>
                    Acesso em: 30 nov. 2023.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="webpage">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>AMANCIO</surname>
                            <given-names>Izzie Madalena Santos.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><bold>Só posso ser menina ou menino?</bold> Identidade de gênero e raça
                        nas narrativas de crianças em espaços de Educação Infantil. Trabalho de
                        Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia) - Instituto de Humanidades e
                        Letras dos Malês, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia
                        Afro-Brasileira, São Francisco do Conde</source>
                    <year>2019</year>
                    <date-in-citation content-type="access-date">30 nov. 2023</date-in-citation>
                    <comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
                            xlink:href="https://repositorio.unilab.edu.br/jspui/handle/123456789/1670."
                            >https://repositorio.unilab.edu.br/jspui/handle/123456789/1670.</ext-link></comment>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B2">
                <mixed-citation>BOTO, Carlota. O desencantamento da criança: entre a Renascença e o
                    Século das Luzes. In: FREITAS, Marcos Cesar de; KUHLMANN JR, Moysés (org).
                        <bold>Os intelectuais na história da infância.</bold> São Paulo: Cortez,
                    2002.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>BOTO</surname>
                            <given-names>Carlota.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <chapter-title>O desencantamento da criança: entre a Renascença e o Século das
                        Luzes</chapter-title>
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