Chamada para artigos- edição temática Cadernos de Tradução: "Tradução e Exotismo - a invenção do 'Outro' na literatura"

Apesar de todo o ruído – teórico, social, político, económico – de séculos e séculos em redor da tradução, ruído que tendeu a representá-la como ato de (mera) replicação, tradutores e editores, autores e demais agentes literários sempre souberam que tradução implica necessariamente transformação. Línguas, culturas, circunstâncias históricas, políticas e sociais, idioletos autorais são demasiado diversos para que a simples reprodução seja possível.

Embora o conceito e a discussão em torno da invisibilidade, promovido sobretudo por Lawrence Venuti, ilustre bem o status quo dos tradutores no Ocidente, sublinhando os modos como aquela tende a silenciar a presença da tradução no espaço público, há ainda muito que fazer para documentar as formas como os tradutores foram vivendo esta invisibilidade, isto é, estudar como o impacto de os tradutores terem sido durante séculos invisíveis no mundo ocidental reduziu, por um lado, a possibilidade de ocuparem na cultura o lugar que deveria ser seu por direito e, por outro, como a invisibilidade possibilitou uma série de práticas que ajudaram a configurar os modos como uma cultura vê (e constrói) os seus diferentes Outros. Enquanto ‘agentes secretos’ (Cronin 2003), aos tradutores foi, apesar de tudo, concedido um grau não despiciendo de poder: o de introduzir e representar/apresentar o outro numa dada cultura. Isto implicou, não raras vezes, uma medida de centramento, em que um ‘nós’ fala de (traduz) um ‘eles’. Ora, como nos lembra Adrienne Rich (1985), poderá ser produtivo perguntar quem é este ‘nós’, porquanto ele é responsável pelos ‘nossos’ outros, pela sua presença, mas também, em grande parte, pela sua invenção.

Na medida em que cada tradução – literária, económica, política – pode ser, ao mesmo tempo, uma prática de descentramento e de recentramento, isto é, uma janela aberta para as vidas de outros e/ou um tijolo no muro da autoperceção, este número especial de Cadernos de Tradução propõe-se debater os processos de manipulação, (des/re)figuração e (in)compreensão do Outro/outros. Por outras palavras: importa discutir os processos pelos quais a tradução enquanto transformação criativa contribui para a produção do tecido imaginativo de uma cultura.

Particularmente bem-vindos são contributos que se debrucem sobre a tradução de literatura infantojuvenil, a tradução de (ou a presença da tradução em) literatura de viagens, memórias, literatura de migração e jornalismo. Este número procura respostas, ainda que provisórias, a perguntas como: em que medida as práticas e os padrões tradutórios produziram imagens de outro(s) em diversos públicos?, como foram os outros objeto de ‘exotização’ ao longo dos tempos e como se tornou isto parte do tecido imaginativo de diferentes culturas?, como é o medo de outro(s) construído na e pela tradução?, em que medida promove/retrai a literatura infanto-juvenil (assim como a literatura para adultos) uma visão cosmopolita do mundo?

Michael Cronin (2003), Translation and Globalization, New York and London: Routledge.

Adrienne Rich (2001), ‘Notes towards a politics of localization’, Arts of the possible. Essays and conversations, New York and London: W.W. Norton & Company. [11985]

Lawrence Venuti (), The Translators’s Invisibility, New York and London: Routledge.

 

Aceitam-se propostas para:

  • · artigos originais com uma extensão de 5,000 a 6,000 palavras, em inglês ou português (excluindo notas, indicações bibliográficas e anexos);
  • · resenhas originais com uma extensão de 2,000 a 4,000 palavras, em inglês ou português, sobre obras na área de Estudos de Tradução publicadas nos últimos cinco anos;
  • · resenhas originais com uma extensão de 2,000 a 4,000 palavras, em inglês ou português, comentando traduções entre diferentes pares linguísticos e de diferentes géneros textuais.

Os interessados devem enviar um resumo de 500 a 600 palavras, juntamente com o título e uma breve nota biográfica (cerca de 100 palavras) para os endereços electrónicos das editoras: 

marie.helene.torres@gmail.com

mlopes@fch.lisboa.ucp.pt

Após notificação da aceitação da proposta, os autores são convidados a enviar um manuscrito completo. Todos os manuscritos serão sujeitos a um processo de dupla arbitragem e aos procedimentos editoriais da revista.

 Datas a reter:

31 de julho 2016

Prazo-limite para submissão dos resumos

Enviar para editoras:

marie.helene.torres@gmail.com

mlopes@fch.lisboa.ucp.pt

20 de agosto 2016

Notificação de aceitação/rejeição

1 de dezembro de 2016

Prazo-limite para entrega dos manuscritos às editoras

31 de março 2017

Comunicação dos resultados da arbitragem

31 de maio de 2017

Prazo-limite para a entrega do artigo revisto pelos autores. Enviar para editoras.


   setembro de 2017

Data de publicação