Encontros Bibli,v.2, n. 3, 1997

Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação

O Ensino de Biblioteconomia no Brasil: questões acerca do modelo Deweyano

Professor Francisco das Chagas de Souza

Introdução
Estabilidade da Organização da Informação
Conteúdos reforçadores do modelo Deweyano

Práticas de Ensino Reforçadoras do Modelo Deweyano

Conclusão

INTRODUÇÃO

Dissemos, em artigo anterior, que há um modelo Deweyano de Organização da Informação e que a este liga-se um modelo de Educação bibliotecária. Ambos, enquanto prática e formação de recursos humanos, são enformados por um paradigma geral, o Paradigma da Estabilidade da Organização da Informação.

Este paradigma da estabilidade não era estranho a outros campos do saber e sustentou, a partir do conhecimento produzido pela Física Newtoniana, todas as mais expressivas explicações sobre a macroorganização do Cosmos.

Pelo fato do conhecimento produzido pela Física, advindo da pesquisa teórica e experimental, funcionar como referência a todas as demais ciências suas regras metodológicas foram incorporadas pelas ciências humanas e sociais. Do mesmo modo o foram grande parte de suas leis e de suas teorias.

De outro lado, ainda hoje se constata, a matriz teórica Newtoniana é fundamental para explicar e para se compreender grande parte dos fenômenos da natureza. Por esta razão, sua validade continua a extrapolar para outras áreas, entre elas a Biblioteconomia, reforçando uma noção fundamental como a de que é possível sustentar-se o Paradigma da Estabilidade da Organização da Informação. 

ESTABILIDADE DA ORGANIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO

Imagina-se que é possível sustentar esta estabilidade na medida em que se opera a partir do senso comum por uma certa consciência de que as instituições são permanentes. À falta de uma noção histórica mais objetiva, vê-se a Igreja, a Escola, a Universidade, o Estado, a Imprensa, o Livro, etc. como produtos ou processos a-históricos, isto é, naturais.

Esta visão caricaturada da realidade, que se recusa a ver o tipicamente social, enformado por um cotidiano marcado por rupturas permanentes, transporta também para a prática bibliotecária e, por conseguinte, para a Escola de Biblioteconomia, uma postura de alienação, de desrazão, hoje incompatível com as mudanças provocadas pelos processos globalizadores do capital e desprovincianizadores da cultura. Mais grave parece ser esse comportamento de alheamento nos países que, como o Brasil, ainda não produziram sistemas de larga utilização na organização da informação documentária. É que a produção de tais sistemas, ao depender da autocriação do conhecimento científico e tecnológico, depende muito mais da autocriação de conhecimento filosófico. Tais conhecimentos ainda não são amplamente produzidos em tais países, cuja dependência de capital financeiro reduz suas possibilidades de autocriação, confinando-os ao estágio de limitados re-produtores.

Colocados nesta condição, tais países tornam-se, em decorrência, submissos à aplicação dos modos de conhecimento e dos modos de organização daqueles conhecimentos que reforçam ou que meramente satisfazem aos interesses dos imperialismos dominantes. Em relação ao Brasil, o Antropólogo Darcy Ribeiro, tanto no livro O Processo Civilizatório quanto no mais recente O Povo Brasileiro, constrói explicações suficientemente claras a respeito da nossa condição de povo dominado. Também pode-se encontrar em Júlia Falivene Alves [A invasão cultural norte-americana] e em Enrique Dussel [1492 - o encobrimento do outro], dentre outros estudiosos sobre a realidade social, histórica e política brasileira e sul-americana, uma expressiva fundamentação que espelha como a falsa percepção e compreensão de estabilidade nos é imposta, a despeito da negação cotidiana.

Advém, portanto, de uma série de circunstâncias impositivas, amedrontadoras, assassinas, econômica e financeiramente punitivas, a imposição de uma noção de estabilidade que, se espraiando sobre todos os setores, se estabelece também no segmento bibliotecário. E nesse âmbito, isto se representa no Brasil embutido no modelo de ensino Deweyano, por si mesmo auto-centrado em um Sistema de Classificação temática do Conhecimento, limitado e limitante, auto-centrado num não-saber temático do Professor de biblioteconomia, limitado a identificar assuntos, a partir da leitura técnica dos documentos, e a correlacioná-los com símbolos alfanuméricos da tabela de classificação, passando-os equivocadamente como “números de classificação”.

A despeito de uma tradição social norte-americana de uso intenso de bibliotecas, de construção massiva de bibliotecas, de criação de sistemas organizadores de documentos e de sistemáticas de atendimento a um público leitor, o que chegou no Brasil pelo modelo Deweyano de educação foi tão somente o seu conjunto de princípios, regras de operação e modos de representação formal. É isto que faz do professor de biblioteconomia brasileiro, em geral, um sujeito assujeitado a uma tradição de cultura bibliotecária externa, um bibliotecário aculturado que, aprendendo a negar sua própria cultura local, ou o que dela se mantém e se constrói, nos termos postos por Darcy Ribeiro, é incapaz de formular princípios de biblioteconomia que derivem de sua prática social. 

CONTEÚDOS REFORÇADORES DO MODELO DEWEYANO

Resultando dessa situação de assujeitamento ou aculturamento bibliotecário, reforçado em especial no período da ditadura civil [empresarial-estatal] do Estado Novo [ver A vitória da razão (?), de Maria Antonieta Antonacci], com a colaboração de vários intelectuais servis a uma ideologia importada de nacionalismo, o conteúdo dos Cursos de Biblioteconomia foi-se consolidando por rótulos e por práticas indistintas do modelo original que supõe uma sociedade leitora, letrada e com as mesmas oportunidades e potencialidades sociais de vir a formar leitores e cidadãos livres.

Tal espírito que supostamente sustenta o ensino de biblioteconomia no Brasil, no entanto, por ser só imitativo, não produz bibliotecários que consigam fortalecer uma sociedade leitora, já que aqui não existe uma sociedade ou um povo com a mesma feição do povo norte-americano, e também não consegue formar bibliotecários formadores de leitores, na medida em que também boa parte dos estudantes que chegam às escolas de biblioteconomia, não foram formados enquanto leitores.

Grande parte da crise do ensino de biblioteconomia no Brasil está no fato de que seus próprios estudantes só passam a ter alguma relação com bibliotecas após seu ingresso no Curso. Assim, as idéias de que a Catalogação é a descrição do documento, de que a Classificação é a representação simbólica do assunto do documento e de que o serviço de referência significa o acesso a informações aquém ou além dos documentos só começa a ser percebida ao longo do Curso.

Isso leva a que, num extremo, a simbologia alfanumérica para a representação temática seja mencionada como “número de classificação” e, no outro extremo, a que a normalização da documentação seja trabalhada como um modelo inescapável, acima de todo o movimento da sociedade. No fim, o que se vê é que a sociedade infra-bibliotecária, o povo mesmo, continua a existir e a funcionar a despeito das verdades proclamadas pela Escola bibliotecária. A rigidez desta, a forma como labora sobre o estudante a incompreensão da sociedade acerca do trabalho bibliotecário, em vez de formar empreendedores e propagadores da idéia de trabalho conjunto e de construção participativa com o povo, forma, nos estudantes de biblioteconomia, a pré-visão ou o pré-juízo de povo como de inimigo das bibliotecas e dos bibliotecários.

Esse desajustamento, essa alienação do social, também se dá na medida em que, diferentemente da majoritária realidade norte-americana, o estudante que chega à escola de graduação em biblioteconomia no Brasil, não está preparado com razoável visão de ciência ou de conhecimento humanístico e em condição, portanto, de receber a formação profissional bibliotecária, de cunho técnico-científico, pelo que ela é, ou seja, como uma instrumentação social para um trabalho específico. Esse estudante brasileiro chega à Escola/ Curso de biblioteconomia para ser formado como um universitário, chega para ser formado, para além da instrumentação ao trabalho, como um potencial intelectual humanista, o que, ressalvadas as exceções, não acontece.

Por tais razões, a visão de um conhecimento naturalizado da biblioteconomia se torna ainda mais forte, por ser tomado como todo o conhecimento de que o bibliotecário precisa para situar-se socialmente e produzir cultural e economicamente. 

PRÁTICAS DE ENSINO REFORÇADORAS DO MODELO DEWEYANO

A sustentação dessa reprodução se faz, na Escola de Biblioteconomia, por procedimentos de ensino que se estabilizaram no modelo educacional autocentrado no conhecimento do docente, situação que se verifica em outros contextos culturais em que a biblioteconomia norte-americana se impôs como forma dominante ou pre-dominante conforme se constata também na educação bibliotecária chinesa [ver LIU, Kejing. On the teaching model of education for library and information science in China. J. of Education for Library and Information Science, v. 35, n. 3, p. 249-258, Summer 1994].

Nas escolas bibliotecárias brasileiras isso se faz a partir da prática de exercícios exaustivos, especialmente de classificação bibliográfica, com absoluta predominância da Classificação Decimal de Dewey, seguida da Classificação Decimal Universal, em que compete ao estudante identificar precariamente os assuntos imagináveis pelos títulos fornecidos e localizar nas tabelas do sistema de classificação dado, quais as respectivas representações simbólicas para os mesmos. Ainda quando os exercícios variam, não variam a postura do professor de quem dependem da absoluta, precisa e definitiva interpretação de qual o “número de classificação” adequado.

Este tipo de postura que se reproduz em outras matérias e respectivas disciplinas do curso de biblioteconomia vai, ao longo de 4,5 anos, forjando bibliotecários em sua maioria distanciados de seu contexto. O grave é que muitos deles, embora ingressando no curso com idéias mais realistas sobre a sua realidade social, sobre o seu ambiente de bairro, vai, ao longo do tempo necessário à conclusão do curso, sendo situado num novo universo que abstrai e distancia aquilo que conhecia. É nesse confronto da sua realidade social e de ambiente vivencial com a teoria ministrada na escola, de forma avassaladora, que a maioria dos estudantes de biblioteconomia brasileiros se vêem aculturados e alienados.

Ao final de seus estudos, a maioria dos formandos em biblioteconomia brasileiros é capaz de compreender a importância e defender intransigentemente a desnecessária mudança do nome da área de Biblioteconomia para Ciência da Informação e até da mudança da denominação profissional, mas é incapaz de fundamentar o valor social e as razões pela quais se distinguem as bibliotecas públicas, as bibliotecas comunitárias, as bibliotecas especiais, as bibliotecas escolares, etc. 

CONCLUSÃO

Para concluir, devemos fazer algumas perguntas que tocam, sobretudo, as escolas/ cursos de biblioteconomia:

1) será que este modelo Deweyano não precisa ser discutido ou melhor discutido pelos professores de Biblioteconomia brasileiros?

2) Será que devemos ser sempre vassalos desta determinação externa?

3) O que podemos dizer para os nossos alunos que represente uma verdadeira tomada de consciência sobre a construção de uma sociedade soberana?

4) Que se pode afirmar sobre a possibilidade de competição internacional, quando de forma geral só copiamos -- mal copiamos --, só reproduzimos -- mal reproduzimos?

5) Em que medida somos nós mesmos cidadãos, produtores de cidadãos porque despertamos cidadãos com o nosso trabalho?

São questões, questões que nos colocam diante de nossos alunos nos cursos de graduação em biblioteconomia. São questões que podem nos mobilizar visando a produção do mundo, a partir do entendimento de como produzir o mundo!


Disponibilizado na WWW em 14/04/1997.

Bibli: R. Eletr. Bibliotecon. Ci. Inf., ISSN 1518-2924, Florianópolis, Brasil




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