Entre a subversão e a dependência: o pós-estético na crítica literária
DOI:
https://doi.org/10.5007/2175-7917.2026.e103980Palavras-chave:
Afrânio Coutinho, crítica literária brasileira, estudos culturais, theoryResumo
A crítica literária brasileira passou por significativas transformações desde sua formação, especialmente com a influência de Afrânio Coutinho, que buscou instituir uma abordagem autônoma relativa, sistemática e científica da literatura. Sua perspectiva, centrada na análise imanente da linguagem e na valorização da estética literária, encontra desafios com a consolidação dos estudos culturais, que enfatizam a contextualização sociocultural, histórica e política das obras literárias, afastando-se dos princípios estéticos. Essa mudança teórica e metodológica gerou tensões entre a preservação da literatura como arte autônoma e a sua leitura enquanto prática cultural inserida em sistemas de poder que, supostamente, devem promover certa reparação histórica ao visibilizar novas vozes, relegando a segundo plano a estética e o rigor científico, ao menos aquele proposto por Coutinho. Isso porque, de um lado, a ideia de ciência para Coutinho está intimamente ligada às correntes imanentistas, isto é, formalismo eslavo, estruturalismo e estilística. Do outro lado, os Estudos Culturais, a quem chamo de pós-estéticos, reivindicam seu próprio rigor científico, que está fortemente conectado à sociologia e à antropologia. Este artigo explora essa transição, destacando a relevância do pensamento de Coutinho e as novas demandas dos estudos literários, que incluem interdisciplinaridade e engajamento com temáticas contemporâneas. Apesar de resistências à adoção de abordagens mais amplas, a crítica literária brasileira tem buscado equilibrar rigor analítico e abertura epistemológica, promovendo reflexões que dialogam tanto com a tradição quanto com a inovação.
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