Impressões e arquivos: notas sobre-vida, literatura e vida literária em Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-7917.2022.e81458

Palavras-chave:

Militância, Movimento Social, Engajamento.

Resumo

Neste ensaio, propomos uma crítica sobre arquivos literários, refletindo, sobretudo o arquivo da Carolina Maria de Jesus. Nossa motivação primeira advém da leitura de Quarto de despejo (1960), da autora; livro que é sua estreia na literatura e contemplou seus cadernos de memórias, edição que teve, numa recepção de primeira hora, foco documental nos aspectos do ambiente social no qual ela vivia e sobre o qual ela registrara suas memórias. Passado esse interesse sobre os lugares periféricos, relacionando também a uma dita tradição literária brasileira que não recebe bem a escrita diarística que não a de um sujeito mesmo, a autora não conseguira, em vida, um lugar estável e de reconhecimento pela qualidade de sua escrita, na profissão de escritora. Cogitamos refletir sobre o arquivo da escritora, pensando o trânsito performático rumo às instituições custodiadoras, estas que são, sobretudo, de conservação de arquivos de escritores da tradição; deslocamento do texto literário dela, lido antes como documental, para os documentos de acervo, que são literatura em potência de ser editada e/ou reeditada, portanto, recebida e possivelmente repensada em outras críticas. Observamos o caminho desde o arquivo que é “cérebro do poeta”, às suas “impressões” literárias, a que o livro aqui analisado é bastante representativo, reforçadas as impressões sobre a vida, a literatura, a vida literária e a “sobrevida”, esta em senso derridiano, ao que conectaremos à perspectiva de “escrevivência de nós”, ato/termo elaborado pela escritora crítica Conceição Evaristo. Para este ensaio, convocamos, além dela, Foucault, Derrida, Bhabha, sem os quais não poderíamos questionar as formas e os conteúdos dos arquivos da colonialidade, estes também contribuidores para a formação da ideia de nação, a qual está representada nos arquivos da nação, seja pela presença do gênio, do herói, seja pela ausência do que é posto como popular, como antagonista, como marginal.

Biografia do Autor

Gustavo Tanus, Universidade Federal de Minas Gerais

Doutorando em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Mestre em Estudos Literários/Teoria da Literatura e Literatura Comparada, pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, tendo sido bolsista CAPES e atuado no Programa de Incentivo à Formação Docente na Formação Intercultural para Educadores Indígenas, FIEI / Faculdade de Educação da UFMG. Bacharel em Letras/Português; bacharel em Letras/Ênfase em Edição e licenciado em Letras/Português pela UFMG. Pesquisador do NEIA - Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade, participando como colaborador do site literafro, Portal da Literatura Afro-brasileira (disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/), integrante da Comissão Editorial desse portal. Cofundador e pesquisador do Moviola, Grupo de pesquisas intersemióticas/intermídias: travessias entre Cinema, Literatura e outras áreas. Tem interesse em: Literatura Afro-brasileira, Literatura e Arquivo, Literatura Indígena; Literatura Infantil; Literatura Juvenil; Literatura Contemporânea; Literatura e Ditadura; Literatura e Cinema; Letramento literário; Ensino de Literatura

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Publicado

2022-02-15

Como Citar

TANUS, G. Impressões e arquivos: notas sobre-vida, literatura e vida literária em Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. Anuário de Literatura, [S. l.], v. 27, p. 01-19, 2022. DOI: 10.5007/2175-7917.2022.e81458. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/81458. Acesso em: 9 ago. 2022.

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Artigos