Entre experimentos, controvérsias e invisibilidades: a constituição do transplante de órgãos como prática terapêutica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-8034.2021.e77278

Resumo

Este artigo visa compreender o processo de constituição do transplante de órgãos como uma prática terapêutica. Partindo dos debates do campo da Antropologia da Ciência e da Técnica, destacamos alguns elementos que teriam sido fundamentais para o desenrolar deste processo, a saber: a técnica que permite ligar cirurgicamente vasos sanguíneos; os recursos farmacológicos que auxiliam no combate à rejeição do órgão transplantado e os debates acerca do conceito de morte cerebral. Estes elementos, quando agregados, culminaram na construção desta “descoberta” e permitiram a validação desta técnica. Este processo permite compreender o modo de construção de “verdades” de uma disciplina que se pretende universal e objetiva como a medicina. Por fim, argumento que esses elementos continuam agenciando o transplante e produzindo efeitos na vida das pessoas.

Biografia do Autor

Vitor Jasper, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia.

Doutorando em Antropologia Cultural pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ e mestre pela mesma instituição. Membro do Laboratório de Etnografias e Interfaces do Conhecimento (LEIC/UFRJ) e do Grupo de Pesquisa em Sociologia da Saúde (UFPR).

Referências

ABTO – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE TRANSPLANTES DE ÓRGÃOS. Dimensionamento dos Transplantes no Brasil e em cada estado (2012-2019). Registro Brasileiro de Transplantes, [s.l.], ano XXV, n. 4, 2019.

AD HOC COMMITTEE OF THE HARVARD SCHOOL. A definition of irreversible coma: report of the Ad Hoc Committee of the Harvard School to examine the definition of brain death. Journal of the American Medical Association, [s.l.], v. 204, n. 6, 1968.

BRADLEY, John Andrew; HAMILTON, David. Organ Transplantation: an Historical Perspective. In: HAKIM, Nadel; DANOVITCH, Gabriel (org.). Transplantation Surgery. London: Springer, 2001.

CAMARGO JR., Kenneth Rochel de. A Biomedicina. PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 15, (Suplemento), p. 177-201, 2005.

CARREL, Alexis. The Transplantation of Organs: A Preliminary Communication. Yale Journal of Biology and Medicine, [s.l.], v. 74, n. 4, p. 239-241, [1995] 2001.

CATÃO, Marconi do Ó. A Moderna Tecnologia Médica dos Transplantes e o Ordenamento Jurídico Brasileiro. Revista Datavenia, [s.l.], v. 1, p. 225-241, 2010.

COELHO, Juliano Cé; RIBAR, Julia; SAITOVITCH, David. Transplante renal: do imaginário à sua real aplicação médica. In: GUILHERMANO, Luiz Gustavo et al. (org.). Páginas da História da Medicina. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010. p. 123-131.

EGEA-GUERRERO, Juan Jose; REVUELTO-REY, Jaume; GORDILLO-ESCOBAR, Elena. Muerte cerebral no es un término sinónimo de muerte encefálica. Neurología, [s.l.], v. 27, n. 6,

p. 377-378, 2012.

FLECK, Ludwik. Gênese e Desenvolvimento de um Fato Científico. Belo Horizonte: Fabrefactum. 2010.

GARCIA, Clotilde Druck et al. Manual de Doação e Transplantes. Rio de Janeiro: Elsevier. 2013a.

GARCIA, Clotilde Druck et al. Terapia Imunossupressora para Transplante de Órgãos.

In: GARCIA, Clotilde Druck et al. (Org.). Manual de Doação e Transplantes. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013b. p. 149-161.

GARCIA, Valter Duro et al. Situação dos Transplantes no Brasil. In: GARCIA, Clotilde Druck et al. (Org.). Doação e Transplante de Órgãos e Tecidos. São Paulo: Segmento Farma, 2015. p. 43-60.

GARRAFA, Volnei. Introdução à Bioética – An Introduction to bioethics. Revista do Hospital Universitário UFMA, São Luís, v. 6, n. 2, p. 9-13, 2005.

HUME, David Milford et al. Experiences with Renal Homotransplantation in the Human: report of nine cases. The Journal of Clinical Investigation, [s.l.], v. 34, n. 2, p. 327-382, 1955.

JASPER, Vitor. Como pode um fígado fazer tudo isso? Estudo antropológico em

um serviço de transplante hepático. 2016. 196f. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Antropologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.

KALLÁS, Ibrahim Elias; KALLÁS, Alexandre Carvalho; KALLÁS, Elias. Anastomoses arteriais: passado, presente e futuro. Acta Cirúrgica Brasileira, São Paulo, v. 14, n. 4, 1999.

KIUCHI, Tetsuya; TANAKA, Koichi. Liver Transplantation from Living Donors: Current Status in Japan and Safety/Long-Term Results in the Donor. Transplantation Procedings., [s.l.],

v. 35, n. 3, p. 1.172-1.173, 2003.

LATOUR, Bruno. Ciência em Ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora.

São Paulo: Editora UNESP, 2000.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.

LATOUR, Bruno. How to Talk about the Body? The Normative Dimension of Science Studies. Body and Society, [s.l.], v. 10, n. 2-3, p. 205-229, 2004.

LAZZARETTI, Claire Terezinha. O Doador Vivo no Transplante Hepático: a Dádiva na Contemporaneidade. 2008. 240f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Setor de Ciências Humanas. Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2008.

LE BRETON, David. A Sociologia do Corpo. Petrópolis: Editora Vozes, 2006.

LE BRETON, David. Antropologia do Corpo e Modernidade. Petrópolis: Editora Vozes,

LOCK, Margaret. On dying twice: culture, technology and the determination of death. In: LOCK, Margaret; YOUNG, Alan; CAMBROSIO, Alberto (org.). Living and Working with the New Medical Technologies: Intersections of Inquiry. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

LOCK, Margaret. Twice Dead: Organ Transplants and the Reinvention of Death. Berkeley e Los Angeles: University of California Press, 2002.

MACEDO, Juliana Lopes de. A subversão da morte: um estudo antropológico sobre

as concepções de morte encefálica entre médicos. 2008. 173f. Dissertação (Mestrado em Antropologia) Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008.

MACHADO, Adriana Gonçalves da Silva. Impacto da implantação do escore MELD na alocação de fígados e nos resultados dos transplantes hepáticos: a experiência de um centro brasileiro. 2011. 82f. Dissertação (Mestrado em Medicina) – Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Porto Alegre, 2011.

MATEVOSSIAN, Edouard et al. Surgeon Yurii Voronoy (1895-1961) – a pioneer in the history of clinical transplantation: in Memoriam at the 75th Anniversary of the First Human Kidney Transplantation. Transplant International, [s.l.], v. 22, p. 1.132-1.139, 2009.

MCGEOWN, Mary Graham. Transplantation. The Ulster Medical Journal, [s.l.], v. 56, p. 79-86, 1987.

MIES, Sergio. Transplante de Fígado. Revista da Associação Médica Brasileira, [s.l.], v. 44, n. 2, p. 127-134, 1998.

MOL, Annemarie. The body multiple: ontology in medical practice. Durham and London: Duke University Press, 2002.

MORDANT, Pierre. La transplantation d’organe – Petite histoire d’une grande aventure. Info Respiration, [s.l.], n. 82, p. 27-31, 2007.

MURA, Fabio. De sujeitos e objetos: um ensaio crítico de Antropologia da Técnica e da Tecnologia. Horizontes Antropológicos, UFRGS, Impresso, v. 36, p. 95-125, 2011.

MURRAY, Joseph; MERRILL, John P.; HARRISON, J. Hartwell. Renal homotransplantation in identical twins. Journal of the American Society of Nephrology, [s.l.], v. 12, n. 1, p. 201-204, [1955] 2001.

MURRAY, Joseph et al. Prolonged Survival of Human-Kidneys Homografts by Immunosuppressive Drug Therapy. The New England Journal of Medicine, [s.l.], v. 268, n. 24, p. 1.315-1.323, 1963.

NAGY, Judit. A Note on the Early History of Renal Transplantation: Emerich (Imre) Ullmann. American Journal of Nephrology, [s.l.], v. 19, n. 2, p. 346-349, 1999.

PARRILLA, Pascual; RAMÍREZ, Pablo; RÍOS, Antonio. Perspectiva Histórica de los Trasplantes. In: PARRILLA, Pascual; RAMÍREZ, Pablo; RÍOS, Antonio (org.). Manual sobre Donación y Trasplante de Órganos. 1. ed. Madrid: Arán Ediciones, 2008. p. 35-42.

PUERTA, Carlos Vaquero. Contribución Histórica de Alexis Carrel a la Cirugía Experimental. Real Academia de Medicina y Cirugía de Valladolid, Valladolid, 2006.

QUIRKE, Viviane; GAUDILLIÈRE, Jean-Paul. The era of biomedicine: science, medicine, and public health in Britain and France after the Second World War. Medical History, [s.l.], v. 52, p. 441-452, 2008.

REGGIANI, Andres Horacio. Alexis Carrel the Unknown: Eugenics and Population Research under Vichy. French Historical Studies, [s.l.], v. 25, n. 2, p. 331-356, 2002.

SADE, Robert M. Transplantation at 100 Years: Alexis Carrel, Pioneer Surgeon. Ann Thorac Surg, [s.l.], v. 80, p. 2.415-2.418, 2005.

SILVA, Paulo Rodrigues da. Transplante cardíaco e cardiopulmonar: 100 anos de história e 40 de existência. Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, [s.l.], v. 23, n. 1, p. 145-152, 2008.

STARZL, Thomas Earl. Personal Reflections in Transplantation. Surgical Clinics of North America, [s.l.], v. 58, n. 5, p. 879-893, 1978.

STARZL, Thomas Earl. Peter Brian Medawar: father of transplantation. Journal of the American College of Surgeons, [s.l.], v. 180, n.3, p. 332-336, 1995.

STEFONI, Sergio et al. The History of Clinical Renal Transplant. J Nephrol, [s.l.], v. 17, p. 475-478, 2004.

TEIXEIRA, Marcelo Weinstein; REZENDE, Cleuza Maria de Faria. Imunossupressão e transplantes: perspectivas atuais e futuras. MEDVEP. Revista Cientifica de Medicina Veterinaria, [s.l.], n. 7, p. 12-16, 2004.

TESSER, Charles Dalcanale. A verdade na biomedicina, reações adversas e efeitos colaterais: uma reflexão introdutória. PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, [s.l.], v. 17, p. 465-484, 2007.

WINKLER, Enno. Ernst Unger: A Pioneer in Modern Surgery. Journal of the History of Medicine and Allied Sciences, [s.l.], v. 37, n. 3, p. 269-286, 1982.

Downloads

Publicado

2021-10-04

Como Citar

JASPER, Vitor. Entre experimentos, controvérsias e invisibilidades: a constituição do transplante de órgãos como prática terapêutica. Ilha Revista de Antropologia, Florianópolis, v. 23, n. 3, 2021. DOI: 10.5007/2175-8034.2021.e77278. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ilha/article/view/77278. Acesso em: 22 maio. 2024.

Edição

Seção

Artigos