Misturas e cortes entre drogas, medicamentos e corpos na feitura “EU”

Autores

  • Wander Wilson PROAD -UNIFESP

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-8034.2023.e85668

Palavras-chave:

Escolha, Responsabilidade, Drogas, Eu, Neoliberalismo

Resumo

Durante minha pesquisa de doutorado, realizei etnografia em dois ambulato?rios, vinculados a universidades da cidade de Sa?o Paulo, voltados para o atendimento a? depende?ncia de drogas. Nesses espac?os, foi comum encontrar alguns discursos que apontavam para um Eu unita?rio do ponto de vista de profissionais da sau?de. R., que frequentava um dos ambulato?rios para cuidar de sua depende?ncia de a?lcool, dizia que quando parava de beber ele na?o era ele mesmo, era outra pessoa, existia uma mutac?a?o do Eu pela variac?a?o relacional das misturas entre corpos. A partir desse primeiro problema, o artigo tenta trac?ar um percurso conectando as formas de distribuic?a?o da “unidade do eu”, pensando uma perspectiva relacional entre pra?ticas, discursos, medicamentos, drogas, manuais, pesquisas, poli?tica. Reflete-se sobre a separac?a?o entre drogas e medicamentos nesta produc?a?o, assim como cortes, separac?o?es e distribuic?a?o de escolhas e responsabilidades em um entrelac?amento com a histo?ria entendida como evoluc?a?o linear da espe?cie.

Biografia do Autor

Wander Wilson, PROAD -UNIFESP

Doutor em Ciências Sociais (área de concentração em Antropologia) pela PUC-SP. Trabalha como acolhedor e redutor de danos no Programa de Orientação e Atendimento ao Dependente (PROAD – UNIFESP), onde também atua na formação de estagiários e ministra semestralmente o curso livre Antropologia Histórica das Drogas.

Referências

AMARANTE, Paulo. Loucos pela vida. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1998. AMARANTE, Paulo. O homem e a serpente. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2008.

AMY. Direção: Asif Kapadia. Produção de James Gay-Rees, George Pank e Paul Bell. Inglaterra: Universal Music, 2015.

APA – AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.

AZIZE, Rogério. A nova ordem cerebral. 2010. 297p. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.

BATESON, Gregory. Toward a Theory of Scizophrenia. Behavioral Science, [s.l.], v. 1, n. 4, p. 251-254, 1956.

BECKER, Gary. A Treatise on the Family. Cambridge, Massachussets: Harvard University Press, 1991.

BIEHL, João. Antropologia do devir: psicofármacos – abandono social – desejo. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 51, n. 2, p. 413-449, 2008.

BONET, Octavio. Itinerações e malhas para pensar os itinerários de cuidado. A propósito de Tim Ingold. Revista Sociologia & Antropologia, [s.l.], v. 4, n. 2, p. 327-350, 2014.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

CANONICO DE SOUZA, Leticia; CARACHO, Matheus; SANTOS, Maria de Paula dos. Tempo e Subjetivação em Comunidades Terapêuticas. In: SANTOS, Maria de Paula dos (org.). Comunidades Terapêuticas: temas para reflexão. Rio de Janeiro: IPEA, 2018. p. 61-76.

CASTEL, Robert. Gestão dos riscos: da antipsiquiatria a pós-psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

CASTRO, Rosana. Economias políticas da doença e da saúde: população, raça e letalidade na experimentação farmacêutica. Ayé: Revista de Antropologia, Ceará, v. 1, n. 1, p. 1-26, 2019.

CHRISTIE, Nils. Elementos para uma geografia penal. Revista de Sociologia e Política, [s.l.], n. 13, p. 51-57, 1999.

COIMBRA, Cecília. Guardiães da ordem: uma viagem pelas práticas psi no Brasil do “milagre”. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1995.

COOPER, David. Dialética de la Liberación. Aramburu: Cuernavaca, 1970. COOPER, David. Psiquiatria y antipsiquiatria. Barcelona: Paidós, 1985.

COSTA, Jurandir Freire. História da psiquiatria no Brasil: um corte ideológico. Rio de Janeiro: Editora Documentário, 1976.

DA MATA, João. SOMA – uma terapia anarquista. Rio de Janeiro: Achiamé, 2009. DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. São Paulo: Boitempo, 2016. DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Valência: Pré-Textos, 1980.

DON L. Camisa 10 (part. Cacife Clandestino e Don L). Composição: Diomedes Chinaski/ Don L./Felp22. Release em junho de 2018. Disponível em: https://genius.com/Diomedes- chinaski-camisa-10-lyrics. Acesso em: 23 nov. 2022.

DUMONT, Louis. O individualismo – uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

FARIA, Lina; OLIVEIRA-LIMA, José Antônio de, ALMEIDA-FILHO, Naomar. Medicina baseada em evidências: breve aporte histórico sobre marcos conceituais e objetivos práticos do cuidado. Revista História, Ciência, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 28, n. 1, p. 59-78, 2021.

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2007. v. 1.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008a.

FOUCAULT, Michel. Segurança, território e população. São Paulo: Martins Fontes, 2008b.

FOUCAULT, Michel. Os Anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

FOUCAULT, Michel. O poder psiquiátrico. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

FRANCO, Fábio Luís. Fazer precarizar: neoliberalismo autoritário e necrogovernamentalidade. Caderno CRH, Salvador, v. 34, p. 1-15, 2021.

FRANCO, Fábio et al. O sujeito e a ordem do mercado: gênese do mercado. In: SAFATLE, Vladimir; DUNKER, Christian. Neoliberalismo como Gestão do Sofrimento Psíquico. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 47-76.

HAMANN, Trent. Neoliberalismo, governamentalidade e ética. Revista Ecopolítica, São Paulo, n. 3, p. 100-133, 2012.

IPEA – INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Nota Técnica – Perfil das Comunidades Terapêuticas. Rio de Janeiro: Ipea, 2017.

KARAM, Maria Lúcia de. Pela abolição do sistema penal. In: PASSETTI, Edson (org.). Curso Livre de Abolicionismo Penal. Rio de Janeiro: Revan, 2004. p. 69-107.

LAZZARATO, Mauricio. O governo do homem endividado. São Paulo: n-1 Edições, 2017. LEWIS, Abram J. “Wer are certain of our own insanity”: antipsychiatry and gay liberation movement. Journal of History of Sexuality, [s.l.], v. 25, n. 1, p. 83-113, 2016.

LIMA BARRETO, A. H. Diário do Hospício: o cemitério dos vivos. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

LOECK, Jardel Ficher. A dependência química e seus cuidados: antropologia de políticas públicas e de experiências de indivíduos em situação terapêutica na cidade de Porto Alegre, RS. 2014. 285p. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2014.

MALUF, Sônia Weidner. Por uma antropologia do sujeito: da Pessoa aos modos de subjetivação. Revista Campos, [s.l.], v. 14, n. 1, p. 131-158, 2013.

MARRAS, Stelio. Do natural ao social: as substâncias em meio estável. In: LABATE, Beatriz et al. Drogas e Cultura: novas perspectivas. Salvador: EDUFBA, 2008.

MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003. MBEMBE, Achille. Políticas da Inimizade. São Paulo: n-1 Edições, 2021.

MCKINON, Susan. Genética neoliberal – uma crítica antropológica da psicologia evolucionista. São Paulo: UBU, 2021.

MOL, Annemarie. The logic of care: health and problem of patient choice. Inglaterra: Taylor & Francis, 2008.

MORAES, Alana. Experimentações Baldias e Paixões de Retomada: vida e luta na cidade acampamento. 2020. 440p. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020.

PERLONGHER, Nestor. Antropologia das sociedades complexas: identidade e territorialidade, ou, como estava vestida Margaret Mead. Transcrição de palestra de 1984. IFCH Unicamp. 1984. Disponível em: http://www.anpocs.com/images/stories/RBCS/22/ rbcs22_08.pdf. Acesso em: 3 out. 2022.

PERLONGHER, Nestor. Territórios Marginais – Papéis avulsos. Rio de Janeiro: Ciec UFRJ, 1989.

PETUCO, Dênis. Pomo da discórdia: a constituição de um campo de lutas em torno das políticas públicas e das técnicas de cuidado em saúde dirigidas a pessoas que usam álcool e outras drogas no Brasil. 2016. 460p. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2016.

PIGNARRE, Philippe. O que é o medicamento? Um objeto estranho entre ciência, mercado e sociedade. São Paulo: Editora 34, 1999.

POLICARPO, Frederico. Local onde os múltiplos discursos sobre drogas se encontram: fazendo pesquisa num centro de atenção psicossocial de álcool e outras drogas (CAPS/AD). In: LABATE, Beatriz et al. (org.). Drogas, Políticas Públicas e Consumidores. Campinas: Mercado de Letras, 2016. p. 287-314.

POVINELLI, Elizabeth. A. The child in the broom closet: states of killing and letting die. South Atlantic Quarterly, [s.l.], v. 107, n. 3, p. 509-530, 2008.

RODRIGUES, Thiago. Política e drogas nas Américas. São Paulo: EDUC, 2004.

ROSA, Pablo. Drogas e Biopolítica: uma genealogia da redução de danos. 2012. 373p. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2012. RUSSEL, Gerald. Obituary. Psychiatric Bulletin, Cambridge, v. 20, p. 632-637, 1996.

RUSSO, Jane; HENING, Marta. O sujeito da “psiquiatria biológica” e a concepção moderna de pessoa. Revista Antropolítica, Niterói, v. 1, n. 6, p. 39-55, 1999.

RUSSO, Jane; VENÂNCIO, Ana Teresa. Classificando as pessoas e suas perturbações. Revista Latino-Americana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 9, n. 3, p. 460-483, 2006.

SAFATLE, Vladimir. A economia é a continuação da psicologia por outros meios: sofrimento psíquico e o neoliberalismo como economia moral. In: SAFATLE, Vladimir; DUNKER, Christian. Neoliberalismo como Gestão do Sofrimento Psíquico. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 17-46.

SCHULTZ, Theodore. O Capital Humano: investimentos em educação e pesquisa. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

SHAPIN, Steven. Scientific Revolution. Chicago: University of Chicago Press, 1998. STRATHERN, Marilyn. O efeito etnográfico. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

TARELOW, Gustavo Querodia. Antonio Carlos Pacheco e Silva: psiquiatria e política em uma trajetória singular (1898-1988). 2018. 383p. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.

VARGAS, Eduardo Viana. Entre a extensão e a intensidade: corporalidade, subjetivação e uso de “drogas”. 2001. 623p. Tese (Doutorado em Sociologia E Política) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2001.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas Canibais. São Paulo: Cosac Naify; n-1 Edições, 2015.

WILKE; Helena; AUGUSTO, Acacio. Racionalidade neoliberal e governança: embates entre democracia securitária e anarquia. In: RAGO, Margareth; PELEGRINI, Maurício (org.). Neoliberalismo, Feminismos e Contracondutas – perspectivas foucaultianas. São Paulo: Intermeios, 2019. p. 225-245.

WILSON, Wander. a repetição da construção da interioridade do sujeito em ambulatórios didáticos: uma etnografia por meio da circulação entre hábitos, adicções, dependências e prazeres com drogas e/ou substâncias. 2019. 303p. Tese (Doutorado em Ciências Sociais com área de concentração em Antropologia) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2019.

Downloads

Publicado

2023-01-19

Como Citar

WILSON, Wander. Misturas e cortes entre drogas, medicamentos e corpos na feitura “EU”. Ilha Revista de Antropologia, Florianópolis, v. 25, n. 1, p. 134–158, 2023. DOI: 10.5007/2175-8034.2023.e85668. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ilha/article/view/85668. Acesso em: 1 mar. 2024.

Edição

Seção

Antropologias a partir dos medicamentos: co-produções, políticas e agenciamentos