A poética da vulnerabilidade: dissabores, dores e horrores reescritos em versos na poesia de Waldo Motta, Thomas Grimes e Don Charles
DOI:
https://doi.org/10.5007/2175-7917.2026.e105519Palavras-chave:
autoimagem, poesia contemporânea, resiliência, vulnerabilidadeResumo
Neste artigo, proponho-me a elucidar a temática da vulnerabilidade e sua intrínseca relação com a construção da autoimagem, por meio de uma análise de três poemas contemporâneos: “Balanço de mim”, de Waldo Motta; “Fraternal twins” [Gêmeos fraternos], de Thomas Grimes; e “Kaleidoscope” [Caleidoscópio], de Don Charles. Para tanto, procedo a uma análise comparativa que privilegia a investigação das experiências emocionais e sociais manifestas pelos eus líricos, permitindo um mergulho nas complexidades da condição humana. As análises revelam que “Balanço de mim” encapsula a angustiante insatisfação do eu lírico frente às imposições e expectativas familiares, oferecendo um retrato da luta interna entre o desejo de conformidade e a busca por autenticidade. Em contrapartida, “Gêmeos fraternos” descortina os impactos das comparações sociais e das críticas externas na formação da autoimagem, enfatizando a relevância do amor e da intimidade como baluartes de proteção e refúgio em um mundo que frequentemente marginaliza a individualidade. No que tange a “Caleidoscópio”, a vulnerabilidade é retratada como um mosaico de identidades que revelam as dolorosas experiências de rejeição, tanto oriundas do olhar crítico dos progenitores quanto de uma autopercepção distorcida e alienante. Embora permeados por experiências de dor e exclusão, os poemas também evidenciam um potencial de resiliência e deslocamento, permitindo a construção de uma autoimagem que aspire à positividade e à autenticidade. Nesse sentido, tanto exploram a vulnerabilidade como dimensão essencial da subjetividade, como a inscrevem na experiência racializada de homens negros, cujas masculinidades são historicamente marcadas por estereótipos de força e resistência. Em virtude disso, esta pesquisa não apenas enriquece o diálogo sobre a complexidade das experiências humanas mas posiciona, igualmente, a poesia como veículo potente de expressão e reflexão sobre a vulnerabilidade e a incessante busca por reconhecimento. Almejo, assim, contribuir para um entendimento mais profundo da condição humana contemporânea.
Referências
BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do ‘sexo’. In: LOURO, Guacira Louro (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Trad de Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 151-172.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 10. ed. Trad. de R. Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 4. ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre Azul, 2004, p. 169-191.
CHARLES, Don. Rings on gloved fingers. In: WILSON, Arthur T. et al. Here to dare: 10 gay Black poets. New York: Galien Press, 1992, p. 129-142
DALCASTAGNÈ, Regina. A auto-representação de grupos marginalizados: tensões e estratégias no narrativo contemporâneo. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 42, n. 4, p 18-31, 2007.
DALCASTAGNÈ, Regina. Um território contestado: literatura brasileira contemporânea e as novas vozes sociais. Revista Iberic@l, Paris, n. 2, p.13-18, mar. 2012. Disponível em: http://iberical.paris-sorbonne.fr/wp-content/uploads/2012/03/002-02.pdf. Acesso em: 15 set. 2020.
EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe um dos lugares de nascimento da minha escrita. In:
ALEXANDRE, Marcos Antônio (org.). Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 16-21.
EVARISTO, Conceição. Gênero e etnia: uma escre(vivência) de dupla face. In: MOREIRA, Nadilza Martins de Barros;
SCHNEIDER, Liane (org.). Mulheres no mundo. Etnia, marginalidade e diáspora. João Pessoa: Ed. Universitária; Ideia, 2005. p. 201-212.
FIGUEIREDO, Eurídice. Por uma crítica feminista: leituras transversais de escritoras brasileiras. Porto Alegre: ZOUK, 2020.
GRIMES, Thomas. Reclamations. Cambridge: Parfait de Cocoa, 1994.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. de Tomaz Tadeu da Silva. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
HALL, Stuart. Quem precisa da identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 2. ed. Trad. de Tomaz Tadeu da Silva. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 103-133.
HOOKS, Bell. Olhares negros: raça e representação. Trad. de Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2019.
HOOKS, Bell Yearning: race, gender, and cultural politics. New York: Routledge, 2015.
MOTTA, Valdo. Eis o homem. Vitória: Ed. da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1987.
RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. 2. ed. Trad. de Tomaz Tadeu da Silva. Petrópolis: Vozes, 2003. p.7-72.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Fernando Luis de Morais

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Esta revista proporciona acesso público a todo seu conteúdo, seguindo o princípio de que tornar gratuito o acesso a pesquisas gera um maior intercâmbio global de conhecimento. Tal acesso está associado a um crescimento da leitura e citação do trabalho de um autor. Para maiores informações sobre esta abordagem, visite Public Knowledge Project, projeto que desenvolveu este sistema para melhorar a qualidade acadêmica e pública da pesquisa, distribuindo o OJS assim como outros software de apoio ao sistema de publicação de acesso público a fontes acadêmicas. Os nomes e endereços de e-mail neste site serão usados exclusivamente para os propósitos da revista, não estando disponíveis para outros fins. 
Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.