Escapar do “negro manto da noite”: Amos Tutuola e Mário de Andrade

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-7917.2026.e111982

Palavras-chave:

necropolítica, hantologia, não-razão

Resumo

Este artigo analisa como Macunaíma, de Mário de Andrade, e os dois primeiros romances de Amos Tutuola podem ser lidos como um confrontamento à construção hegeliana do sujeito universal e sua exclusão dos povos colonizados. Partindo da crítica de Achille Mbembe à necropolítica, buscamos mostrar que africanos e ameríndios foram historicamente relegados à condição de “não-vivos”, espectros fora da História. Andrade e Tutuola respondem a esse apagamento através de narrativas que desestabilizam a lógica racionalista ocidental, privilegiando desrazão, metamorfose e espectralidade. Em ambas as obras, a jornada heroica é subvertida: não há reconciliação nem triunfo, mas estados liminares entre vida e morte que expõem a violência colonial. O fantástico, longe de alegoria escapista, funciona como regime ontológico alternativo. A leitura aproxima essas narrativas da hantologia derridiana, argumentando que elas reivindicam a presença ética dos espectros – vítimas do colonialismo e da escravidão – como condição para qualquer noção de justiça. Assim, Andrade e Tutuola elaboram poéticas que escapam ao “negro manto da noite” hegeliano, propondo modos de existência que recusam a universalidade excludente da modernidade.

Biografia do Autor

Matheus Reiser Muller, Universidade Federal de Santa Catarina

Graduado em Letras – Português pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atualmente, é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Literatura da UFSC (PPGLit). Sua atuação concentra-se na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, especialmente em questões relacionadas à autoficção e à performance.

Jorge Wolff, Universidade Federal de Santa Catarina

É tradutor e professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor de Telquelismos latino-americanos. A teoria crítica francesa no entre-lugar dos trópicos (Buenos Aires: Grumo, 2009; Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, 2016) e de daltontrevisan.com. Ensainhos a partir da vida-obra de Dalton Trevisan (Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, 2025), entre outras publicações.

Referências

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Publicado

30.09.2026

Como Citar

MULLER, Matheus Reiser; WOLFF, Jorge. Escapar do “negro manto da noite”: Amos Tutuola e Mário de Andrade. Anuário de Literatura, [S. l.], v. 31, p. 01–11, 2026. DOI: 10.5007/2175-7917.2026.e111982. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/111982. Acesso em: 3 out. 2026.

Edição

Seção

Dossiê “A malungagem e o brutalismo: outros modos da margem na literatura e na cultura brasileiras”