Psicologia no Sistema Único de Saúde de Porto Alegre: organização do trabalho em contextos de precarização

Conteúdo do artigo principal

Martina Peres Couto
Angelo Brandelli Costa
https://orcid.org/0000-0002-0742-8152

Resumo

Diante dos desafios da Psicologia em se adaptar às novas estratégias de cuidado em saúde, necessárias para a atuação em políticas públicas, e da crescente precarização do Sistema Único de Saúde (SUS), essa pesquisa buscou analisar as percepções de profissionais que estão inseridos nesse contexto de trabalho. Com foco na saúde do trabalhador, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com cinco psicólogos(as) que atuam em diferentes serviços da rede de atenção primária e secundária de saúde do município de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Utilizou-se a análise de qualitativa de Minayo para a interpretação do material, realizada com fundamentação na Teoria Psicodinâmica de Dejours. Para este artigo, três temas se destacaram: Organização e condições de trabalho; Estratégias de cuidado em saúde; e Sofrimento no trabalho. A análise dos relatos demonstra uma grande disparidade entre o modelo de trabalho preconizado pelas políticas públicas de saúde e o real do trabalho. Questões como desarticulação da rede e sobrecarga de tarefas apontam para organização do trabalho geradora de sofrimento. A falta de suporte institucional previsto nas políticas e as deficiências na formação em Psicologia contribuem para a resistência da categoria em superar o modelo clínico-privatista. As ações individuais e a enorme demanda para atendimentos ocupam o cotidiano dos serviços afastando os psicólogos dos espaços de organização do trabalho. Tal atuação dificulta o posicionamento político da categoria, necessário para reinventar as suas práticas e (re)agir em um contexto de desmonte da saúde pública.

Detalhes do artigo

Como Citar
PERES COUTO, Martina; BRANDELLI COSTA, Angelo. Psicologia no Sistema Único de Saúde de Porto Alegre:: organização do trabalho em contextos de precarização. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental/Brazilian Journal of Mental Health, [S. l.], v. 15, n. 44, p. 90–111, 2023. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/view/77672. Acesso em: 21 jun. 2024.
Seção
Artigos originais

Referências

AFFONSO, Pedro Henrique Bedin; BERNARDO, Márcia Hespanhol. A vivência de profissionais do acolhimento em unidades básicas de saúde: uma acolhida desamparada. Trab. educ. Saúde, Rio de Janeiro, v. 13, supl. 1, p. 23-43, 2015. doi: https://dx.doi.org/10.1590/1981-7746-sip00041

AMARANTE, Paulo; NUNES, Mônica de Oliveira. A reforma psiquiátrica no SUS e a luta por uma sociedade sem manicômios. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 23, n. 6, p. 2067-2074, 2018. doi: https://doi.org/10.1590/1413-81232018236.07082018

ARAGAKI, Sergio Seiji; SPINK, Mary Jane; BERNARDES, Jefferson de Souza. La Psicología de la Salud en Brasil: transformaciones de las prácticas psicológicas en el contexto de las políticas públicas en el área de la salud. Pensamiento Psicológico, v. 10, n.2, p. 65-82, 2012. Disponível em http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1657-89612012000200007&lng=en&tlng=es

ARAÚJO, Cristiane Belo; NETO, João Leite Ferreira. Apoio matricial do NASF: uma revisão sistemática de literatura. Psicologia em Revista, v. 25, n.2, p. 626-646. 2019. Disponível em ttp://periodicos.pucminas.br/index.php/psicologiaemrevista/article/view/20198

BOING, Elisangela; CREPALDI, Maria Aparecida. O psicólogo na atenção básica: uma incursão pelas políticas públicas de saúde brasileiras. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 30, n. 3, p. 634-649, 2010. doi: https://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932010000300014

BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. 1990. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8080.htm

BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica n° 11/2019 - Esclarecimentos sobre as mudanças na Política Nacional de Saúde Mental e nas Diretrizes da Política Nacional sobre Drogas. 2019. Disponível em http://pbpd.org.br/wp-content/uploads/2019/02/0656ad6e.pdf

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Brasília, DF, 2017. Disponível em http://www.foa.unesp.br/home/pos/ppgops/portaria-n-2436.pdf

BRASIL. Portaria n° 336, de 19 de fevereiro de 2002. Ministério da Saúde. Define e estabelece diretrizes para o funcionamento dos Centros de Atenção Psicossocial. Brasília, DF, 2002. Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2002/prt0336_19_02_2002.html

BRASIL. Portaria nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011.Ministério da Saúde. Institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e dá outras providências. Brasília, DF. 2011. Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt3088_23_12_2011_rep.ht

ml

BRASIL. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Conselho Nacional de Saúde. Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Diário Oficial da União, 2012. Disponível em http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/reso466.pdf

BRASIL. Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016. Conselho Nacional de Saúde. Dispõe sobre as normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. 2016. Disponível em http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2016/Reso510.pdf

CANTELE, Juliana; ARPINI, Dorian Monica; ROSO, Adriane. A Psicologia no modelo atual de atenção em saúde mental. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 32, n. 4, p. 910-925, 2012. doi: https://doi.org/10.1590/S1414-98932012000400011

CELA, Mariana; OLIVEIRA, Isabel Fernandes de. O psicólogo no Núcleo de Apoio à saúde da Família: articulação de saberes e ações. Estud. psicol., Natal, v. 20, n. 1, p. 31-39, 2015. doi: https://dx.doi.org/10.5935/1678-4669.20150005

CFP (Conselho Federal de Psicologia). Contribuições do Conselho Federal de Psicologia para a constituição da Rede de Atenção Psicossocial no Sistema Único de Saúde a partir do Decreto 7.508/2011. Brasília-DF. 2011. Disponível em http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/03/redepsicosociaisfinal1.pdf

CRESWELL, John W. Projeto de pesquisa métodos qualitativo, quantitativo e misto. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed. 2010.

CRUZ, Nelson Falcão de Oliveira; GONCALVES, Renata Weber; DELGADO, Pedro Gabriel Godinho. Retrocesso da reforma psiquiátrica: o desmonte da política nacional de saúde mental brasileira de 2016 a 2019. Trab. educ. saúde, Rio de Janeiro, v. 18, n. 3, 2020. doi: https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00285

DAVI, Renata Souza; MONTANAR, Erich Franco, DOMINGUES, Adriana Rodrigues, ARAÚJO, Vinícius Marcos. O psicólogo nas Unidades Básicas de Saúde: relatos distantes do SUS. Actualidades en Psicología, v.30, n.120, p.71-83, 2016. doi: https://dx.doi.org/10.15517/ap.v30i120.19836

DEJOURS, Christophe. O fator humano. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas. 1997.

DEJOURS, Christophe. Subjetividade, trabalho e ação. Production, v.14, n.3, p. 27-34, 2004. doi: https://dx.doi.org/10.1590/S0103-65132004000300004

DEJOURS, Christophe; ABDOUCHELI Elisabeth; JAYET Christian; coord. BETIOL, Mª Inês Stocco. Psicodinâmica do trabalho: contribuições da escola Dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho. 1ª ed. São Paulo: Atlas. 2007.(Originalmente publicado em 1993).

DIMENSTEIN, Magda; MACEDO, João Paulo. Formação em Psicologia: requisitos para atuação na atenção primária e psicossocial. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 32, n. Spe, p. 232-245, 2012. doi: https://doi.org/10.1590/S1414-98932012000500017

HALLACK, Fernanda Sansão; SILVA, Claúdia Osório da. A reclamação nas organizações do trabalho: estratégia defensiva e evocação do sofrimento. Psicol. Soc., Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 74-79, 2005. doi: https://doi.org/10.1590/S0102-7182200500030001

KATSURAYAMA, Marilise et al. Trabalho e sofrimento psíquico na estratégia saúde da família: uma perspectiva Dejouriana. Cad. saúde colet., Rio de Janeiro, v. 21, n. 4, p. 414-419, 2013. doi: https://dx.doi.org/10.1590/S1414-462X2013000400009

MINAYO, Maria Cecília de Souza. Análise qualitativa: teoria, passos e fidedignidade. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 17, n. 3, p. 621-626, 2012. doi: https://doi.org/10.1590/S1413-81232012000300007

PAIM, Jairnilson. O que é o SUS. SciELO-Editora FIOCRUZ. Rio de Janeiro:Editora Fiocruz. 2015. Disponível em

http://www.livrosinterativoseditora.fiocruz.br/sus

PAIM, Jairnilson et al. The Brazilian health system: history, advances, and challenges. The Lancet, v. 377, n. 9779, p. 1778-1797. 2011.doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(11)60054-8

PERICO, Waldir; JUSTO, José Sterza. O mal estar no trabalho: a culpa como mal estar e a culpa do mal estar. Rev. Mal-Estar Subj., Fortaleza, v. 11, n. 1, p. 135-169, 2011. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-61482011000100006&lng=pt&tlng=pt

SILVA, Carolina Charão da; MELLO, Vania Roseli Correa de; ECKER, Daniel Dall'Igna. Análise da taxa de cobertura dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) no município de Porto Alegre de 2002 a 2015. Revista Eletrônica Científica Da UERGS, v. 5, n. 2, p. 113-127, 2019. doi: https://doi.org/10.21674/2448-0479.52.113-127

SIVINSKI, Tamires da Cunha; SCHENKEL, Júlia Monteiro. Pesquisa-Intervenção em Saúde Mental: Balançando as Redes da Saúde. Polis e Pisque, v. 8, n.1, p. 52-71, 2018. doi: https://doi.org/10.22456/2238-152X.80417

SEIDL, Helena Maria Fonseca et al. Gestão do trabalho na Atenção Básica em Saúde: uma análise a partir da perspectiva das equipes participantes do PMAQ-AB. Saúde em Debate, v. 38 (spe), p. 94-108, 2014. doi: https://doi.org/10.5935/0103-1104.2014S008