Habitus, ethos e processos de militarização das polícias ostensivas no Brasil e no Chile: comparação da polícia militar do estado de São Paulo (PMESP) e carabineros de Chile
DOI:
https://doi.org/10.5007/1806-5023.2026.e108445Palavras-chave:
militarização policial, ethos policial-militar, habitus institucional;, campo de poderResumo
O artigo analisa o militarismo nas polícias a partir de um estudo comparativo entre a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) e os Carabineros do Chile, buscando compreender seu sentido ontológico, numa perspectiva institucionalista. Nesse contexto, mais do que um legado histórico, o militarismo é entendido como um elemento constitutivo da identidade institucional dessas corporações, expresso por um habitus e um ethos policial-militar próprios, distintos dos das Forças Armadas. Fundamentado nas teorias dos campos de poder de Bourdieu, do ethos policial de Broudeur e dos campos organizacionais de Powell e DiMaggio, o estudo demonstra que a militarização configura um campo autônomo, regido por valores, normas e práticas que sustentam sua lógica interna e explicam a resistência à desmilitarização. A análise comparativa evidencia que PMESP e Carabineros mantêm a estética e o caráter militar como fundamentos simbólicos e operacionais de sua atuação, reafirmando-os inclusive no contexto democrático. O militarismo, para as polícias militarizadas, não é um resquício autoritário, mas a própria razão de ser delas, constituindo um campo específico de poder e identidade policial.
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