Dossiê Antropologias a partir dos medicamentos: Co-produções, políticas e agenciamentos contemporâneos

2021-07-12

Os medicamentos têm sido objeto privilegiado de pesquisas antropológicas desde os anos 1980 (Desclaux, 2006), com foco sobre os mais diversos períodos de sua biografia (van der Geest et. al., 1996) ou em diferentes genealogias (Vargas, 2008). Desde então, fármacos, comprimidos, cápsulas, vacinas, placebos, pomadas, emplastros, suplementos e vitaminas têm recebido crescente atenção nas etnografias. A partir dos anos 1990, é evidente o impulso de estudos etnográficos, havendo pelo menos duas tendências marcantes: o aumento de etnografias de etapas anteriores à prescrição e o privilégio para abordagens teórico-metodológicas do campo dos estudos sociais da ciência nos mais diversos contextos de pesquisa (Hardon e Sanabria, 2017). No Brasil, produções em torno de fenômenos como os ensaios clínicos com medicamentos e vacinas; regulamentação sanitária; produção e marketing farmacêutico; políticas industriais, comerciais e estatais de abastecimento e escassez; interações e práticas em farmácias, drogarias e serviços de saúde; negociações em torno do diagnóstico e da prescrição; judicialização de medicamentos e agenciamentos locais de uso e circulação floresceram nas últimas duas décadas. Nesse circuito, destacam-se como marcos a realização de grupos de trabalho voltados a esses objetos em eventos da antropologia (RAM 2011; 2013; 2019) e o dossiê temático “Antropologia e medicamentos”, publicado na Revista de Antropologia da UFSCAR - R@u, em 2012.

Diante deste rico cenário, esta proposta de dossiê tem como objetivo reunir etnografias dos medicamentos em diferentes contextos contemporâneos. Inspiradas por Fonseca et. al (2012), privilegiaremos artigos que procurem desenvolver antropologias a partir dos medicamentos, ou seja, que os coloquem como objeto central da reflexão etnográfica, ao mesmo tempo em que se valham desses para realizar análises sobre dimensões relacionais, corporais, institucionais, ambientais, políticas, econômicas e éticas co-produzidas (Jasanoff, 2004) com estes objetos. Entendemos que, para além dos significados e representações associados aos medicamentos, cabe atentar, sobretudo, para seus agenciamentos materiais na produção de relações e, inversamente, para as relacionalidades que co-operam para a produção dos medicamentos, para seus efeitos e combinações. 

São bem vindos trabalhos etnográficos, a serem selecionados a partir de chamada aberta, realizados a partir dos medicamentos que tematizem a produção de biossocialidades (Rabinow, 1999), biodeserção (Benjamin, 2016), negacionismos e teorias da conspiração; movimentos anti-vacina; práticas e lógicas de cuidado; naturalização de hierarquizações; políticas de incorporação ou desabastecimento de medicamentos; transformações dos medicamentos, corpos e lugares por meio de combinações (Nading, 2017); fluidez das fronteiras materiais e simbólicas entre tratamento e aprimoramento, lícito e ilícito, natural e artificial, endógeno e exógeno, além de mecanismos de regulação, incitação e proibição.

Estimulamos autoras e autores que reflitam sobre como políticas e inequidades de raça, etnia, gênero, sexualidade, classe, origem, deficiência dentre outras se constituem no, com e por meio da produção, desenvolvimento, marketing, circulação e uso dos medicamentos. Assim, procuraremos, no conjunto dos trabalhos, evidenciar as co-produções materiais e relacionais de substâncias farmacêuticas, corpos, sujeitos, políticas, hierarquias, afetos e lógicas de cuidado emergentes em diferentes contextos contemporâneos, tendo os medicamentos como ancoragem metodológica ou analítica. 

Os artigos devem ser submetidos no site da revista até 31 de dezembro de 2021. Dúvidas ou informações podem ser enviadas para o e-mail ilha.revista@gmail.com.

 

Referências

BENJAMIN, Ruha. Informed refusal: toward a justice-based bioethics. Science, Technology, & Human Values, v. 41, n. 6, p. 967-990, 2016. 

DESCLAUX, Alice. O medicamento, um objeto de futuro na antropologia da saúde. Revista Mediações, v. 11, n. 2, p. 113–130, 2006.

FONSECA, Claudia e ROHDEN, Fabíola e MACHADO, Paula Sandrine. Antropologia a partir das ciências: reflexões preliminares. FONSECA, C.; ROHDEN, F.; MACHADO, P. S. (Org.). . Ciências na vida: antropologia da ciência em perspectiva. São Paulo: Terceiro Nome, 2012. p. 7–21.

HARDON, Anita e SANABRIA, Emilia. Fluid Drugs: Revisiting the Anthropology of Pharmaceuticals. Annu. Rev. Anthropol, v. 46, p. 117–132, 2017.

JASANOFF, Sheila. The idiom of co-production. JASANOFF, S. (Org.). . States of Knowledge: The co-production of Science and Social Order. London e New York: Routledge, 2004. p. 1–12.

NADING, Alex. Local Biologies, Leaky Things, and the Chemical Infrastructure of Global Health, Medical Anthropology, v. 36, n. 2, 141-156, 2017.

RABINOW, Paul. Artificialidade e iluminismo. BIEHL, J. (Org.). Antropologia da razão: ensaios de Paul Rabinow. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999, p. 135-157.

VAN DER GEEST, Sjaak e WHYTE, Susan Reynolds e HARDON, Anita. Anthropology of Pharmaceuticals: a biographical approach. Annu. Rev. Anthropol, v. 25, p. 153–178, 1996.

VARGAS, Eduardo Viana. Fármacos e outros objetos sócio-técnicos: notas para uma genealogia das drogas. LABATE, B. C. e colab. (Org.). Drogas e Cultura: novas perspectivas. Salvador: UdUFBA, 2008. p. 41–63.