Fibromialgia e economia moral da dor

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-8034.2025.e103484

Palavras-chave:

Fibromialgia, Moralidade, Dor, Corpo, Antropologia da Saúde

Resumo

Este trabalho busca refletir de maneira antropológica sobre os contornos da experiência social da fibromialgia. Baseia-se em pesquisa etnográfica em andamento e que vem sendo desenvolvida a partir de serviços de saúde ao se observar interações entre profissionais de saúde e usuários no cenário clínico e na (auto)atenção à saúde, além de entrevistas abertas e análise de documentos no Rio Grande do Norte. Observa-se que as pessoas que vivem com a fibromialgia experienciam uma dinâmica moral para que a dor seja reconhecida socialmente, devido ao fato de o parâmetro biomédico requerer a existência de sinais físicos observáveis, independentemente dos relatos das pessoas para sinalizar a doença; algo que nem sempre é possível de se verificar na fibromialgia. Assim, o artigo busca analisar e descrever as racionalidades e as práticas produzidas no escopo das relações sociais que possibilitam a alguém adoecido provar que a dor que sente e narra é real e precisa de intervenção fisiológica. Para tanto, o argumento segue para realçar a origem e a existência biológica da dor e para rejeitar, como ideia vista como diametralmente oposta, explicações causais de ordem psicológica. O artigo se concentra na dinâmica moral envolvida na geração de apoio e para a intensificação de um sofrimento de longa duração, parte crucial do reconhecimento societário e do reclame por intervenções coletivas para o cuidado e o tratamento.

Biografia do Autor

Francisco Cleiton Vieira, Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Professor Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), na Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi (Facisa), onde atua como docente permanente nos Programas de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPgAS) e em Saúde Coletiva (PPgSACOL). Doutor e mestre em Antropologia Social pela UFRN, realizou estágio pós-doutoral no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). Atua nos campos da Antropologia da Saúde e da Antropologia da Biomedicina, com ênfase nas experiências sociais de saúde/doença e da biocidadania. Em suas pesquisas, analisa as interconexões entre sistemas de saúde, itinerários terapêuticos, prática e formação profissional em saúde, bem como as dinâmicas entre cirurgia, identidade e noção de pessoa. Seus campos etnográficos abrangem o Sistema Único de Saúde (SUS), a Saúde Suplementar e o cenário da medicina sexual no Brasil. Atualmente, dedica-se a uma etnografia sobre a vida com fibromialgia.

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Publicado

2026-07-06

Como Citar

VIEIRA, Francisco Cleiton. Fibromialgia e economia moral da dor. Ilha Revista de Antropologia, Florianópolis, v. 27, n. 3, 2026. DOI: 10.5007/2175-8034.2025.e103484. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ilha/article/view/103484. Acesso em: 11 jul. 2026.

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Artigos