Mulheres, negros e outros monstros: um ensaio sobre corpos não civilizados

Jonatas Ferreira, Cynthia Hamlin

Resumo


A dinâmica ocidental de civilização implica uma relação tensa entre corpo e mente, cultura e natureza, civilização e barbarismo. No ensaio que se segue, exploramos a construção deste último dualismo ao investigarmos os espaços nos quais certos corpos são definidos como monstruosos. Em particular, estamos interessados na constituição de uma visão científica de diferenças raciais, sua especificidade em relação à percepção medieval do lugar da alteridade, seu papel em legitimar a circulação de corpos ‘monstruosos’ como mercadorias e sua reivindicação de desvendar uma hierarquia objetiva de raças e gênero. De Lavater a Curvier, a classificação das espécies oferece um modelo hierárquico que será apropriado pelos discursos de raça e gênero na biologia. Nesse contexto, um caso pode ser considerado paradigmático: a ‘Vênus Hotentote’. Argumentamos que a negociação política do status ontológico de Sara Baartman, durante os séculos XIX e XX, representa precisamente tal esforço para estabelecer as fronteiras de civilidade mediante a circulação e a exclusão de corpos incivilizados.


Palavras-chave


Mulheres; Corpos Negros; Teratologia; Ciência

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DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-026X2010000300010

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Revista Estudos Feministas, ISSN 1806-9584, Florianópolis, Brasil.