O estatuto variável das construções imperativas de 2SG no português brasileiro escrito dos séculos XIX e XX

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/1984-8420.2019v20n2p175

Palavras-chave:

Imperativo gramatical, Alternância tu/você, Imperativo abrasileirado

Resumo

Neste artigo, apresentamos algumas evidências históricas (séculos XIX e XX) da atual realidade sincrônica variável do imperativo de 2a pessoa do singular (vem vs. venha). Com base em cartas pessoais oitocentistas e novecentistas redigidas por brasileiros cultos cujos perfis sociolinguísticos (filiação, faixa etária, nível de escolaridade, profissão) foram levantados (CONDE SILVESTRE, 2007; HERNÀNDEZ-CAMPOY; SCHILLING, 2012), comprovamos a preferência dos missivistas cariocas pelas construções imperativas associadas ao subjuntivo, acompanhando a forma nominativa de referência ao sujeito de 2a pessoa do singular (você). Comprovamos ainda que as construções imperativas vinculadas às formas de indicativo em contexto de alternância tu/você-sujeito (cartas mistas) figuram como contextos de influência intermediária, em termos probabilísticos, na aplicação da regra variável em análise. Isso significa interpretar que as cartas em que também há o você-sujeito (tu/você-suj.) parecem expor rastros históricos do imperativo abrasileirado já em amostras escritas do século XIX como uma repercussão da inserção do você no sistema pronominal (cf. LOPES, 2007; LOPES & CAVALCANTE, 2011).

Biografia do Autor

Juliana Sander Diniz, Universidade Federal de Minas Gerais

Mestra em Estudos Linguísticos pela Faculdade de Letras da UFMG.

Márcia Cristina de Brito Rumeu, Universidade Federal de Minas Gerais

Atualmente, é Professora Associada (Nível I) de Língua Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG), atua nos cursos de Graduação e de Pós-Graduação da Faculdade de Letras da UFMG. No momento, faz Pós-Doutorado, com Bolsa de Estágio do Programa Nacional de Pós-Doutorado da CAPES, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atuou entre outubro de 2015 e julho de 2018 como Gestora Editorial frente ao Setor de Periódicos da Faculdade de Letras da UFMG. Em 2013, publicou a sua Tese de Doutorado intitulada LÍNGUA E SOCIEDADE: A HISTÓRIA DO PRONOME 'VOCÊ' NO PORTUGUÊS BRASILEIRO por intermédio da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com o apoio da FAPERJ. Em 2011, foi contemplada com o 'Premio jóvenes investigadores ALFAL', no XVI Congreso Internacional de la ALFAL (Asociación de Lingüística y Filología de la América Latina). Publica, desde 2002, em reconhecidos periódicos, capítulos de livros e artigos científicos voltados para a análise do sistema pronominal do português brasileiro. Possui experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa, encaminhada principalmente para os seguintes temas: história dos pronomes pessoais do português, sociolinguística histórica da língua portuguesa no/do Brasil, edição de cartas setecentistas, oitocentistas e novecentistas. Concluiu a Graduação em Letras (1999), o Mestrado (2004) e o Doutorado (2008) em Letras Vernáculas, na área de Língua Portuguesa, pela Faculdade de Letras da UFRJ.

Referências

ALVES, G. C. Aspectos do uso do imperativo na linguagem oral do pessoense. Dissertação (Mestrado em Letras) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2001.

ALVES, A. P. O.; ALVES, J.S. A expressão variável do imperativo singular na língua falada em Salvador. Salvador: Faculdades Jorge Amado, 2005.

AGUILLAR R. C. Presencia de lo oral en lo escrito: la transcripción de las declaraciones en documentos indianos del siglo XVI. In: OESTERREICHER, W.; STOLL, E.; WESCH, A. (Ed.). Competencia escrita, tradiciones discursivas y variedades lingüísticas: aspectos del español europeo y americano en los siglos XVI y XVII. Tubingen: Narr, 1998. p. 219-242.

BONFÁ, C. R. Z; PINTO, I.A.; LUIZ, I. Imperativo: uma comparação entre Lages e Florianópolis. Florianópolis: UFSC/CEP, 1997. (Série de Estudos Diacrônicos).

BRITO, A. M.; DUARTE, I.; MATOS, G. Estrutura da frase simples e tipos de frases. In: MATEUS, M. H. M. et alii. Gramática da língua portuguesa. Lisboa: Caminho, 2006. p. 433-506.

CARDOSO, D. B. B. O imperativo gramatical no português do Brasil. Revista de Estudos da Linguagem. Belo Horizonte, 2006, v. 14, n. 2, p. 317-240.

CUNHA, C.; CINTRA, L. F. L. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007 [1985].

CONDE SILVESTRE, J. C. Sociolinguística histórica. Madrid: Gredos. 2007.

CUNHA, C. A Questão da Norma culta. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 1985.

DINIZ, J. S. A expressão variável do imperativo de 2a pessoa do singular no português brasileiro: análise de cartas pessoais dos séculos XIX e XX. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018.

ELSPASS, S. The Use of Private LettersAndDiaries in Sociolinguistic Investigation. In: HERNÁNDEZ-CAMPOY, J.M.; CONDE-SILVESTRE, J.C. The Handbook of Historical Sociolinguistics. Wiley-Blackwell. 2012. p. 156-169.

FARACO, C. A. The imperative sentence in Portuguese: a semantic and historical discussion. Thesis (PhD in Modern Languages) – University of Salford, Salford, 1982.

FARIA, I. H. O uso da linguagem. In: MATEUS, M. H. M. et alii. Gramática da língua portuguesa. Lisboa: Caminho, 2006. p.55-84.

FAVARO, G. S. Estudo morfológico das formas verbais do modo imperativo nas Cantigas de Santa Maria. Tese de Doutorado – Unesp/Araraquara, 2016.

HERNÁNDEZ-CAMPOY, J. M.; CONDE-SILVESTRE, J.C. The Handbook of Historical Sociolinguistics. Wiley-Blackwell. 2014.

HERNÁNDEZ-CAMPOY, J. M.; SCHILLING, N. The Application of the Quantitative Paradigm to Historical Sociolinguistics: Problems with the Generalizability Principle. In: HERNÁNDEZ-CAMPOY, J.M.; CONDE-SILVESTRE, J.C. The Handbook of Historical Sociolinguistics. Wiley-Blackwell. 2012, p. 63-79.

LABOV, W. Principles of Linguistic Change: Internal Factors. Cambridge: Blackwell Publishers, 1994, v. I.

LIMA, A. X.; MARCOTULIO, L. L.; RUMEU, M. C. B. Experiências metodológicas em constitiuição de corpora: pistas para um pesquisador iniciante. In: CASTILHO, Ataliba Teixeira de. (org.). História do português brasileiro: corpus diacrônico do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2019, v. 2, p. 68-91.

LOBO, T. C. F. Para uma sociolinguística histórica do português no Brasil. Edição filológica e análise linguística de cartas particulares do Recôncavo da Bahia, século XIX. Volume II. Tese (Doutorado em Filologia e Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2001.

LOREGIAN-PENKAL, L. (Re)análise da referência de segunda pessoa na fala da região Sul. Tese (Doutorado em Letras) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2004.

LOPES, C. R. S. Pronomes pessoais. In: BRANDÃO, S. F.; VIEIRA, S. R. (orgs). Ensino de gramática: descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007, p. 103-114.

LOPES, C. R. S.; CAVALCANTE, S.O. A cronologia do voceamento no português brasileiro: expansão de você-sujeito e retenção do clítico-te. In: Linguística. 2011, v. 25, p. 30-65.

MENON, O. P. S. O imperativo no português do Brasil. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 1984.

PAREDES SILVA, V. L.; SANTOS, G.; RIBEIRO, T. Variação na 2ª pessoa: o Pronome sujeito e a forma do imperativo. Revista Gragoatá, UFF, v. 9, n. 9, p. 115-123, 2000.

PEDROSA, J. L. R. Concordância verbal com o pronome ‘tu’ na fala pessoense. In: CONGRESSO NACIONAL DA ABRALIN, 2. Anais... Florianopólis, Universidade Federal de Santa Catarina, 1999.

ROMAINE, S. Socio-historical linguistics: its status and methodology. Cambridge University Press. New York. 2010 [1982].

RUMEU, M. C .B. Língua e sociedade: a história do pronome 'você' no português brasileiro. Rio de Janeiro: Ítaca (FAPERJ), 2013.

RUMEU, M. C. B. Formas variantes do imperativo de segunda pessoa nos séculos XIX e XX: a expressão do social. Signum: Estudos da Linguagem, 2016. v. 19, p. 310-341.

SAMPAIO, D. A. Modo imperativo: sua manifestação/expressão no português contemporâneo. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal da Bahia, Salvador. 2001.

SAUSSURE, F. Curso de Linguística Geral. São Paulo, Editora Cultrix. 2008 [1915].

SCHERRE, M. M. P. Aspectos sincrônicos e diacrônicos do imperativo gramatical no português brasileiro. Alfa. 2007, v. 51, n. 1, p. 189-222.

SILVA, E. N. Formas imperativas de segunda pessoa no português brasileiro. Tese (Doutorado em Língua Portuguesa) Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

SOARES, M. E. S. As formas de tratamento nas interações comunicativas: uma pesquisa sobre o português falado em Fortaleza. Dissertação (Mestrado em Letras) – Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro, 1980.

SOUZA, J.P.F. Mapeando a entrada do você no quadro pronominal: análise de cartas familiares dos séculos XIX-XX. Dissertação (Mestrado em Letras Vernáculas) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2012.

TARALLO, F. Diagnosticando uma gramática brasileira: o português d’ aquém e d’ além mar ao final do século XIX. In.: ROBERTS, I.; KATO, M. (orgs.) Português Brasileiro: uma viagem diacrônica. 2. ed. Campinas, São Paulo: Editora da Unicamp, 1993. p. 69-105.

Downloads

Publicado

2019-12-19