Os doentes do eu

Autores

  • Claudemir Pedroso Flôres Universidade Federal de Santa Catarina

DOI:

https://doi.org/10.5007/2176-8552.2020.e73269

Palavras-chave:

Poesia brasileira, Ruinologia, Genocídio e Ética, Augusto dos Anjos

Resumo

Este artigo propõe uma leitura do poema "Os doentes", presente no livro Eu, do poeta Augusto dos Anjos, a partir da concepção do filósofo Walter Benjamin acerca da alegoria como procedimento ruinoso da linguagem. Nesse poema, um “Eu” narra eventos históricos como alguém que caminha por uma metrópole anacrônica, estando ele próprio transpassado pela decrepitude individual – a hética, ao mesmo tempo em que padece uma culpabilidade por ter "violado as leis da Natureza" – a ética. Considero a morte e a decrepitude física — retratadas ao longo do poema no corpo, na doença, no cadáver e na putrefação —, como alegóricas da degenerescência moral e ética de uma "raça loura". Tal leitura torna possível situar a voz narrativa do poema em duas dimensões limiares, pois o “Eu” é ao mesmo tempo um outro (cada um dos adoecidos) e os outros (uma civilização doente).

Biografia do Autor

Claudemir Pedroso Flôres, Universidade Federal de Santa Catarina

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em  Literatura da UFSC, pesquisador no Núcleo de Estudos Benjaminianos/UFSC, psicanalista Membro de Maiêutica Florianópolis

Referências

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Tradução de Vinícius NicastroHonesko. Chapecó: Argos Editora da Unichapecó, 2009.

AGAMBEN, Giorgio.“A quem se dirige a poesia”. In: Giorgio Agamben:um poema e um ensaio. June, 2016, by Ninarizi. Disponível em: https://ninaarizzi.wordpress.com/2016/06/09/giorgio-agamben-um-poema-e-um-ensaio/. Acesso em: 03 abr. 2020.

ALENCAR, José de. Iracema. [recurso eletrônico]. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2013. 183 p. (Série prazer de ler ; n. 4).

ANDRADE, Ana Luiza. “A modernidade de uma linguagem em ruínas: contra-arquiteturas”. In:ANDRADE, Ana Luiza, BARROS, Rodrigo Lopes de e CAPELA, Carlos Eduardo Schmidt. (Org.). Ruinologias: ensaios sobre destroços do presente. Florianópolis: EdUFSC, 2016.; p.353-399.

ANJOS, Augusto dos. Obra completa: volume único. Organização, fixação do texto e notas, Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

ANJOS, Augusto dos. “Carta Aberta”. In: Obra completa: volume único. Organização, fixação do texto e notas, Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 579-581

BENJAMIN, Walter. “O surrealismo: último instantâneo da inteligência européia”. In: Magia e técnica: arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet; prefácio Jeanne Marie Gagnebin. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 21-35.

BENJAMIN, Walter.Origem do drama trágico alemão. Edição e tradução João Barrento. 2. ed. 1 reimp. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

BENJAMIN, Walter.“Sobre o conceito de história”. In: LÖWY, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. Tradução de Wanda Nogueira Caldeira Brant, [tradução das teses] Jeanne Marie Gagnebin, Marcos Lutz Müller. São Paulo: Boitempo, 2005.

BUCK-MORSS, Susan. Dialética do olhar: Walter Benjamin e o projeto das Passagens. Tradução de Ana Luiza de Andrade; revisão técnica de David Lopes da Silva. Belo Horizonte: Editora da UFMG; Chapecó/SC: Editora Universitária Argos, 2002.

CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira (Resumo para principiantes). São Paulo: Humanitas Publicações - FFLCH/USP, 1999.

CAVALCANTI-SCHIEL, Ricardo. “Revisitando a cidade letrada latino-americana: do sonho de ordem à subversão das misturas”. Revista Cult, fev. 2020. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/revisitando-cidade-letrada-angel-rama/. Acesso em: 03 abr. 2020.

CAVALCANTI, Camillo. “A poética de Augusto dos Anjos: o entre-lugar do Eu”. ActaScientiarun, LanguageandCulture,v. 36, n. 1, p.51-60, jan./mar. 2014. Disponível em: https://doi.org/10.4025/actascilangcult.v36i1.17310. Acesso em: 03 abr. 2020.

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. tradução de Peter PálPelbart. São Paulo: Editora 34, 2011.

DELEUZE, Gilles.Kafka: para uma literatura menor. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003. Disponível em:http://conexoesclinicas.com.br/wp-content/uploads/2016/02/kafka-_para_uma_literatura_menor-_deleuz.pdf. Acesso em: 17 abril 2020.

FREUD, Sigmund. O infamiliar / Das Unheimliche. Seguido de O Homem de Areia / E. T. A. Hoffmann; tradução Ernani Chaves, Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. (Obras Incompletas de Sigmund Freud; 8).

LACAN, Jacques. “O estádio do espelho como formador da função do Eu”. In: Escritos. tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 96-103.

LACAN, Jacques.O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. 1969-1970. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

NÓBREGA, Humberto. Augusto dos Anjos e sua época. João Pessoa: Editora da Universidade da Paraíba, 1962.

REGO, José Lins do. “Augusto dos Anjos e o engenho Pau d’Arco”. In: Obra completa: volume único / Augusto dos Anjos; organização, fixação do texto e notas, Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 133-141.

RIMBAUD, Arthur. “Carta a Izambart”, maio de 1871, “carta a Demeny”, 15 de maio de 1871. In:DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. tradução de Peter PálPelbart. São Paulo: Editora 34, 2011. p. 42.

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. Recife: Cepe, 2019.

SAHLINS, Marshall. Ilhas de História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

SOARES, Órris. “Elogio de Augusto dos Anjos”. In: ANJOS, Augusto dos. Obra completa: volume único; organização, fixação do texto e notas, Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 60 e 64.

Downloads

Publicado

2021-04-09

Edição

Seção

Artigos