A via-crúcis dos desgraçados ou trajetos de monstruosidade em o remorso de baltazar serapião, de Valter Hugo Mãe

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2176-8552.2019.e73473

Palavras-chave:

o remorso de baltazar serapião, monstruosidade, animalidade, violência

Resumo

Um mundo de rutilância medieval, dilatado nos atos violentos, animalescos e monstruosos do ser: assim se revela o remorso de baltazar serapião (2006), premiado romance do escritor angolano Valter Hugo Mãe. Com estilo inconfundível pela recusa às iniciais maiúsculas e aos moldes formais de pontuação, o autor trabalha com uma narrativa densa, repleta de oralidade, cravada em carnais, primitivos sentidos da linguagem. A monstruosidade impera nas ações do protagonista, baltazar, desde a desconstrução fisionômica/psicológica de sua amada à concepção de misoginia que transpassa a saga – bem como na tirania de seu pai contra sua própria mãe. ‘Misoginia’ como paradoxo, uma vez que o eu-narrador não destrói apenas o feminino, mas o código de humanidade que habita cada personagem. Bruxas, reis, fidalgos e os desgraçados: todos parceiros na dança convulsiva contrária às leis de fertilidade e resistência do Ser.

Biografia do Autor

Marcele Aires Franceschini, Pós-Doutorado na Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Professora do Departamento de Teorias Linguísticas e Literárias (DTL) da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

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Publicado

2021-02-25