Aporias entre as artes de dizer e as artes de viver: Gracián, a agudeza da ascese
DOI:
https://doi.org/10.5007/2176-8552.2026.e98514Palavras-chave:
Século XVII, Cuidado-de-si, Retórica, Filosofia moral, Epopeia seiscentistaResumo
Este artigo visa estabelecer uma relação entre as artes de dizer e as artes de viver no contexto da obra de Baltasar Gracián. Para tanto, remonta-se a argumentação de sua contribuição às discussões sobre a eloquência em Arte de Ingenio y Agudeza, para evidenciar como, mais do que uma arte retórica, o texto se propõe como um pensamento abrangente sobre o escopo da ação humana. Pensando então a agudeza como categoria epistêmica (e não apenas retórica), espera-se evidenciar seu lugar em El Criticón, epopeia em prosa que alegorizou o itinerário ascensional humano pela vida secular como uma peregrinação entre o engano e o desengano. Diante da impossibilidade de assumir a consubstancialidade entre pensamento e matéria, entre palavras e coisas, espera-se apontar como Gracián enxerga no pensamento agudo a única saída pela composição de artifícios eficazes capazes de conduzir o praticante engenhoso a cuidar de si, enfrentando as intempéries de um mundo de erros e aparências.
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