Aporias entre as artes de dizer e as artes de viver: Gracián, a agudeza da ascese

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2176-8552.2026.e98514

Palavras-chave:

Século XVII, Cuidado-de-si, Retórica, Filosofia moral, Epopeia seiscentista

Resumo

Este artigo visa estabelecer uma relação entre as artes de dizer e as artes de viver no contexto da obra de Baltasar Gracián. Para tanto, remonta-se a argumentação de sua contribuição às discussões sobre a eloquência em Arte de Ingenio y Agudeza, para evidenciar como, mais do que uma arte retórica, o texto se propõe como um pensamento abrangente sobre o escopo da ação humana. Pensando então a agudeza como categoria epistêmica (e não apenas retórica), espera-se evidenciar seu lugar em El Criticón, epopeia em prosa que alegorizou o itinerário ascensional humano pela vida secular como uma peregrinação entre o engano e o desengano. Diante da impossibilidade de assumir a consubstancialidade entre pensamento e matéria, entre palavras e coisas, espera-se apontar como Gracián enxerga no pensamento agudo a única saída pela composição de artifícios eficazes capazes de conduzir o praticante engenhoso a cuidar de si, enfrentando as intempéries de um mundo de erros e aparências. 

Biografia do Autor

Lucas Bento Pugliesi, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Graduado em Letras pela Universidade de São Paulo (2015), mestre em Literatura Brasileira pela mesma Universidade (2018), doutor em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2023), Professor Substituto de Teoria Literária na UFRJ entre 2017-2018, Professor Substituto de Teoria Literária na UERJ (2019-2020). Professor Substituto de Literatura Brasileira na UFRJ (2024-2025). Pós-doutorando em Ciência da Literatura pela UFRJ (2024-) com pesquisa sobre livros, leitores e leituras entre os séculos XVI e XVIII. Tem interesse nas áreas de Ficção dos séculos XVI e XVII; História cultural; História do livro e da leitura.

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Publicado

2026-06-23

Edição

Seção

Arte retórica, literatura & outras artes