Ser infamiliar no Brasil contemporâneo As políticas governamentais para a saúde mental entre 2010 e 2020

Conteúdo do artigo principal

Renata Patricia Forain de Valentim
https://orcid.org/0000-0001-6272-0693
Gustavo Henrique Aragão Muniz de Araújo
Rafaela Antunes Fernandes Petrone

Resumo

O objetivo deste trabalho é circunscrever as práticas e discursos que sustentaram as políticas governamentais de saúde mental no Brasil durante as primeiras duas décadas do século XXI. A hipótese que se constrói é a de que a loucura e a drogadição permanecem sempre como o elemento infamiliar, estranho à composição racionalizada do espaço social. E que a defesa das formas de cuidado preconizadas pelo movimento da reforma psiquiátrica brasileira confunde-se com a luta contra a desumanização deste infamiliar, contra a violência institucionalizada de uma sociedade patriarcal e escravocrata, que se utiliza do manicômio para punir e excluir as diversas formas de não adequação ao modelo hegemônico. Neste sentido, a Reforma Psiquiátrica e os processos de desinstitucionalização não devem ser vistos como finalizados, mas sim como um trabalho ininterrupto, de resistência contra esta violência que se dirige contra as mais diversas formas alteridade.

Detalhes do artigo

Como Citar
FORAIN DE VALENTIM, . P.; ARAGÃO MUNIZ DE ARAÚJO, . H.; ANTUNES FERNANDES PETRONE, . Ser infamiliar no Brasil contemporâneo: As políticas governamentais para a saúde mental entre 2010 e 2020. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental/Brazilian Journal of Mental Health, [S. l.], v. 14, n. 40, p. 73–89, 2022. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/view/80581. Acesso em: 27 jan. 2023.
Seção
Artigos originais
Biografia do Autor

Gustavo Henrique Aragão Muniz de Araújo, UERJ

Graduando do curso de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Bolsista de extensão/UERJ 

Rafaela Antunes Fernandes Petrone, UERJ

Graduanda no curso de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de janeiro. Bolsista de iniciação científica/CNPQ

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