Reconhecimento Facial e Militarização da Segurança Pública no Brasil

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/1806-5023.2026.e109321

Palavras-chave:

Reconhecimento facial, Segurança Pública

Resumo

A adoção de tecnologias de vigilância e controle, como câmeras de monitoramento interligadas a sistemas de reconhecimento facial, tem sido amplamente defendida como instrumento de modernização na segurança pública. Contudo, em um contexto marcado pela militarização das políticas de segurança, tais dispositivos tendem a ser incorporados sob a lógica da repressão e combate ao inimigo, reforçando práticas autoritárias e seletivas de gestão do espaço urbano. Neste artigo, apresentamos a hipótese de que a implementação dessas tecnologias reforça processos de militarização que privilegiam a atuação repressiva do Estado em detrimento de políticas de prevenção e promoção da cidadania. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, fundamentada em revisão de literatura e estudo de caso sobre a implementação de tecnologias de reconhecimento facial na segurança pública brasileira. A análise foi orientada pela perspectiva crítica de que o reconhecimento facial representa uma atualização do saber e das práticas militarizadas de controle social.

Biografia do Autor

Gabriel Gama de Oliveira Brasilino, Universidade Federal Fluminense

Doutorando em Estudos Estratégicos

Universidade Federal Fluminense, Instituto de Estudos Estratégicos,

Juliana Zaniboni de Assunção, Universidade Federal Fluminense

Doutoranda em Estudos Estratégicos

Universidade Federal Fluminense,

Instituto de Estudos Estratégicos

 Niterói, Brasil

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Publicado

2026-03-24