Chamada para envio de artigos para o dossiê “Histórias conectadas da Idade Média”

A revista Esboços: histórias em contextos globais convida pesquisadores a apresentarem artigos originais e inéditos para o dossiê Histórias Conectadas da Idade Média, organizado por Cláudia Regina Bovo (Universidade Federal do Triângulo Mineiro/Brasil) e Adrien Bayard (Universidade de São Paulo/Fapesp). Os artigos devem ser enviadas até 01 de agosto de 2019 através da plataforma da revista. O dossiê será publicado no v. 27, n. 44, janeiro-abril de 2020.

Chamada para o dossiê “Histórias Conectadas da Idade Média”

As últimas décadas do século XX foram marcadas por mudanças estruturais rápidas no cenário mundial. Seja pelas transformações geopolíticas provocadas com a descolonização da África e da Ásia (1960-1970) ou pelo fim da Guerra Fria (1990), seja pelo avanço da globalização e da expansão do desenvolvimento tecnológico, uma demanda por histórias transnacionais emergiu enquanto fruto de um mundo cada vez mais interconectado e interdependente. Através da consolidação de associações econômicas, políticas e culturais, os limites impostos por visões de mundo nacionalistas e abordagens acadêmicas eurocêntricas trouxeram à tona provocações importantes sobre a necessidade de novas maneiras de interpretar e explicar as experiências históricas a partir do viés global.

Novas abordagens historiográficas surgiram dessa seara, que apesar de ter na década de 1990 o momento de constituição formal do campo, com institucionalização efetiva de associações (World History Association) e periódicos, encontrou o germe de sua essência na ousadia de enfoques historiográficos anteriores. A chamada Global History aparece em diversas ramificações, que ao se construírem enquanto campo, colocam à prova os melhores meios para sua realização. Como afirmou Diego Olstein, apesar das sobreposições historiográficas, essas múltiplas tendências à história global compartilham características comuns e estão todas dedicadas a pensar a história através do que se identifica como 4 “Ces”: a conexão, a comparação, a conceituação e a contextualização.

Da História Global à transnacional, as histórias conectadas estão dispostas a estabelecer abordagens sobre os cruzamentos históricos através da longa duração, da longa distância, da análise em múltipla escala e da transdisciplinaridade. É, justamente, nessa perspectiva que os debates em torno das conexões históricas pré-modernas se fazem necessários. Como já demonstrou Sanjay Subrahmanyam, há tradições antigas e medievais de escrita da história que analisaram outras sociedades, privilegiando o estudo das interações em múltiplos espaços e tempos, bem como em diversas escalas. Temos muito a aprender com essas narrativas, sobretudo, o modo de olhar o outro abstraído do horizonte de expectativas de conceituações modernas como aquelas sentenciadas pelos ideais oitocentistas de “povo” e “nação”.

Além disso, diante de um momento histórico que encara com pessimismo o legado eurocêntrico do Ocidente, um dossiê que trata das Histórias conectadas da Idade Média encontra espaço auspicioso para seu desenvolvimento por algumas razões: a primeira está em qualificar essa temporalidade, tradicionalmente atribuída à Europa Ocidental, a partir do estudo de comunidades conectadas em escala supra-regional e supra-continental, incluindo abordagens em perspectiva eurasiana e africana. Essas novas abordagens buscam demonstrar a prosperidade de análises sobre a movimentação de pessoas, a circulação de ideias, materiais, bem como, as intersecções de procedimentos de governança e regulação no enfrentamento de conflitos sociais e intempéries naturais comuns às diversas comunidades medievais anteriores às grandes navegações. Outro motivo importante para a realização de um dossiê dessa natureza no Brasil, deve-se à mudança de perspectiva dentro dos estudos medievais que buscam, cada vez mais, se distanciar das abordagens que definem a origem dos Estados Nacionais Europeus a partir da Idade Média.

Todos os textos enviados serão submetidos ao sistema duplo-cego de avaliação por pares.