Chamada para envio de artigos para o dossiê "História global e digital: novos horizontes para a investigação histórica"

A revista Esboços: histórias em contextos globais convida pesquisadoras e pesquisadores a submeterem artigos para o dossiê "História global e digital: novos horizontes para a investigação histórica", organizado por Anita Lucchesi (Luxembourg Centre for Contemporary and Digital History), Pedro Silveira (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Thiago Lima Nicodemo (Universidade Estadual de Campinas). Os artigos devem ser enviados até 01 de novembro de 2019 através da plataforma da revista. O dossiê será publicado no v. 27, n. 45, maio/ago. 2020.

Chamada para o dossiê "História global e digital: novos horizontes para a investigação histórica"

Conforme o final do século XX se aproximava, as utopias políticas e sua promessa de um télos final para a história cederam espaço à realidade da unificação econômica, ao mesmo tempo em que as perspectivas de futuro começavam a se encarnar cada vez mais na tecnologia. Assim, o avanço da globalização e a difusão das novas tecnologias, como o computador pessoal e a internet, foram praticamente simultâneos, resultando, cerca de trinta anos depois, num processo tão consolidado quanto polêmico. A proximidade entre globalização e tecnologia mostra que a introdução das tecnologias digitais acarretou também novas formas de organização do trabalho, para não mencionar a unificação dos mercados, resultando, por último, numa esfera de comunicação que é tanto global quanto produtora de localismos.

Mas quanto disso afetou a produção historiográfica? Se tecnologias como o aumento da capacidade de armazenamento e transmissão em banda largar permitiram a disponibilização de fontes primárias e bibliografia de modo a ultrapassar a distância física entre lugares centrais e periféricos; se as redes sociais, o e-mail e outras práticas ampliaram as possibilidades de comunicação entre pesquisadores e pesquisadoras entre diferentes países, em que medida é possível dizer, porém, que as novas tecnologias também auxiliaram na construção de uma pauta historiográfica comum? É possível dizer que as tecnologias digitais levaram à formatação de um meio historiográfico internacional e, por que não, global? Quais são as possibilidades que estas tecnologias abriram para a cooperação entre pesquisadores e pesquisadoras de diferentes países? Que questões são compartilhadas? E, tão importante quanto, quais fissuras, qual distância, ainda permanece ou aumentou com as novas tecnologias?

O processo de difusão das tecnologias digitais, portanto, está relacionado a alterações no modo como a história é vivida e, por conseguinte, nas maneiras pelas quais ela é escrita no início do século XXI. Essas alterações afetaram a autoridade de historiadores e historiadoras, ao mesmo tempo que abriram novos canais de comunicação para eles e elas. Do mesmo modo, as tecnologias digitais introduziram rupturas nos circuitos de comprovação dos enunciados, trazendo simultaneamente uma maior mediação tecnológica e a impressão de imediaticidade para determinados discursos políticos. Assim, o próprio sentido do verdadeiro, do falso e do verossímil foram afetados nesse processo. Em suma, são as dinâmicas sociais, e a própria legitimidade do conhecimento historiográfico, que se encontram sob novas condições. Esses são processos que uma história social renovada, capaz de se engajar com as novas tecnologias, tem como abordar.

O propósito deste dossiê é reunir contribuições que permitam refletir sobre a relação entre a internacionalização dos estudos históricos e o avanço das novas tecnologias na prática historiográfica. Partindo da relativa simultaneidade entre os dois processos mencionada acima, aceita-se contribuições que se enquadrem nos temas abaixo, para além de outros correlatos aos problemas propostos:

 

  • A relação entre as novas possibilidades de comunicação online e a formação de um meio historiográfico global;
  • Novas histórias sociais da tecnologia digital;
  • Projetos e iniciativas historiográficas que se utilizem das novas tecnologias para promover diálogos historiográficos internacionais;
  • Aproximações e distanciamentos entre contextos institucionais e/ou realidades acadêmicas diversas, separadas por fronteiras nacionais ou linguísticas;
  • Problematização das relações de (pós-)colonialidade no âmbito de projetos de digitalização e infraestrutura digital entre o Norte e o Sul globais;
  • Problemas teóricos tais como o estatuto da verdade no mundo digital (incluindo a chamada pós-verdade), o estatuto do documento histórico e a dinâmica da temporalidade levando-se em conta as mídias digitais.