A pilha de Daniell: um estudo de caso histórico

Autores

  • Mayra Cristina da Silva Costa Universidade de São Paulo
  • Paulo Alves Porto Universidade de São Paulo

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-7941.2021.e82360

Palavras-chave:

Pilha de Daniell, Eletroquímica, História da Ciência

Resumo

O modelo didático da pilha de Daniell tem papel central no ensino de eletroquímica, associado a conceitos fundamentais, tais como as reações de oxirredução. O dispositivo criado originalmente por John F. Daniell (1790-1845), porém, apresenta diferenças em relação ao modelo didático difundido na atualidade. Este artigo apresenta um estudo de caso histórico sobre o desenvolvimento da pilha por Daniell em meados do século XIX. A análise das comunicações de Daniell acerca desse assunto à Royal Society revelam a influência de Michael Faraday e William Snow Harris sobre seus trabalhos. Foram necessários cerca de dez anos para que Daniell chegasse à versão final de sua pilha, com um eletrodo de zinco amalgamado em um eletrólito de ácido sulfúrico diluído, e outro eletrodo de cobre em contato com uma solução ácida de sulfato de cobre. A separação entre os eletrólitos, inicialmente feita com uma membrana de origem animal, foi posteriormente feita por um recipiente de argila porosa. Essa pilha, capaz de fornecer corrente contínua de maneira constante por um tempo considerável, foi fundamental para a expansão das redes telegráficas nessa época. A compreensão do processo de desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico, e de suas implicações para a sociedade, por meio de um estudo de caso histórico, pode trazer contribuições relevantes para o ensino de ciências na atualidade.

Biografia do Autor

Mayra Cristina da Silva Costa, Universidade de São Paulo

Atua como docente da disciplina de Química na educação básica e também como mediadora de educação a distância dos seguintes cursos: Licenciatura em Física, Licenciatura em Química, Licenciatura em Pedagogia e Licenciatura em Matemática. Além de trabalhar como mediadora de processos didático-pedagógicos a distância, no ensino superior também atua como orientadora de projetos integradores (projetos teórico-práticos baseados no Design Thinking, com finalidade de criar alternativas para problemáticas da profissão). Tem experiência com pesquisa qualitativa, (pesquisa documental e estudo de caso) adquirida no decorrer do mestrado em Ensino de Química: pesquisa voltada para o ensino de eletroquímica, especificamente. Também é bacharel em Química, tendo atuado em diferentes pesquisas: no campo da Bioquímica realizando cultivo in vitro de ipê-roxo e suplementação metabólica das sementes e também no campo da cristalografia, com a síntese e caracterização de polímeros de coordenação.
Sua afinidade profissional converge entre o conhecimento específico da Química, especialmente Química Inorgânica e Bioquímica, com a educação química.

Paulo Alves Porto, Universidade de São Paulo

Bacharel e licenciado em Química pela Universidade de São Paulo (1989), possui mestrado (1994) e doutorado (1998) em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), na área de história da ciência. Realizou estágios de pós-doutoramento na Johns Hopkins University (EUA) e na PUC-SP. É livre docente (2013) na área de ensino de química pelo Instituto de Química da USP. Foi professor no Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP), no Programa de Pós-Graduação em História da Ciência da PUC-SP, e atualmente é professor no Instituto de Química da USP. É um dos editores do periódico Química Nova na Escola. Tem experiência na área de história da ciência, com ênfase em história da química, dedicando-se a estudos que visam a aproximar a história da ciência ao ensino de química nos níveis médio e superior.

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Publicado

2021-12-15

Edição

Seção

História, Filosofia e Sociologia da Ciência e Ensino de Ciências/Física