Crítica ao identitarismo e regimes de verdade: arqueogenealogia de um arquivo midiático no Brasil contemporâneo
DOI:
https://doi.org/10.5007/1984-8412.2026.e112382Palavras-chave:
Michel Foucault, Estudos discursivos foucaultianos, Análise arqueogenealógico do discurso, Identitarismo, Regimes de verdadeResumo
O artigo analisa a emergência recente da chamada “crítica ao identitarismo” como prática discursiva que, no Brasil, tem se apresentado como chave privilegiada para explicar as crises da esquerda, a fragmentação do campo progressista e as disputas em torno das chamadas “pautas identitárias”. No contexto do centenário de Michel Foucault e do deslocamento irônico de “Nós, os vitorianos” para “Vocês, os identitários”, pergunta-se como essa crítica contribui para a atualização dos regimes de verdade que articulam saber, poder e corpo. Partindo dos Estudos Discursivos Foucaultianos, mobiliza-se, sob o rótulo exógeno de Análise Arqueogenealógica do Discurso (AAGD), a sistematização de Navarro (2015, 2020), com operadores como arquivo, acontecimentalização e desmultiplicação causal. Empiricamente, o corpus reúne 23 acontecimentos discursivos selecionados na aba “Notícias” do Google a partir das combinações “pauta identitária + esquerda” e “identitarismo + esquerda” (2000–2025). O recorte assume a agência algorítmica da plataforma como parte das condições de aparecimento do recuperável, tratando o material como arquivo estratégico de enunciados citáveis e circuláveis, e não como uma amostra estatística do debate público. A análise descreve a constituição de “identitarismo” como palavra-problema e operador acusatório, os léxicos retroativos que o cercam, os sujeitos autorizados à crítica, os suportes de circulação, as posições político-ideológicas em jogo e as dicotomias recorrentes (universal/particular, material/simbólico, racional/irracional). Argumenta-se que a “crítica ao identitarismo” opera como dispositivo de inteligibilidade e de governo das lutas minoritárias, produzindo “identitários” e “críticos do identitarismo” em posições assimétricas de fala e de legitimidade, o que evidencia a potência analítica da AAGD para descrever formas contemporâneas de subjetivação e de gestão das diferenças somatopolíticas.
Referências
BARROS, D. R. Quando “opostos” se atraem e se tocam? O MBL e a esquerda identitária. Pragmatismo Político, 13 out. 2016. Disponível em: https://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/10/quando-opostos-atraem-tocam-mbl-esquerda-identitaria.html. Acesso em: 9 set. 2026.
BETIM, F. Tatiana Roque: “O problema da esquerda não é a pauta dita identitária, mas sim a lacração”. El País Brasil, São Paulo, 24 mar. 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/20/politica/1553037448_213932.html. Acesso em: 10 set. 2026.
BUTLER, J. Desfazendo gênero. Tradução de Aléxia Bretas, Ana Luiza Gussen, Beatriz Zampieri, Gabriel Lisboa Ponciano, Luís Felipe Teixeira, Nathan Teixeira, Petra Bastone e Victor Galdino. São Paulo: Editora Unesp, 2022.
BUTLER, J. Quem tem medo do gênero? Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2024.
COLLING, L. Os novos discursos críticos às identidades e a crise nas universidades. Le Monde Diplomatique Brasil, 25 out. 2024. Disponível em: https://diplomatique.org.br/os-novos-discursos-criticos-as-identidades-e-a-crise-nas-universidades/. Acesso em: 10 set. 2026.
CONNELL, R.; PEARSE, R. Gênero: uma perspectiva global. Tradução de Marília Moschkovich. 3. ed. São Paulo: nVersos, 2015.
EACHUSPLESTE - Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Aula Magna: a emergência de novos discursos críticos às identidades: obras, pistas e hipóteses. Aula Magna do prof. Leandro Colling. São Paulo: YouTube, 30 set. 2025. 1 vídeo (2h10min35seg). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ObqQ9ds69Lg. Acesso em: 9 set. 2026.
FAVERO, S. Psicologia suja. Simões Filho, BA: Devires, 2022.
FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2022a.
FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 13. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Paz e Terra, 2022b.
FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Tradução de Roberto Machado. 16. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Paz & Terra, 2023.
GIMENES, H. Para Ciro, pautas identitárias são “baboseiras da esquerda”. Pleno.News, 5 set. 2022. Disponível em: https://pleno.news/brasil/eleicoes-2022/para-ciro-pautas-identitarias-sao-baboseiras-da-esquerda.html. Acesso em: 9 set. 2026.
GOMES, W. Dois problemas democráticos da política identitária. Revista CULT, São Paulo, 21 jan. 2022. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/dois-problemas-democraticos-da-politica-identitaria/. Acesso em: 9 set. 2026.
GOMES, W. Esquerda identitária e satanização da maioria. Revista CULT, São Paulo, 9 nov. 2018. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/esquerda-identitaria-e-satanizacao-da-maioria/. Acesso em: 9 set. 2026.
GOMES, W. O cancelamento da antropóloga branca e a pauta identitária. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 ago. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/08/o-cancelamento-da-antropologa-branca-e-a-pauta-identitaria.shtml. Acesso em: 9 set. 2026.
GREEN, J. N.; QUINALHA, R.; CAETANO, M.; FERNANDES, M. (org.). História do movimento LGBT no Brasil. São Paulo: Alameda, 2018.
GREGOLIN, M. R. Foucault e Pêcheux na análise do discurso: diálogos e duelos. 2. ed. São Carlos: ClaraLuz, 2006.
KATZ, J. N. The invention of heterosexuality. With a new foreword by the author. Chicago: University of Chicago Press, 2007.
LEOPOLDO, R. Cartografia do pensamento queer. Simões Filho, BA: Devires, 2020.
MAINGUENEAU, D. Discurso e análise do discurso. Tradução de Sírio Possenti. São Paulo: Parábola Editorial, 2015.
MARÇAL, W. Identitarismo bilionário. Disparada, 30 jan. 2019. Disponível em: https://disparada.com.br/identitarismo-bilionario/. Acesso em: 9 set. 2026.
MAZIÈRE, F. A análise do discurso: história e práticas. Tradução de Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.
MENDIZÁBAL, I. R. Análisis del discurso en Latinoamérica: un estado de arte. Chasqui: Revista Latinoamericana de Comunicación, Quito, n. 139, p. 15-66, 2019. Disponível em: https://repositorio.flacsoandes.edu.ec/items/6b9db149-9c93-4d25-a943-0f8d84c085df. Acesso em: 10 set. 2026.
MOSCHKOVICH, M. B. F. G. Feminist gender wars: the reception of the concept of gender in Brazil (1980s-1990s) and the global dynamics of production and circulation of knowledge. 2018. 202 f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2018. Disponível em: https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/1082998. Acesso em: 5 set. 2026.
NAVARRO, P. Estudos discursivos foucaultianos: questões de método para análise de discursos. MOARA – Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Letras, Belém, v. 1, n. 57, p. 8-33, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufpa.br/index.php/moara/article/view/9682/6672. Acesso em: 10 set. 2026.
NAVARRO, P. Por uma análise arqueogenealógica do discurso. In: BARONAS, R. L. (org.). Estudos discursivos à brasileira: uma introdução. Campinas, SP: Pontes Editores, 2015. p. 149-173.
OLIVEIRA, M. R. G.; NASCIMENTO, L. C.; JESUS, J. G. (org.). Gritarias epistêmicas: (r)existências de travestis e mulheres transexuais negras no Brasil. Salvador, BA: Devires, 2022.
OLIVEIRA, W. Pré-candidato Aldo Rebelo diz que pauta identitária marginaliza o debate que importa. Gazeta do Povo, Brasília, 5 dez. 2021. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/pre-candidato-aldo-rebelo-diz-que-pauta-identitaria-marginaliza-o-debate-que-importa/. Acesso em: 9 set. 2026.
PRECIADO, P. B. Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
RUIZ, M. A. A. Por uma análise do discurso brasileira: Gestos de leitura na construção de um campo de pesquisa. Fórum Linguístico, Florianópolis, v. 18, n. 3, p. 6455-6465, jul./set. 2021. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/forum/article/view/77815. Acesso em: 10 set. 2026.
RUY, C. B. Como surgiu a política identitária e qual sua relação com a ideologia liberal. Brasil de Fato, São Paulo, 17 set. 2021. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2021/09/17/artigo-como-surgiu-a-politica-identitaria-e-qual-sua-relacao-com-a-ideologia-liberal/. Acesso em: 9 set. 2026.
SABINO, M. Por que Lula não é um racista sexista como Bolsonaro. Metrópoles, 29 nov. 2023. Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas/mario-sabino/por-que-lula-nao-e-um-racista-sexista-como-bolsonaro. Acesso em: 8 set. 2026.
SOUSA, C. G.; COLLING, L.; CASTELEIRA, R. P. Provocações iniciais para pensar o pós-queer/cuir no Brasil da atualidade. Conceição|Conception, Campinas, SP, v. 13, p. 1-24, 2024. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/conce/article/view/8677692. Acesso em: 10 set. 2026.
THOMAZ, D. Por que PCO incomoda esquerda e agrada bolsonaristas. Folha de S.Paulo, São Paulo, 9 set. 2023. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2023/09/por-que-pco-incomoda-esquerda-e-agrada-bolsonaristas.shtml. Acesso em: 9 set. 2026.
TRIGO, L. Em livro polêmico, Antonio Risério ataca o “fascismo identitário”. G1– Pop & Arte, 11 nov. 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/blog/luciano-trigo/post/2019/11/11/em-livro-polemico-antonio-riserio-ataca-o-fascismo-identitario.ghtml. Acesso em: 9 set. 2026.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
Os trabalhos publicados passam a ser de direito da Revista Fórum Linguístico, ficando sua reimpressão, total ou parcial, sujeita à autorização expressa da Comissão Editorial da revista. Deve ser consignada a fonte de publicação original.
Esta publicação está regida por uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
