Os sentidos da deficiência pela liga brasileira de higiene mental

Autores

  • Vivian Ferreira Dias Universidade Federal de Santa Catarina
  • Sandra Caponi Universidade Federal de Santa Catarina

DOI:

https://doi.org/10.5007/1984-8412.2019v16n3p3936

Palavras-chave:

Degeneração, Biopolítica, Deficiência

Resumo

Entender a forma como a deficiência é interpretada na atualidade é, também, revisitar os sentidos do passado. Nosso recorte é o domínio médico, e a intenção é trazer, por conseguinte, a forma como o “desvio” era interpretado e investido pela medicina, especialmente quando os sentidos degeneracionistas estavam no auge. São considerados Os Arquivos da Liga Brasileira de Higiene Mental, compreendidos entre 1925 a 1946, e nossas análises se assentam especialmente nos pressupostos da biopolítica – conforme desenvolvidos por Foucault. A sensibilidade da Liga, pois, era a de romper com a assistência médica e social, restringir a entrada de imigrantes de mentalidade anormal, controlar doenças que causariam deficiências e praticar a filantropia seletiva, ou seja, dar auxílio apenas aos mais fortes. Em suma, sob o regime de inferioridade, de atraso à nação, de mal que deveria ser tratado/aniquilado, é que as pessoas com deficiência eram e ainda podem ser significadas.

Biografia do Autor

Vivian Ferreira Dias, Universidade Federal de Santa Catarina

Fonoaudióloga e Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Doutoranda pela Programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (UFSC).

Sandra Caponi, Universidade Federal de Santa Catarina

Professora Doutora - Associada do Departamento de Sociologia e Ciências Politicas da Universidade Federal de Santa Catarina. 

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Publicado

2019-10-22