Nos Rastros do Diabo: limites etnográficos na obra de Michael Taussig

Autores/as

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-8034.2026.e111153

Palabras clave:

Pactos com o Diabo, Fetichismo da mercadoria, Acumulação originária, Teoria e etnografia, Escrita antropológica

Resumen

O artigo revisita criticamente a obra de Michael Taussig sobre pactos com o Diabo na América do Sul, examinando seus limites teóricos e etnográficos à luz da comparação com pesquisas realizadas no norte de Minas Gerais, Brasil. Partindo da articulação entre fetichismo da mercadoria e expansão do trabalho assalariado, analisa-se como Taussig constrói a relação entre dinheiro e Diabo como crítica ao capitalismo. Em contraste, o pacto com o Diabo no norte de Minas mobiliza a categoria de acumulação originária para pensar transformações locais sem dissolver o material de campo na abstração teórica. Reconhecendo a importância de sua obra, argumenta- se, contudo, que a potência interpretativa de Taussig se sustenta sobre um conjunto de relatos mediados, no qual a distinção entre dado, teoria e escrita se torna instável. A comparação proposta permite refletir sobre diferentes modos de articular teoria e etnografia, colocando em questão o estatuto do dado e os regimes de verdade que sustentam a escrita antropológica.

Biografía del autor/a

Lucas Parreira Álvares, UFRPE

É professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Também é docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Coordena o Laboratório de Etnografia e Crítica (Etc.). Desenvolve pesquisas sobre Teoria Etnográfica, Teoria Antropológica e Antropologia das Culturas Populares.

Citas

ACOSTA, José de. The Natural and Moral History of the Indies. Londres: Hakluyt Society, 1880.

ALMEIDA, Mauro W. B. “Resenha de: “O Trem Fantasma/A Modernidade na Selva & Shamanism, Colonialism and the Wild Man/A Study in Terror and Healing”. São Paulo: Lua Nova, v. 15, out. 1988.

ÁLVARES, Lucas Parreira. Dívidas d’alma: sensibilidades entre vivos e mortos no sertão do São Francisco. 2023. 167p.. Dissertação (Mestrado – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2023.

ÁLVARES, Lucas Parreira. Pacto e Promessa no sertão do São Francisco. 2025. 239p. Tese (Doutorado em Sociologia e Antropologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2025.

AMBRÓSIO, Manoel A. O. Brasil Interior: Palestras Populares, Folk-lore das margens do São Francisco. Montes Claros: Editora Unimontes, 2015.

ASTUTI, Rita. Taking people seriously. HAU: Journal of Ethnographic Theory, v. 7, n. 1, p. 105-122, 2017.

BATAILLE, Georges. The Accursed Share. Tradução de Robert Hurley. New York: Zone Books, 1988.

BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre Literatura e História da Cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

BOUCHE, Pierre. La Côte des Esclaves et le Dahomey. Paris: Plon, 1885.

BOWEN, Thomas Jefferson. Adventures and Missionary Labors in Several Countries in the Interior of Africa. Charleston, Southern Baptist Publication Society, 1857.

CABALLERO, I. V. Dos pactos com o Diabo, a Sereia e os Apus. Revista de Antropologia, v. 62, n. 2, p. 382-402, 2019.

CÂMARA CASCUDO, Luís da. Contos tradicionais do Brasil. São Paulo: Global Editora, 2015.

CANCLINI, Néstor García. As culturas populares no capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1993.

CARDOSO, Aparecido P. A Garganta de Minas: Ensaios de História Regional. Joinville: Clube de Autores, 2022. 368p.

CASTALDI, Carlo. A aparição do demônio no Catulé. Tempo Social, v. 20, p. 305-357, 2008.

CHAVES, Wagner Neves Diniz. “Tudo é e não é”: paradoxos e antinomias no pensamento de Riobaldo e no imaginário de violeiros do vale do São Francisco, norte de Minas Gerais. Religião & Sociedade, v. 40, n. 2, p. 75-98, 2020.

CLIFFORD, James. On ethnographic authority. Representations, n. 2, p. 118-146, 1983.

COMAROFF, Jean; COMAROFF, John L. Occult economies and the violence of abstraction: notes from the South African postcolony. American Ethnologist, v. 26, n. 2, p. 279-303, 1999.

COMERFORD, John. Onde está a “comunidade”?: conversas, expectativas morais e mobilidade em configurações entre o “rural” e o “urbano”. RURIS, Campinas, p. 22, 2014.

COPANS, Jean. “Mode de production: formation sociale, ou ethnie? les leçons d’un long silence de l’Anthropologie Marxiste Française”. Canadian Journal of African Studies/La Revue canadienne des études africaines, v. 20, n. 1, p. 74-90, 1986.

COSTA, João Batista de Almeida. Mineiros e Baianeiros: englobamento, exclusão e resistência. Brasília, DF: DAN/UnB, 2003.

CRAIN, Mary M. Poetics and politics in the Ecuadorean Andes: women’s narratives of death and devil possession. American Ethnologist, v. 18, n. 1, p. 67-89, 1991.

DE BROSSES, Charles. Du Culte des dieux fétiches, ou Parallèle de l’ancienne religion de l’Egypte avec la religion actuelle de Nigritie. Paris: Nabu Press, [1760] 2010.

DE GÓMORA, Francisco López. Historia General de las Indias. Barcelona: Editorial Iberia, 1954.

DE LEÓN, Antonio García. Resistencia y Utopía. México DF: Ediciones Era, 1985.

EILOLA, Jari. ‘Paholaisen Rakastajattaret, Kolme naista ja heidän tutkimiseen liittyviä ongelmia’. In: OLLI, Matikainen (ed.). Rikos Historiassa, Jyväskylän Historiallisen Arkisto. Jyväskylä: 2000. p. 181-228.

FAVRET-SAADA, Jeanne. Deadly Words: Witchcraft in the Bocage. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.

FEDERICI, Silvia. Caliban and the Witch. New York: Autonomedia, 2004.

FOSTER, George M. Peasant society and the image of limited good. American Anthropologist, v. 67, n. 2, p. 293-315, 1965.

FRIEDMAN, Jonathan. “Marxism, structuralism and vulgar materialism”. Man, v. 9, n. 3, p. 444-469, 1974.

GEERTZ, Clifford. After the fact. Harvard University Press, 1995.

GEERTZ, Clifford. Ethnographic experience and sentimental pessimism: Why culture is not a disappearing object. Biographies of Scientific Objects. p. 158-293, 2000.

GEERTZ, Clifford. The religion of Java. University of Chicago press, 1960.

GODELIER, Maurice. Horizon, trajets marxistes en anthropologie (1). FeniXX, 1973.

GODELIER, Maurice. La Production des grands hommes. Paris: Fayard, 1982.

HEREDIA, Beatriz; PALMEIRA, Moacir; LEITE, Sergio Pereira. Sociedade e economia do “agronegócio” no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 25, p. 159-176, 2010.

ITABAIANA, Isabela M.; GALIZONI, Flávia M.; RIBEIRO, Áureo E. M. “Caminho das águas: a produção dos brejos e das culturas”. Anuário Antropológico, Brasília, DF, 2026 (no prelo).

JANSEN, Kees; ROQUAS, Esther. Devil Pact Narratives in Rural Central America: Class, Gender and ‘Resistance’. In: JANSEN, Kees; ROQUAS, Esther. Latin American Peasants. Routledge, 2004. p. 262- 290.

LEACH, Edmund R. Rethinking Anthropology: volume 22. [S.l.]: Routledge, 2021.

LÉRY, Jean de. Viagem à Terra do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército – Editora, 1961.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Les structures élémentaires de la parenté. Paris: PUF, 1949.

LINS, Wilson. O médio São Francisco: uma sociedade de pastores e guerreiros. Brasiliana, 1983.

LUKÁCS, György. Ontologia do ser social: os princípios ontológicos fundamentais de Marx. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1979.

MARTINS, José de Souza. A aparição do demônio na fábrica, no meio da produção. Tempo Social, v. 5, p. 1-29, 1993.

MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011.

MARX, Karl. O Capital: Livro 1. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.

MEILLASSOUX, Claude. Femmes, Greniers, et Capitaux. Paris: [s.n.], 1975.

MELLO E SOUZA, Laura de. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

MINTZ, Sidney W.; WOLF, Eric R. Reply to Michael Taussig. Critique of Anthropology, v. 9, n. 1, p. 25-31, 1989.

NADER, Laura. Ethnography as theory. HAU: Journal of Ethnographic Theory, v. 1, n. 1, p. 211-219, 2011.

NASH, June. The devil in Bolivia’s nationalized tin mines. Science & Society, v. 36, n. 2, p. 221-233, 1972.

NASH, June. Devils, witches, and sudden death. Man’s Many Ways: The Natural History Reader in Anthropology, p. 336-350, 1973.

NASH, June C. We eat the mines and the mines eat us: dependency and exploitation in Bolivian tin mines. New York: Columbia University Press, 1993.

NEVES, Zanoni. Navegantes da Integração: os remeiros do rio São Francisco. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista: o ornitorrinco. [S.l.]: Boitempo Editorial, 2003.

OLLI, Soili-Maria. The Devil’s pact: a male strategy. Beyond the Witch Trials: Witchcraft and Magic in Enlightenment Europe, p. 100-116, 2004.

PEIRANO, Mariza. Etnografia, ou a teoria vivida. Ponto Urbe, n. 2, 2008.

PEREIRA, Luzimar Paulo. As vicissitudes da fama: os dons divinos e os pactos demoníacos entre os tocadores de viola de dez cordas do norte e noroeste mineiro. Revista de Antropologia, p. 1047-1083, 2012.

PEREIRA, Luzimar Paulo. Os giros do sagrado: um estudo etnográfico sobre as folias em Urucuia, MG. [S.l.]: 7 Letras, 2011.

PIMENTEL, Altimar. Estórias do Diabo: o diabo na criação popular. Brasília, DF: Thesaurus, 1995.

PIRES, Rogério Brittes W. “Fetichismo religioso, fetichismo da mercadoria, fetichismo sexual”. Revista de Antropologia, v. 57, n. 1, p. 347-391, 2014.

PIRES, Roberto B. W.; STRANGE, Susan E.; MELLO, Marcelo M. The Bakru speaks: Money-making demons and racial stereotypes in Guyana and Suriname. New West Indian Guide, v. 92, n. 1-2, p. 1-34, 2018.

RABELO, Milena dos Reis. Piagas, bruxedos, gravuras e sons: uma etnografia da ecologia das práticas dos Paganismos Contemporâneos com o Círculo Piaga no Piauí. 2025. 216p. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2025.

REY, Pierre Philippe. “Class contradiction in lineage societies”. Critique of Anthropology, v. 4, n. 13-14, p. 41-60, 1979.

ROCHA, Geraldo. O rio São Francisco: factor precípuo da existência do Brasil. Brasiliana, 1940.

ROMERO, Sílvio. Folclore Brasileiro: contos populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985.

SAHLINS, Marshall. Ethnographic experience and sentimental pessimism: Why culture is not a disappearing object. Biographies of Scientific Objects, p. 158-293, 2000.

STRATHERN, Marilyn. The gender of the gift: problems with women and problems with society in Melanesia. California: Univ. of California Press, 1988.

STRATHERN, Marilyn. Woman in between. London and New York: Seminar Press, 1972.

TAUSSIG, Michael. Shamanism, colonialism, and the wild man: A study in terror and healing. Chicago: University of Chicago Press, 2008.

TAUSSIG, Michael. My Cocaine Museum. Chicago: University of Chicago Press, [2004] 2009.

TAUSSIG, Michael. O Diabo e o fetichismo da mercadoria na América do Sul. São Paulo: Editora Unesp, 2010a. 385p.

TAUSSIG, Michael T. The devil and commodity fetishism in South America. North Carolina: Univ. of North Carolina Press, 2010b.

TAUSSIG, Michael. The Magic of the State. New York: Routledge, [1997] 2013.

TAUSSIG, Michael. Mimese e alteridade: uma história particular dos sentidos. New York: Routledge, [1992] 2018.

TAUSSIG, Michael. The rise and fall of Marxist anthropology. Social Analysis, n. 21, p. 101-113, 1987.

TERRAY, Emmanuel. Le marxisme devant les sociétés primitives: deux études. FeniXX, 1969.

TSING, Anna Lowenhaupt. Viver nas Ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno. Brasília, DF: IEB, 2019.

TURNER, Victor. Schism and Continuity in an African Society. Berg Publishers, 1957.

TURNER, Victor. The Ritual Process – Structure and Anti-Structure. Chicago: Aldine, 1969, 214p.

VIDAL, A. Lendas e superstições: contos populares brasileiros. Rio de Janeiro: Emprêsa Gráfica O Cruzeiro, 1950.

WALKER, Harry. Demonic trade: debt, materiality, and agency in Amazonia. Journal of the Royal Anthropological Institute, v. 18, n. 1, p. 140-159, 2012.

MINTZ, Sidney W.; WOLF, Eric R. Reply to Michael Taussig. Critique of Anthropology. v. 9, n. 1, p. 25-31, 1989.

WORSLEY, Peter. Marx and Marxism. [S.l.]: Routledge, 1981.

Publicado

2026-10-05

Cómo citar

ÁLVARES, Lucas Parreira. Nos Rastros do Diabo: limites etnográficos na obra de Michael Taussig. Ilha Revista de Antropologia, Florianópolis, v. 28, p. 1–27, 2026. DOI: 10.5007/2175-8034.2026.e111153. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ilha/article/view/111153. Acesso em: 7 oct. 2026.

Número

Sección

Dossiê Antropologias de inspiração marxista em contextos rurais