A concepção de maternidade nos processos de destituição do poder familiar: uma análise interseccional

Autores

DOI:

https://doi.org/10.1590/1982-0259.2025.e108277

Palavras-chave:

Interseccionalidade, maternidade, sociojurídico

Resumo

Este artigo resulta de pesquisa qualitativa e documental que investigou a concepção de maternidade presente em processos de destituição do poder familiar. Fundamentando-se na abordagem interseccional e na perspectiva decolonial, adotadas como referenciais teórico-metodológicos e projetos de resistência, foram analisadas 14 ações ajuizadas entre 2015 e 2018, com trânsito em julgado em primeira e segunda instâncias, em uma comarca da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Paraná. Os resultados evidenciaram a predominância de uma concepção hegemônica, normativa e excludente de maternidade, baseada em valores morais, sociais e jurídicos de matriz colonial. Tal modelo desconsidera marcadores sociais de desigualdade — como raça, gênero e classe — restringindo o exercício da maternidade e legitimando práticas violentas, como a retirada compulsória de crianças e adolescentes de suas famílias de origem. Conclui-se, portanto, que é fundamental romper com a lógica jurídica colonizadora e reconhecer a pluralidade das experiências maternas como forma de enfrentar a violência estrutural perpetuada pelo sistema de justiça.

Biografia do Autor

Samara Freire do Nascimento, Universidade Tecnológica Federal do Paraná

Graduada em Serviço Social (UNINTA). Graduanda em Direito (UNIMATER). Pós-graduada em Políticas Públicas, Gestão e Serviços Sociais (UCAM). Mestre em Desenvolvimento Regional (UTFPR). Assistente Social Judiciário no Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR).

Josiane Carine Wedig, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Pato Branco, Paraná, Brasil

Licenciada e Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Mestre em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR/UFRGS). Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/ UFRRJ) e doutorado-sanduíche na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS)-Paris. Professora do Departamento de Ciências Humanas e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Sérgio Paes de Barros, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Pato Branco, Paraná, Brasil

Doutor em Psicologia Social e do Trabalho pela USP - Universidade de São Paulo (2015), Mestre em Psicologia Social do Trabalho pela USP (2010), Psicólogo pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo - IP-USP (2006). Professor Associado da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR, Campus Pato Branco.

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Publicado

2026-01-08

Edição

Seção

Espaço tema livre