Novos arranjos em psiquiatria da infância e adolescência no Brasil do século XXI: a prevenção e o controle de risco em foco

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-7984.2020.e74912

Palavras-chave:

Psiquiatria do desenvolvimento, Prevenção, Controle de Risco, Medicalização da infância

Resumo

Analisou-se, neste artigo, a emergência e a disseminação dos saberes especializados em psiquiatria do desenvolvimento para a infância e adolescência no Brasil. A partir de investigação bibliográfica e documental, observou-se que esses novos arranjos em psiquiatria surgem a partir da aproximação da psiquiatria às neurociências nas últimas décadas, e configuram um modelo teórico cujos fundamentos se assentam em explicações sobre o desenvolvimento cerebral. Assim, após recrutamento de milhares de crianças e adolescentes diretamente das escolas para realização das pesquisas, pretende-se identificar cada vez mais precocemente indivíduos em risco de desenvolver os transtornos mentais e, assim, poder criar novas tecnologias diagnósticas e terapêuticas que atuem no âmbito da prevenção. A análise das iniciativas realizadas por esse grupo de psiquiatras ao longo da última década permite afirmar que a legitimação e disseminação desse novo paradigma na sociedade concorre fortemente para a ampliação da medicalização da infância e do espaço escolar no país.

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Publicado

2021-01-29

Edição

Seção

Dossiê Temático