“Machamba não é trabalho!”: HIV/SIDA e produção agrícola no centro de Moçambique

Carla Teofilo Braga

Resumo


O objetivo deste artigo é explorar como as políticas de cuidados e tratamento de HIV/SIDA e
as atitudes de alguns profissionais de saúde afectam a possibilidade de que os pacientes, em particular as mulheres, cumpram com os requisitos da terapia antirretroviral e prossigam o tratamento em Moçambique (Manica e Maputo). Concentro-me na desigualdade em termos da invisibilidade da agricultura familiar e da diversificação de meios de sustento sugerindo que: a) as políticas e o tratamento do HIV/SIDA não tomam em conta as condições de vida dos pacientes que pretendem servir. Os serviços de saúde não consideram a flexibilidade exigida pela combinação de diversos meios de sustento por parte dos pacientes; b) a invisibilidade e a desvalorização da agricultura de pequena escala diminuem as possibilidades das mulheres de cumprir com as exigências do tratamento, com consequências para a adesão ao tratamento e, por conseguinte, com graves consequências para a sua saúde e prolongamento da sua vida.


Palavras-chave


HIV/SIDA; Terapia antirretroviral; Agricultura familiar; Moçambique

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DOI: https://doi.org/10.1590/1806-9584-2019v27n367175

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Revista Estudos Feministas, ISSN 1806-9584, Florianópolis, Brasil.