A Injustiça Epistêmica na violência obstétrica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.1590/1806-9584-2020v28n260012

Resumo

Temos como objetivo, no presente artigo, apontar aspectos epistêmicos presentes na violência obstétrica. Para isso, apresentaremos o conceito de injustiça epistêmica proposto por Miranda Fricker e como tem sido utilizado para reflexões sobre as práticas de saúde na literatura de epistemologia social. Posteriormente, nos deteremos em analisar relatos de casos de violência obstétrica bem como um caso de esterilização forçada, examinando o Relatório Final da CPMI acerca da incidência de esterilização em massa de mulheres no Brasil e artigos científicos que descrevem casos de violência obstétrica. Com isso, buscamos apontar que há um aspecto epistêmico em tais violações e que uma mudança na distribuição de credibilidade pode ser relevante para o enfrentamento à violência obstétrica.

Biografia do Autor

Alice de Barros Gabriel, Instituto Federal de Goiás

Alice Gabriel é bacharela, mestra e, atualmente, doutoranda em filosofia pela Universidade de Brasília (UnB). Durante a graduação pesquisou a relação entre filosofia e a literatura de ficção científica, abordando as questões de gênero e raça na obra de Octavia Butler. No mestrado pesquisou a ideia de diferença sexual em Luce Irigaray e suas recepções. No doutorado estuda novas ontologias e feminismo material. Publicou artigos e traduções sobre teoria feminista: Paixões Desnaturadas (2011 tradução de Unnatural Passions de Catriona Sandilands), Ecopoeta Queer? (2011 tradução de Queer ecopoet? de Keitaro Morita),  Ecofeminismo e ecologias queer: uma apresentação (2011), Como pode a diferença sexual fazer diferença (2008). Atualmente é professora do Instituto Federal de Goiás (IFG), Campus Águas Lindas, onde desenvolve pesquisas sobre literatura, filosofia e teoria feminista.

Breno Ricardo Guimarães Santos, Universidade Federal do Mato Grosso

Licenciado em História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Mestre e Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Durante o mestrado investigou sobre questões localizadas na fronteira entre Ética e Epistemologia Contemporânea. No doutorado, teve como foco de pesquisa o problema do Ceticismo Radical. Realizou estágio doutoral na Northwestern University (EUA), sob a coorientação de Sanford Goldberg. Realizou também estágio pós-doutoral na Universidade de Brasília (UnB), sob a supervisão de André Leclerc, pesquisando sobre temas em Epistemologia Feminista. Atualmente é Professor Adjunto no Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde ensina, orienta e realiza pesquisas sobre temas de Epistemologia Contemporânea, particularmente acerca das questões da Epistemologia Aplicada. Sua pesquisa atual tem como título "Injustiças Epistêmicas - Aspectos políticos e sociais do conhecimento". Tem publicado sobre questões ligadas à temática dessa pesquisa, em trabalhos como "Injustiças Epistêmicas, Dominação e Virtudes" (2017), "Opressões Epistêmicas" (2018) e "Ignorância Branca" (2018. Tradução de "White Ignorance", de Charles Mills). Atualmente é Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFMT e Pesquisador Colaborar do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de Brasília. Atua e tem interesse nas áreas de Epistemologia Social, Epistemologia Feminista, Ética Prática, Teorias da Justiça e da Democracia (particularmente envolvendo temas como gênero, classe, raça e suas intersecções) e Filosofia Africana.

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2020-09-16

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Artigos