Marcação de foco estreito e o acento secundário em interrogativas totais no português do Brasil

Autores

  • Manuella Carnaval Universidade Federal do Rio de Janeiro
  • João Antonio de Moraes Universidade Federal do Rio de Janeiro
  • Albert Olivier Blaise Rilliard Universidade Federal do Rio de Janeiro

DOI:

https://doi.org/10.5007/1984-8420.2018v19n2p136

Resumo

Este artigo tem como principal objetivo investigar, em enunciados interrogativos totais, a relação entre a marcação prosódica do foco estreito e o acento secundário, no Português do Brasil, do ponto de vista da percepção e da produção. Foi elaborado um corpus de fala atuada, composto por 21 enunciados, para esta finalidade, de modo que fossem contempladas palavras focalizadas com variação do número de sílabas pretônicas, apresentando condições favoráveis e não favoráveis à ocorrência do acento secundário. Essas palavras apresentaram distribuição pelos seguintes contextos prosódicos: vocábulo final do enunciado, coincidindo com cabeça de I; vocábulo cabeça de sintagma fonológico (ɸ), posição mais forte; vocábulo que não constitui cabeça de ɸ, situando-se em posição fraca, à esquerda, podendo o sintagma fonológico estar ao início, meio ou final do enunciado. Esses enunciados foram submetidos a um teste perceptivo, com 20 juízes, que apontou para altas taxas de reconhecimento do foco interrogativo em todos os contextos analisados. Nossa análise permitiu identificar as seguintes estratégias de focalização: a associação de um pico geminado à posição do acento secundário na palavra focalizada; a compressão temporal do pico geminado, em palavras com apenas uma pretônica, portanto, que não apresentam condições favoráveis à ocorrência do acento secundário; o alongamento da sílaba tônica da palavra focalizada.

Biografia do Autor

Manuella Carnaval, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

João Antonio de Moraes, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Professor Titular do Departamento de Letras Vernáculas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador colaborador do Laboratoire d'Informatique pour la Mécanique et les Sciences de l'Ingénieur LIMSI /CNRS, Orsay, França.

Albert Olivier Blaise Rilliard, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Doutor em Sciences Cognitives pelo Institut National Polytechnique de Grenoble.

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Publicado

2018-12-27