“Alto lá”: a construcionalização de um marcador discursivo na língua portuguesa

Autores

  • Flávia Saboya da Luz Rosa Universidade Federal Fluminense
  • Mariangela Rios de Oliveira Universidade Federal Fluminense Universidade do Estado do Rio de Janeiro CNPq Faperj https://orcid.org/0000-0002-1474-281X

DOI:

https://doi.org/10.5007/1984-8420.2020v21n1p17

Palavras-chave:

Construcionalização gramatical, Marcação discursiva, Neoanálise, Analogização

Resumo

Investigamos neste artigo a trajetória que leva alto lá a se convencionalizar como membro da classe dos marcadores discursivos do português, em subfunção refreador-argumentativa. Adotando a Linguística Funcional Centrada no Uso, nos termos de Traugott e Trousdale (2013), Bybee (2010; 2015) e Hilpert (2014), entre outros, identificamos três motivações distintas que concorrem para a construcionalização de alto lá: a) as histórico-sociais, devido à origem bélica do termo alto; b) as cognitivas, relativas à conceptualização metafórica DISCUSSÃO É GUERRA, de acordo com Lakoff e Johnson (2003); c) as estruturais, que se referem tanto ao cline contextual, conforme Diewald e Smirnova (2012), em que se registram os micropassos que conduzem à construcionalização de alto lá como marcador discursivo, como também as de base analógica, em consonância com Bybee (2010) e Fischer (2009), por meio das quais alto lá, via melhor encaixe, é fixada a partir do esquema já formado por elemento indutor e afixoide locativo. Concluímos que, uma vez convencionalizada como microconstrução, [alto lá]RA concorre para reconfiguração do esquema [VindutAfixLoc]MD, que passa a ser codificado como [Indut AfixLoc]MD. Devido a essa reconfiguração, novos links são criados em que não só verbos, como também frases nominais, advérbios, entre outros, caracterizados como indutores, passam a compor a subparte nuclear da construção. A investigação tem viés pancrônico, conjugando abordagem diacrônica e sincrônica, partindo de análise qualitativa e quantitativa. 

Biografia do Autor

Flávia Saboya da Luz Rosa, Universidade Federal Fluminense

Possui duas graduações em Letras, Bacharelado em Língua e Literatura Italiana (2009) e Licenciatura em Português-Francês (2014),ambas pela Universidade Federal Fluminense, e Mestrado e Doutorado em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal Fluminense . Desenvolve pesquisas na linha Teoria e Análise Linguística, com foco na abordagem construcinal da gramática.

Mariangela Rios de Oliveira, Universidade Federal Fluminense Universidade do Estado do Rio de Janeiro CNPq Faperj

Possui graduação em Letras Português Literaturas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1981), mestrado em Letras (Letras Vernáculas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1986) e doutorado em Letras (Letras Vernáculas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993). Tem pós-doutorado na Universidade Aberta (Lisboa). É professora titular aposentada de Língua Portuguesa da Universidade Federal Fluminense; foi presidente da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN) no biênio 2015-2017 e é atualmente membro do Conselho Deliberativo da entidade. Coordenadora nacional do Grupo de Estudos "Discurso & Gramática". Foi chefe do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da UFF em três gestões e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem em duas gestões. Ex-coordenadora do GT Descrição do Português nos biênios 2012-2013 e 2014-2015. Foi editora-chefe da Revista Gragoatá de 2006 a 2016. É docente do quadro permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem da UFF e professora visitante do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da UERJ/ Faculdade de Formação de Professores, a partir de 2019. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Teoria e Análise Lingustica, atuando principalmente nos seguintes temas: língua portuguesa, funcionalismo, construcionalização lexical e gramatical, morfossintaxe e advérbios.

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Publicado

2020-07-28