Chamada Fórum Linguístico Dossiê temático Língua, Raça e Inteligência Artificial no Sul Global

2026-06-01

Língua e raça - o que envolvem, o que quem constrõem, de onde derivam e como são (re)formadas – há muitas que questões que (inter)faceiam os campos de investigação da Linguística Aplicada e da Sociolinguística (Antia; Makoni, 2023; Makoni, Kaiper-Marquez e Mokwena, 2022). No entanto, a investigação nestes campos ou esferas de investigação tem sido historicamente situada a partir Norte da Europa e da América do Norte e, consequentemente, tem-se baseado em quadros teóricos e epistemológicos ocidentais. Argumentamos que isto é imensamente problemático, uma vez que o que está ausente deste foco ocidental/norte são as práticas linguísticas e os quadros de conhecimentos centrados na língua que existiram e continuam a emergir fora da Euro-América, nomeadamente, no que se designa por Sul Global.

O termo/constructo "Sul Global" tem múltiplas conotações, dentre elas  geográficas e geopolíticas.  Neste dossiê temático da Revista Fórum Linguístico, "Sul Global" refere-se, em termos gerais, a pessoas, lugares e ideias que foram deixados de fora da grande narrativa da modernidade. Por vezes, pode ser utilizado para referir literalmente o Sul, as regiões da América do Sul e grande parte de África, por exemplo, que não fizeram parte da marcha ascendente do "progresso" econômico, social e político das nações mais ricas. Mais importante ainda, refere-se a histórias mais alargadas de exclusão e privação de direitos a nível global. Consequentemente, quando nos referimos ao Sul Global, concentramo-nos nas partes do mundo que têm sido objeto do colonialismo europeu desde o século XV e que constituem o chamado "mundo maioritário" (que abarca cerca de 80% da população mundial). No entanto, o Sul Global é mais do que uma região geográfica. É  também um termo político-econômico sinônimo de "terceiro", "desenvolvimento" ou áreas "marginalizadas" em todo o mundo. As noções do Sul Global podem referir-se aos pobres urbanos no hemisfério Norte e aos pobres rurais no hemisfério Sul; aos que lutam contra formas de preconceito racial, gênero, sexualidade; aos que têm empregos precários em diferentes partes do mundo; e aos que não conseguem pagar os elevados custos das mensalidades nas universidades tanto no Norte como no Sul Global (Pennycook e Makoni, 2019).

Por outras palavras, "Sul Global” é diverso e esta diversidade têm impacto na produção e circulação do conhecimento. Surge de um impulso a-teórico no "interesse de algum projeto, sonho, desejo, esperança, questão ou condição patológica" (Bade, 2021, 21). Por exemplo, num contexto africano, os estudos acadêmicos estão fortemente orientados para a África do Sul e não para outros contextos africanos, apesar de, em termos de recursos materiais, a África do Sul ser o país mais desigual do mundo. Se a investigação sobre o Sul Global não for efetuada com cuidado, pode reforçar ainda mais a desigualdade de espaços como a África do Sul. Por outras palavras, o termo Sul Global é uma ideia não isenta dos seus próprios desafios e contradições, e resulta frequentemente num "espaço hierarquizado" (Makoni, 2019, p. 149) que existe tanto em locais do Norte como do Sul. Consequentemente, com o foco na expansão desses espaços geográficos e político-econômicos, deriva uma mudança necessária das perspectivas do Norte usadas para entender os espaços do Sul para epistemologias e teorias criadas e derivadas das estruturas do Sul. Além disso, ao reconhecer que os saberes do Sul nascem na luta, alargamos esta proposta de modo a incluir as epistemologias nascidas durante a luta e que são um produto da luta.

Levando em consideração essas questões epistemológicas e ao (re)ler criticamente outros estudiosos/as que problematizam o constructo/conceito “Sul Global” (Rajagopalan, no prelo; Ndlovu; Leketi, 2020; Cusicanqui, 2019, 2010; Keating, 2019; Palomino, 2019; só para citar alguns), muito do que está a acontecer na Linguística Aplicada (Crítica) e na Sociolinguística a nível global baseia-se em noções ortodoxas de "boas práticas", com muito pouca atenção aos fundamentos ideológicos e epistemológicos que, em primeiro lugar, deram origem a essas práticas sociais. Consequentemente, o conhecimento situado, nascido das filosofias platônicas e das ideologias de unicidade do período do Iluminismo europeu, tem invariavelmente obliterado as orientações indígenas em relação à língua, ao lugar dos indígenas e à afirmação das identidades culturais das comunidades do Sul global no mundo contemporâneo. Quando enquadrada nesta perspectiva, é necessário, portanto, recentrar a nossa sociologia do conhecimento não só para desafiar os paradigmas ocidentais/coloniais de unicidade (como se vê nos discursos sobre a língua, a raça, o gênero e letramentos), mas também para oferecer práticas panorâmicas e transformadas sob a égide da fluidez, da flexibilidade e da complexidade, que definem os princípios fundamentais das teorias, das epistemologias do Sul e das pessoas que estas representam. Ao desuniversalizar conceitos ocidentais como globalização e língua materna, por exemplo, há uma oferta de complexidade paradigmática sobre língua, raça e sociedade, que se estende para além de formas de saber, ser e agir previamente concebidas a partir de hegemonias ocidentais.

Este dossiê temático irá problematizar os constructos língua, raça e inteligência artificial no Sul Global, desafiando as versões euro-americanas da realidade sob o termo guarda-chuva – Sul Globais. Neste número especial, convidamos pesquisadores/as que atuam na área da Linguística Aplicada (Crítica) e Sociolinguística, a submeterem artigos que contemplem, dentre outras possibilidades, as seguintes temáticas: i) equidade/desigualdade; ii) justiça social e inteligência artificial; iii) raça e inteligência artificial; iv) interseecionalidade(s); v) políticas linguísticas; vi) letramento racial; vii) globalização e; viii) os seus efeitos na sociedade contemporânea, bem como a diversidade, as práticas sociais e a afirmação de direitos num mundo multipolar contemporâneo.

 

Prazos

Submissão: De 10 agosto de 2026 a 10 novembro de 2026.

Publicação: 1º primeiro semestre de 2027.