Sentidos de legitimidade em tensão na Lei de Terras de 1850: gestos de interpretação sobre o estatuto da posse da terra no Brasil

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/1984-8412.2026.e107625

Palavras-chave:

Legitimidade, Posse, Discurso jurídico

Resumo

Este trabalho, filiado à análise materialista de discurso, apresenta uma análise discursiva da tensão entre o sentidos de posse e legitimidade na Lei Imperial nº 601/1850, ou ainda, Lei de Terras de 1850 – uma importante lei do Império que legislou, 14 dias após o fim do tráfico negreiro, a compra e a venda de terras, a revalidação das sesmarias, a legitimação das posses mansas e pacíficas e subsidiou a política de colonização de, principalmente, alemães e italianos, no Brasil, no século XIX. O primeiro artigo da Lei de Terras estabelece a compra e venda como o único meio permitido para a aquisição de terras, excluindo, a partir de então, a posse como forma legítima de obtenção. No entanto, o artigo 5º da mesma lei trata da regularização das posses anteriores à sua promulgação, permitindo que, após demarcação e comprovação da ausência de disputas, essas posses sejam reconhecidas legalmente e reconhecidas como propriedade. A partir disso, esta pesquisa mobiliza interrogações acerca das regularidades dos efeitos de memória sobre a terra que permitem ao analista de discurso opacizar as relações de leitura entre o texto jurídico e o leitor, sobretudo, no que diz respeito ao funcionamento da legitimidade, enquanto uma recorte racial e de classe do funcionamento do político.

Biografia do Autor

Alessandra Stefanello, Universidade Estadual de Campinas

Doutoranda em Linguística na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Integrante do Grupo de Pesquisa Mulheres em Discurso (CNPq).

Referências

ALTHUSSER, L. Aparelhos ideológicos de Estado. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

BENATTI, J. H. Direito de propriedade e proteção ambiental no Brasil: apropriação e o uso dos recursos naturais no imóvel rural. Tese (Doutorado em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido) – Universidade Federal do Pará. Belém, 2003.

BÔAS, R. L. V. Questão agrária e questão racial: a articulação explosiva entre classe e raça no Brasil. Passa Palavra, 2011. Disponível em: https://passapalavra.info/2011/03/36825/. Acesso em: 17 jan. 2025.

BOTH, M. A. Lei de Terras de 1850: lições sobre os efeitos e os resultados de não se condenar “uma quinta parte da atual população agrícola”. Revista Brasileira de História, v. 35, p. 87-107, 2015.

BRAGA, P. Crime e sociedade. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 2008.

BRAGA, P. O sistema jurídico no Brasil Império: alguns problemas teóricos. Revista de Informação Legislativa, Brasília, a. 40, n. 160, p. 95-105, out./dez. 2003.

BRASIL. Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850. Dispõe sobre as terras devolutas do Império. Secretaria de Estado dos Negócios do Império: Rio de Janeiro, 1850.

DE PLÁCIDO E SILVA, E. Dicionário jurídico. São Paulo: Forense, 1996.

DUGUIT, L. Fundamentos do direito. 3. ed. São Paulo: Martin Claret, 2009.

EDELMAN, B. O direito captado pela fotografia: elementos para uma teoria marxista do direito. Tradução: Soveral Martins; Pires de Carvalho. Coimbra: Centelha, 1976.

FERNANDES, F. Significado do protesto negro – Polêmicas do Nosso Tempo. São Paulo: Expressão Popular; Fundação Perseu Abramo, 2017.

GADET, F.; PÊCHEUX, M. A língua inatingível: o discurso na história da linguística. Campinas: Pontes, 2004.

GIL, A. H. La posesión. Madrid: Civitas/SA, 1980.

GOMES, F. S. Mocambos e quilombos: uma história do campesinato negro no Brasil. São Paulo: Claro Enigma, 2015.

GUIMARÃES, E. Os sentidos de cidadão no Império e na República no Brasil. Signo y seña, n. 1, p. 103-114, 1992.

IHERING, R. V. Teoria simplificada da posse. Belo Horizonte: Líder, 2004.

MALHEIROS, P. A escravidão no Brasil: ensaio histórico-jurídico-social. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1966.

MARTINS, J. S. O cativeiro da terra. 9. ed. São Paulo: Contexto, 2010.

MBEMBE, A. Crítica da razão negra. São Paulo: N-1 Editores, 2018

MODESTO, R. Os discursos racializados. Revista da ABRALIN, v. 20, n. 2, 2021, p. 1-19.

MOREIRA ALVES, J. C. Direito romano. Rio de Janeiro: Forense, 2018.

MOREIRA ALVES, J. C. Posse – Evolução histórica, v. 1. Rio de Janeiro: Forense, 1985.

MOTTA, M. Sesmarias e o mito da primeira ocupação. Revista Justiça & História, v. 4, n. 7, 2004.

OLIVEIRA, A. B.; OLDONI, F. Aquisição da propriedade ilícita pela usucapião. Jundiaí: Paco Editorial, 2013.

ORDENAÇÕES FILIPINAS. Livro IV. Universidade de Coimbra, 1916. Disponível em: http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l4p1014. Acesso em: 6 jan. 2025.

ORLANDI, E. Paráfrase e polissemia: a fluidez nos limites do simbólico. RUA, Campinas, v. 4, n. 1, p. 9-20, 2015.

PACHUKANIS, E. B. Teoria geral do direito e marxismo. São Paulo: Boitempo Editorial, 2017.

PÊCHEUX, M. Delimitações, inversões, deslocamentos. Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas, SP, v. 19, p. 7–24, 1990a.

PÊCHEUX, M. O discurso: estrutura ou acontecimento. Campinas, SP: Pontes, 1990b.

PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.

PÊCHEUX, M. Ler o arquivo hoje. In: ORLANDI, E. (Org.). Gestos de leitura: da história no discurso. Campinas: Editora da Unicamp, 1994. p. 55-64.

PÊCHEUX, M. O enunciado: encaixe, articulação e (des)ligação. In: CONEIN, B. et al. (Org.). Materialidades discursivas: a espessura da linguagem. Campinas: Editora da Unicamp, 2016. p. 227-236.

SILVA, L. Terras devolutas e latifúndio: efeitos da lei de 1850. 2. ed. Campinas: Unicamp, 2008.

SOARES, F. L. Ensaio sobre a posse como fenômeno social e instituição jurídica. In: RODRIGUES, M. A posse: estudo de direito civil português. 3. ed. Coimbra: Almedina, 1980.

VINHAS, L. I. Considerações sobre o pré-construído na Análise do Discurso: gesto de interpretação de dizeres de uma mulher presa. Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas, SP, v. 62, p. 1-15, 2021.

VIOTTI DA COSTA, E. Da monarquia à república: momentos decisivos. 6. ed. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999.

ZOPPI FONTANA, M. G. Arquivo jurídico e exterioridade: A construção do corpus discursivo e sua descrição/interpretação. In: GUIMARÃES, E.; BRUM DE PAULA, M. R. (Orgs.). Memória e sentido. Santa Maria: UFSM/Pontes, 2005. p. 93-116.

Downloads

Publicado

2026-03-05

Edição

Seção

Artigo