Heterotopias ou o desejo de outrar-se
DOI:
https://doi.org/10.5007/1984-8412.2026.e112548Palavras-chave:
Heterotopia, Michel Foucault, Invenção de Si, Profanação, DesejoResumo
No centenário de Michel Foucault, este artigo propõe um desdobramento radical do conceito de heterotopia, transpondo-o da análise de espaços concretos para o cerne da problemática da subjetividade. Argumenta-se que a heterotopia, para além de sua definição canônica como "espaço outro", constitui uma potente prática ético-política de "ser outro" no interior do próprio tecido social. Esta prática configura uma resposta ativa à dupla captura moderna: a promessa redentora de uma utopia futura e a ficção coercitiva de uma identidade estável e transparente. Para articular essa dimensão operativa da heterotopia, o texto estabelece um diálogo crítico com a noção de "profanação" de Giorgio Agamben, compreendendo a invenção de si como um gesto de desativação dos dispositivos que sacralizam formas específicas de vida. Ademais, investiga o motor dessa transformação nas teorias do desejo de Jacques Lacan e Gilles Deleuze/Félix Guattari, explorando tanto a via da falta constitutiva quanto a da produção positiva como forças antagônicas à cristalização identitária. Por fim, examina o setting psicanalítico como um laboratório heterotópico por excelência, onde a subjetividade é desestabilizada e reinventada. O objetivo final é forjar a heterotopia como um operador fundamental para uma micropolítica da existência, capaz de fundar modos de resistência e liberdade no presente.
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