“Diga ao povo que avance”: Biopolítica e medicalização do sofrimento do povo Xukuru do Ororubá

Valquiria Farias Bezerra Barbosa, Jaqueline Cordeiro Lopes

Resumo


Objetiva-se problematizar a medicalização do sofrimento do povo Xukuru do Ororubá, Pesqueira, PE, a partir dos conceitos de biopoder e biopolítica. Procurou-se articular evidências científicas recentes para uma análise de tensões na implementação da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas relacionadas à intermedicalidade e ao cuidado em saúde. A abordagem do sofrimento psíquico do povo Xukuru tem se dado, principalmente, pela atribuição de diagnósticos de transtornos mentais e prescrição de psicotrópicos. Tais práticas privilegiam a doença, despolitizando as práticas tradicionais de cura e compõem o conjunto de estratégias biopolíticas e do saber-poder biomédico para o governo das populações. Conclui-se que a desterritorialização e as tentativas de aculturação impactam na predominância de práticas terapêuticas biomédicas e no silenciamento do sofrimento psíquico dos indígenas opondo-se ao protagonismo desse povo expresso na palavra de ordem: “Diga ao povo que avance!”.


Palavras-chave


Saúde mental; Saúde indígena; Medicina tradicional; Medicalização; Biopolítica

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DOI: https://doi.org/10.5007/1984-8412.2019v16n3p3994

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