A racionalidade neoliberal e o sujeito empreendedor de si nas redes sociais: problematizando o fenômeno dos coachs mirins

Autori

DOI:

https://doi.org/10.5007/1984-8412.2026.e112381

Parole chiave:

Discurso, Neoliberalismo, Infância, Empreendendorismo, Performatividade

Abstract

O artigo analisa a construção de discursos de crianças e adolescentes que atuam como coachs mirins, de modo a criar e difundir conteúdos tidos como inspiradores nas mídias sociais digitais. Na perspectiva de Foucault, evidencia-se a condução de formas de ser e de se relacionar consigo mesmo que se conectam com a racionalidade neoliberal, pois esta prima pela autogestão, proatividade e livre iniciativa. Sob a ótica arqueogenealógica, o estudo analisa enunciados extraídos de vídeos publicados em redes sociais digitais e uma matéria jornalística publicada no portal Uol. A partir da análise empreendida, pode-se enfatizar que os coachs mirins ancoram-se em uma pedagogia da performance, a partir da qual a infância e a juventude transitam de um período de experimentação para um espaço de aprimoramento contínuo. Dessa forma, crianças e adolescentes começam a internalizar a conduta do indivíduo-empresa que é competitivo, produtivo e que assume a responsabilidade de seu próprio sucesso. Tais discursos buscam transformar os indivíduos, por meio do estabelecimento de um regime de governo que funciona por meio de afetos, desejos e motivações, direcionando, assim, condutas aliadas aos valores neoliberais, de modo a disseminar a ideia de que cada sujeito deve, desde a mais tenra idade, ser o empreendedor de si mesmo.

Biografie autore

Patrícia Diógenes de Melo , Instituto Federal de Educação

Doutora em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB) Campus Sousa. 

 

Izaías Serafim de Lima Neto, Universidade Federal do Amapá

Doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Docente da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). 

Riferimenti bibliografici

ARIÈS, P. História social da criança e da família. Tradução de Dora Flaksman. Rio de Janeiro: LTC, 2006.

BOURDIEU, P. A economia das trocas linguísticas. Tradução de Sérgio Miceli et al. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2008.

CASAQUI, V.; MATIJEWITSCH, F.; FIGUEIREDO, C. M. S. Empreendedorismo, infância e celebridade: análise dos discursos do empreendedorismo para crianças. Intexto, Porto Alegre, n. 44, p. 99-119, jan./abr. 2019. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/intexto/article/view/78062. Acesso em: 1 set. 2026.

CORTESDOMILHÃO. Porque que eu vou saber quem é Aristóteles... TikTok, 8 out. 2024. Disponível em: https://www.tiktok.com/@cortesofthemillion/video/7423504452235054342?q=cortes%20capitalista%20aristoteles&t=1770233220799. Acesso em: 1 set. 2026.

DAMON, W. O que o jovem quer da vida? Como pais e professores podem orientar e motivar os adolescentes. Tradução de Jacqueline Valpassos. São Paulo: Summus, 2009.

DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaios sobre a sociedade neoliberal. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016.

DELEUZE, G. O que é um dispositivo. In: DELEUZE, G. O mistério de Ariana. Tradução de Edmundo Cordeiro. Lisboa: Vega/Passagens, 1996.

DIGITALZ. Ela faturou 5 dígitos com o Instagram aos 16 anos! Mariana Dantas - DZA Cast #06. YouTube, 17. out. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6aU_4jmHYdQ. Acesso em: 1 set. 2026.

TV HORIZONTE. Criança empreendedora? A história inspiradora de Tessália Abranches | Ei gente. YouTube, 17 set. 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7YVCmOECG0U. Acesso em: 1 set. 2026.

FONSECA, T. M. G. Foucault somos nós. In: FONSECA, T. M. G; ARANTES, E. M. M. (org.). Cartas a Foucault. Porto Alegre: Sulina, 2014. p. 11-20.

FOUCAULT, M. Arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe B. Neves. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010a.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Tradução de Roberto Machado. 25. ed. Rio de Janeiro: Graal Edições, 2008a.

FOUCAULT, M. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège France (1978-1979). Tradução de Eduardo Brandão. Martins Fontes, 2008b.

FOUCAULT, M. Resposta a uma questão. In: FOUCAULT, M. Ditos & escritos: volume VI – Repensar a política. Tradução de Ana Lúcia Paranhos Pessoa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010b. p. 1-24.

FOUCAULT, M. Segurança, território, população: curso no Collège de France (1977-1978). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008c.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 20. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

GADELHA, S. Empresariamento da sociedade e governo da infância pobre. In: RESENDE, H. (org.). Michel Foucault e o governo da infância. Autêntica, 2015. p. 345-365.

GÊMEOS INVESTEM. Como investir sendo menor de idade *começando com pouco dinheiro*. YouTube, 2 mar. 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AlK_WZF4pvU&t=26s. Acesso em: 1 set. 2026.

HEYWOOD, C. Uma história da infância: Da Idade Média à época contemporânea no Ocidente. Tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2004.

THOMA, H. Der Kinderreigen [A Dança de Roda das Crianças]. 1872. 1 óleo sobre tela, 84,3 cm x 101,3 cm. Staatliche Kunsthalle Karlsruhe, Karlsruhe. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hans_Thoma_-_Der_Kinderreigen_(1872).jpg. Acesso em: 26 set. 2026.

LAVAL, C. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo como ataque ao ensino público. Tradução de Maria Luiza M. de Carvalho e Silva. Londrina, PR: Editora Planta, 2016.

MASSCHELEIN, J.; SIMONS, M. Em defesa da escola: uma questão pública. Tradução de Cristina Antunes. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.

MORAES, A. S.; LESSA, F. S. Imagens da infância na Atenas clássica. Romanitas: Revista de Estudos Grecolatinos, n. 16, p. 61-80, jul./dez. 2020. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/romanitas/pt_BR/article/view/33015. Acesso em: 1 set. 2026.

MORUZZI, A. B. A infância como dispositivo: uma abordagem foucaultiana para pensar a educação. Conjectura: Filosofia e Educação, v. 22, n. 2, p. 279-299, 2017. Disponível em: https://sou.ucs.br/etc/revistas/index.php/conjectura/article/view/4086. Acesso em: 1 set. 2026.

NASCENTES, A. Dicionário etimológico resumido. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro; Ministério da Educação e Cultura, 1966.

PORTAL DA PROPAGANDA. Kidy se inspira no universo dos games em sua nova campanha de verão 2019. Portal da Propaganda, 9 ago. 2018. Disponível em: https://www.portaldapropaganda.com.br/noticias/17026/kidy-se-inspira-no-universo-dos-games-em-sua-campanha-para-o-verao-2019/. Acesso em: 1 set. 2026.

PILAGALLO, S. “Estude para ser pobre”: crianças desdenham da escola e dizem lucrar na web. UOL, 9 jan. 2025. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2025/01/09/r-100-mil-por-mes-menores-trabalham-irregularmente-com-marketing-digital.htm. Acesso em: 1 set. 2026.

SAFATLE, V.; SILVA JUNIOR, N.; DUNKER, C. (org.). Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2021.

SANDEL, M. J. A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem comum? Tradução de Bhuvi Libanio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

SENELLART, M. Situação do curso. In: FOUCAULT, M. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France: (1978-1979). Tradução de Eduardo Brandão. Martins Fontes, 2008. p. 441-448.

SOUZA, K. M. Do pastorado ao governo das condutas dos homens: estado de menoridade e competição na razão neoliberal. In: BUTTURI JUNIOR, A.; FERNANDES, C. A.; BRAGA, S. (org.). Cartografias do contemporâneo: crises de governamentalidade? Campinas, SP: Pontes Editores, 2023. p. 213-238.

SOUZA, K. M. Racionalidade neoliberal e discursos de prosperidade como vigilância e governo das condutas da população. In: DORNE, V. D.; SÁ, I.; FERNANDES, C. A. (org.). Discurso, poder e vigilância: cartografar com Foucault. Campinas, SP: Pontes Editores, 2025. p. 181-206.

SILVA, R. R. D. A questão do protagonismo juvenil no Ensino Médio brasileiro: uma crítica curricular. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, v. 31, n. 118, p. 1-22, jan./mar. 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ensaio/a/L3YtRDW6FdDzVsXdswMzDHs/?lang=pt. Acesso em: 1 set. 2026.

##submission.downloads##

Pubblicato

2026-10-06

Fascicolo

Sezione

Dossiê | 100 Foucault 2: o filósofo, seu pensamento e o discurso