Indústria farmacêutica e psiquiatria no quadro da Sociologia Econômica: uma agenda de pesquisa

Marcia da Silva Mazon

Resumo


Neste artigo interessou-nos analisar a relação entre indústria farmacêutica e psiquiatria e novos contornos desta relação a partir da década de 1990 no Brasil. Argumentamos, a partir do enfoque da Sociologia Econômica a qual entende os mercados como construções sociais, que este processo ganha um desenho particular no país. O intuito do artigo é abrir uma agenda de pesquisa na área da saúde e indústria farmacêutica a partir deste referencial. A metodologia mobilizada foi revisão bibliográfica e análise documental. Quando falamos da psiquiatria brasileira, na década de 1940 este setor lutava pelo reconhecimento profissional com o discurso da prevenção da doença e o hospital psiquiátrico buscava seu espaço. No cerne das transformações recentes da reforma da psiquiatria e dos processos de medicalização - em particular a partir da publicação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM na sua quinta versão - argumentamos que a psiquiatria se reinventa como especialidade e mobiliza o discurso da prevenção, porém, agora é a prevenção medicalizada da infância; o hospital perde espaço para a indústria farmacêutica.


Palavras-chave


Estado; Indústria farmacêutica; Mercado; Medicalização; Psiquiatria

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DOI: https://doi.org/10.5007/2175-7984.2019v18n43p136

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