Ressignificar e resistir: a Marcha das Vadias e a apropriação da denominação opressora

Débora Luciene Porto Boenavides

Resumo


Este trabalho, embasado na sociolinguística crítica e na Teoria Dialógica do Discurso, analisa
a ressignificação do adjetivo opressor proposta pelo movimento Marcha das Vadias. Assim,
primeiramente, são discutidos dois temas polêmicos para a sociolinguística: o direito de nomear e a ressignificação voluntária. Após, verifica-se alguns aspectos da linguagem feminista, como a valorização do uso das formas femininas e o jargão enquanto ferramenta de exclusão. Por último, analisa-se a argumentação das organizadoras da Marcha sobre a apropriação consciente da adjetivação opressora (do termo “vadia”). Observa-se que tal adjetivo, quando utilizado pelas participantes da Marcha, é esvaziado de sentidos presentes em sua origem etimológica enquanto vocábulo brasileiro racista (para designar escravizados) e classista (para designar prostitutas), embora tente ressignificar o seu
sentido machista, relativo à promiscuidade da mulher.


Palavras-chave


Marcha das Vadias; Nomeação; Ressignificação; Sociolinguística

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DOI: https://doi.org/10.1590/1806-9584-2019v27n248405

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