Tornar-se mulher negra: escrita de si em um espaço interseccional

Viviane Inês Weschenfelder, Elí Terezinha Henn Fabris

Resumo


No artigo visa-se à compreensão de como se articula e quais os efeitos do processo de
subjetivação identitário produzido por mulheres negras contemporâneas que narram suas experiências de vida no blog Blogueiras Negras. Para o estudo foram selecionadas narrativas autobiográficas publicadas neste espaço interseccional. A análise parte de algumas chaves de leitura fornecidas por Michel Foucault e de outros(as) autores(as) que se agregam ao pensamento pós-estruturalista. O movimento de tornar-se mulher negra evidencia processos de sujeição e subjetivação que ocorrem através de um trabalho de si que é ético e político. A partir de sua identificação com a negritude e com o Feminismo Negro, as autoras estabelecem outras formas de relacionar-se consigo e com os outros (negras/os e brancas/os), o que vem produzindo novos contornos às relações étnico-raciais brasileiras.


Palavras-chave


Mulheres negras; Escritas de si; Processos de subjetivação identitário; Negritude; Feminismonegro

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DOI: https://doi.org/10.1590/1806-9584-2019v27n354025

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