Um corte na alma: como parturientes e doulas significam a violência obstétrica que experienciam

Thuany Bento Herculano, Juliana Sampaio, Tatiana Lopes de Albuquerque Tavares

Resumo


Neste artigo busca-se entender como mulheres (parturientes e doulas) significam as violências
obstétricas que vivenciam. O estudo foi realizado a partir da análise das narrativas de três parturientes e duas doulas a respeito da assistência experienciada na maior maternidade da Paraíba em 2017. As cinco mulheres frequentavam as reuniões de um grupo de gestantes, nas quais eram trocadas informações sobre a assistência ideal a partir dos preceitos da humanização do parto e nascimento. Informação e empoderamento, elementos cruciais na pauta da humanização, não foram suficientes para garantir que essas mulheres não fossem violentadas. Pelo contrário, elas vivenciam sua invisibilização como sujeitos, ao passo que seus corpos são objetificados. A informação, que deveria ter sido ferramenta para garantia de direitos, funcionou e instrumentalizou a violência.


Palavras-chave


Violência de gênero; Humanização do parto; Obstetrícia; Assistência perinatal

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DOI: https://doi.org/10.1590/1806-9584-2019v27n356406

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