Cumprindo pena juntos

Autores

DOI:

https://doi.org/10.1590/1806-9584-2020v28n60699

Palavras-chave:

sistema prisional, companheiras de presos, divisão sexual do trabalho, papéis de gênero

Resumo

O artigo pretende analisar a perspectiva de mulheres companheiras de presos no estado do Rio de Janeiro sobre os papéis que elas desempenham nas prisões. Partimos da hipótese de que suas ações teriam uma relação direta com a divisão sexual do trabalho, ou seja, as mulheres desempenhariam atividades relacionadas ao cuidado doméstico e afetivo em relação a seus parceiros, ainda que estes estejam privados de liberdade. Assim, sofreriam processos típicos do mundo prisional, como o controle dos corpos e a imposição de regras. Porém, os dados demonstram que são vários os papéis desempenhados por mulheres que optam por ‘cumprir pena junto’ com companheiros encarcerados, não podendo reduzir suas ações a uma relação de subordinação de gênero. Ainda que assumam o papel do cuidado e de apoio durante a privação de liberdade, elas exercem funções adicionais, percebidas como emancipatórias e constituidoras de novas identidades.

Biografia do Autor

Thais Lemos Duarte, Universidade Federal de Minas Gerais

Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA - UFRJ) e doutora em Ciências Sociais pelo Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da UERJ. Fez parte de diversas pesquisas sobre segurança pública, Direitos Humanos e sistema de justiça criminal. Atuou também em organizações da sociedade civil e em órgãos de Direitos Humanos, como o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura. Nos dias de hoje, é pesquisadora de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGS - UFMG).

Luana Hordones Chaves, Universidade Federal de Minas Gerais

Residente pós-doutoral em Sociologia - com bolsa CAPES -  pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e doutora em Sociologia pela mesma instituição. Possui mestrado em Ciências Sociais, e graduação em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp/Campus Marília). Com formação interdisciplinar e pesquisas sobre Direitos Humanos e a atuação das Nações Unidas, durante a formação acadêmica trabalhou sobretudo com os temas: Mundo Muçulmano e Sistemas de Justiça. Atualmente é pesquisadora no Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (CRISP/UFMG) com estudos voltados para a realidade de mulheres no sistema de justiça brasileiro, especificamente no sistema prisional. 

Isabela Cristina Alves de Araujo, Universidade Federal de Minas Gerais

Pesquisadora do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública na UFMG, participa de pesquisas voltadas para a realidade da mulher em situação carcerária. Tem interesse em Sociologia Prisional e Sociologia do Crime.

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Publicado

2020-12-18

Edição

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Artigos